[SÉRIE] “Black Mirror” – 1×02: Fifteen Million Merits (resenha)

[SÉRIE] “Black Mirror” – 1×02: Fifteen Million Merits (resenha)

“Fifteen Million Merits” é o segundo episódio da primeira temporada de “Black Mirror”, dirigido por Euros Lyn e com roteiro de Charlie Brooker e Konnie Huq.

Neste episódio conhecemos inicialmente o jovem Bing (Daniel Kaluuya) que mora numa colônia onde sua função basicamente é pedalar em uma bicicleta ergométrica para gerar energia elétrica, ele recebe merits, que é a moeda local, para comprar comida, programas novos ou atualizações para o seu avatar.

Contém spoilers

AVATAR

Avatar, sim, a interação humana praticamente não existe, eles vivem uma vida virtual, tudo controlado pela colônia.

Bing é um rapaz que se sente desmotivado ali dentro, sem um objetivo, até o dia que conhece Abi (Jessica Brown Findlay), ele se sente atraído por ela, mas não chega a tentar conversar, até que ele a ouve cantar no banheiro e fica impressionado com sua voz, então resolve criar coragem e tentar interagir.

Bing a motiva a tentar o show de calouros para que mostre seu talento, mas ela não tem merits o suficiente para tentar, então Bing oferece os seus merits extras a ela, pois como não tem objetivo nenhum no momento prefere ajudar e dá de presente 15 mil merits para a moça.

ABI HOT SHOT

Abi consegue ir ao show de talentos, que muito nos faz lembrar de realities como X Factor, American Idol ou The Voice. Após sua apresentação ela toma uma decisão por causa de uma proposta dos jurados que muda sua vida completamente.

Ela sai da colônia, mas não sai como cantora e sim como atriz de filmes pornô. Bing fica inconformado com o destino de Abi e começa a trabalhar na bicicleta e reduzir seus gastos para também tentar ir ao show de calouros e ele consegue.

ABI PORN

Bing tenta usar sua apresentação para se manifestar e criticar o sistema que vive e o modo de vida das pessoas na colônia, mas os jurados usam isso a seu favor, fazem uma proposta para Bing e ele aceita.

O episódio é uma clara crítica a manipulação e alienação da população e o papel da tecnologia nisso. Cada vez mais a população é dependente de artifícios tecnológicos e controlados sem nem notarem.

Na série vemos Bing e os outros fazendo o que é esperado deles; no caso, pedalar para gerar energia. Não fazem nada além disso, o estímulo é nulo, eles não são motivados; caso de algumas empresas que veem os funcionários como números e não pessoas. Todos brigam pra ter mais merits para assim terem a chance de dar um upgrade em seus avatares, comprar aplicativos diferentes e servem também para ignorar anúncios que aparecem a qualquer momento no quarto das pessoas; isso nos faz pensar nas dezenas deles que aparecem quando clicamos em sites ou assistimos vídeos no Youtube por exemplo.

Quem não consegue trabalhar pesado como os outros é rebaixado ao cargo de limpeza e são humilhados pelos que estão nas bicicletas por não terem feito “o básico” que é pedalar.

BIKES

Em sua maioria estes funcionários da limpeza são os gordos. Essa relação de hostilidade/humilhação que o pessoal da limpeza sofre de quem trabalha nas bikes mostra muito sobre como funcionários de diversas empresas lidam com a hierarquia e que se sentem no direito de destratar quem é “inferior” a eles, além de dar uma boa cutucada sobre a questão da gordofobia.

Quando Abi vai participar do ‘Hot Shots’, o programa de calouros (o cenário lembra muito o do X Factor), os jurados dizem que ela tem uma boa voz, mas que ela é mediana, porém até explicarem isso começam a usar argumentos bem machistas como que “ela é bonita demais e iria chamar muita atenção”, que faz ter pensamentos maliciosos e coisas do tipo deixando Abi muito constrangida.

JURADOS

Os jurados então propõem que ela trabalhe no canal erótico ou volte para a colônia. Ela decide aceitar, já que não sabe se terá outra oportunidade de sair de lá um dia.

Bing faz uma apresentação de dança inicialmente no ‘Hot Shots’, até que puxa um pedaço de vidro, que conseguiu quando quebrou uma das telas de LCD de seu quarto após um ataque de raiva, e ameaça se furar caso não o escutem.

VIDRO

Após discursar de forma incisiva e forte, os jurados passam a usar a seu favor o discurso de Bing. Traz a plateia a seu favor, usando a massa, deturpam o que Bing disse transformando ele em exemplo. As pessoas não se lembram mais exatamente o que Bing falou, mas através das palavras do jurado o rapaz se torna uma espécie de herói que ousou burlar as regras e que por “mérito” terá direito um programa/coluna onde pode expor suas opiniões e pensamentos.

Bing que chegou lá para protestar acaba cedendo e aceitando o que lhe foi proposto para poder sair da colônia. Bing foi manipulado pelo jurado que sabe muito bem usar as palavras certas para isso.

Bing tentou usar o reality de calouros para reclamar sobre a falta de privacidade, a vida controlada e sem motivação que ele vê na colônia, mas que os outros já cegos pela alienação não enxergam, porém quando ganha um programa próprio, o que se vê é que a atração acabou se tornando uma válvula de escape para os membros da colônia, isso porque Bing está ali criticando o sistema, mas ele recebe dinheiro desse mesmo sistema que ele tanto reclama e se diz contra, é contraditório, mas é uma situação bem comum.

Bing ousou ir contra o sistema e de certa forma usou Abi como teste. Vendo que tudo deu errado se sentiu culpado pelo destino dela e então se viu motivado a fazer algo. Abi teve medo de se rebelar e dizer não, medo de não ser capaz de tentar novamente ir ao show de talentos e buscar uma nova oportunidade.

ABI E BING

Abi e Bing apenas aceitaram o destino que lhes foi dado ali pelos jurados passivamente. E quantas vezes não aceitamos situações, vidas ou trabalhos medianos por não acreditarmos na nossa total capacidade? Quantos de nós não somos cegados pela alienação e não vemos nossa real capacidade em fazer coisas diversas porque a sociedade ou o sistema diz que não somos capazes?

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