[LIVRO] “O Homem que Caiu na Terra” e a complexidade humana (resenha)

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O Homem que Caiu na Terra é uma ficção científica escrita por Walter Tevis em 1963, recentemente relançado pela editora DarkSide.

O livro conta a história de Thomas Jerome Newton, um habitante do planeta Anthea que vem para a Terra em 1985, fazendo com que a história se passe 22 anos no futuro da época em que foi escrita. O livro foi escrito em plena Guerra Fria e lançado enquanto a Guerra do Vietnã estava em curso. Diversas vezes durante o livro o medo de que guerras químicas destruam o planeta é mencionado, sendo um dos principais medos de Newton, que busca trazer outros antheanos para a Terra.

Embora Newton possua uma aparência humanoide, ele tem algumas diferenças em relação aos humanos, como os cabelos completamente brancos, pupilas em formato vertical e a ausência de unhas ou pelos, além de uma capacidade intelectual elevada. Ele é alto, magro e tem um corpo mais sensível que o dos humanos, fazendo com que tenha dificuldades de se adaptar à gravidade e movimentos bruscos.

Chegando na Terra, Newton utiliza diversas invenções trazidas de Anthea para criar patentes, se tornando um homem muito sucedido rapidamente.

“Sentia-se como um homem que estivera rodeado por animais bobos e razoavelmente amigáveis e descobrira gradualmente que seus conceitos e relacionamentos eram muito mais complexos do que seu treinamento podia tê-lo feito suspeitar.”

Além de Newton, o livro apresenta outras duas personagens, intercalando o ponto de vista das três entre os capítulos. Betty Jo Mosher é uma viúva que vive de auxílios do governo e passa a maior parte do tempo bêbada. Ela vem a cruzar o caminho de Newton, se tornando sua amiga e vindo a trabalhar para ele. Nathan Bryce é um químico curioso e também viúvo que desconfia que algumas das invenções de Newton tenham vindo de outro planeta, pois mesmo ele – um químico experiente – não era capaz de entendê-las.

O objetivo inicial de Newton vindo para a Terra era construir uma nave para buscar os poucos antheanos que ainda vivem em seu planeta, que fora destruído pela guerra e sofre com a falta de alimentos, água ou outros recursos naturais. Depois de viver alguns anos entre os humanos, ele começa a questionar seu objetivo e sua identidade, além de temer o futuro do planeta Terra devido à iminência de uma guerra química que destruiria tudo (segundo a personagem, em no máximo 30 anos). Além disso, percebe que tudo o que estudou sobre humanos em Anthea, principalmente através de programas de televisão ou rádio, não fora o suficiente para viver entre eles. Com o tempo, ele começa a se sentir cada vez mais humano, conhecendo a solidão, isolamento, álcool e o peso de carregar um segredo por tanto tempo.

“Queria, de repente, ouvir o som da sua língua sendo falada, ver as cores luminosas do solo antheano, sentir o cheiro acre do deserto, ouvir os sons marcados da música de Anthea e observar as paredes dos prédios, tão finas que pareciam feitas de seda, a poeira das cidades.”

O livro tem um pouco mais de 200 páginas e a linguagem é simples, deixando a leitura rápida e leve. A narrativa foca mais nas questões pessoais, falando dos sentimentos das personagens, e não tenta forçar uma explicação para toda a tecnologia nova que Newton traz. Também não há descrições exaustivas de sua natureza ou planeta de origem, o que achei um ponto muito positivo para a história, vendo que isso costuma deixar ficções científicas mais pesadas e cansativas.

Adaptação

O livro foi adaptado para o cinema em 1976, dirigido por Nicolas Roeg e com David Bowie no papel principal. Embora o filme mantenha o plot geral da história, diversos dos detalhes foram alterados. Como o livro tem a vantagem de poder passar os sentimentos e pensamentos, deixa muito mais claro as dificuldades de adaptação de Newton.

Mas houveram três mudanças que acredito que diminuíram bastante a qualidade do filme. Uma delas é em relação ao Dr. Bryce e sua fixação por mulheres de 18 anos, que foi bem destacado no filme, mas não existe no livro, e não contribuiu em nada para a personagem. A segunda foi Mary Lou, que equivaleria à Betty Jo do livro. No livro, ela vai trabalhar para Newton quando ele compra sua casa nova, depois de cuidar dele enquanto estava doente. No filme, ela vai morar com ele como sua amante, e inclusive fala negativamente da esposa e filhos de Newton, além de passar uma imagem de pessoa desequilibrada, o que deixou a personagem bem negativa.

A última diz respeito ao motivo da viagem de Newton, onde o filme mostra que ele tinha a intenção de voltar para seu planeta de origem, sem explicar porque foi para a Terra, enquanto o livro desenvolve muito melhor essa parte.

A história do livro foi muito melhor trabalhada e recomendo inclusive para quem já assistiu o filme, visto que o desenvolvimento é diferente (e melhor).


O Homem que Caiu na Terra

Darkside Books

224 páginas

Walter Tevis

Onde comprar: Amazon


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Autora

25 Posts

Apaixonada por livros de capa dura, filmes com bastante drama, histórias em quadrinho, jogos de estratégia e essas coisitas mais. Sempre começa a escrever mais textos do que é capaz de terminar. Formada em desenvolvimento de sistemas, fã de Tolkien e criadora do Dragões Encaixotados.
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