[CINEMA] “Assim Que Abro Meus Olhos”: sobre música e política (Festival do Rio)

[CINEMA] “Assim Que Abro Meus Olhos”: sobre música e política (Festival do Rio)

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“Assim Que Abro Meus Olhos” é o longa-metragem de estreia da diretora tunisiana Leyla Bouzid, e se passa em 2010, poucos meses antes da Revolução de Jasmim (sucessão de manifestações insurgidas na Tunísia, entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, que levou à saída do presidente da República, Zine el-Abidine Ben Ali, que ocupava o cargo desde 1987).

A família da protagonista Fara, espera que ela inicie os estudos na área de medicina, porém seus planos são outros. Apoiada pelo pai e contra a vontade de sua mãe – que sabe das dificuldades de ser mulher em Tunis – ela investe às escondidas na carreira de cantora em uma banda junto a um grupo de amigos.

A música é usada de forma diegética e, portanto, muito bem amarrada à trama, uma vez que as letras das canções fazem uma forte crítica ao regime ditatorial da Tunísia. Há nesse sentido, portanto, uma interessante metalinguagem no uso das letras subversivas com as quais a banda de Farah retrata a sua realidade sócio-política e uso do próprio cinema enquanto arte narrativa pela diretora.

Vencedor do prêmio de melhor filme no Venice Days (Festival de Veneza 2015), esse drama dirigido e roteirizado por Bouzid, fala sobre o desabrochar da adolescência e o rito de passagem para a vida adulta de uma jovem que pretendia viver da música em uma sociedade extremamente repressiva, onde a mulher tem pouco ou quase nenhum direito.

A paleta de cores quentes utilizada para compor os cenários demonstra que, apesar da animosidade devido ao clima de tensão pelo conturbado momento político do país, a proximidade com que os corpos são filmados e a paixão dos personagens por suas convicções conferem um tom naturalístico à trama. Apesar do filme perder um pouco de ritmo em seu terço final, devido aos golpes que a protagonista sofre levando-a a um desencantamento do mundo, as resoluções do enredo são extremamente interessantes, fugindo dos clichês e harmonizando com o todo.

“Assim que abro meus olhos”, além de enfocar sobre a questão da liberdade (ou a falta dela) para as mulheres, é um belíssimo filme sobre a questão política da Tunísia, mas que pode ser facilmente absorvida pelo espectador brasileiro devido aos tempos austeros atualmente experimentados no país.

https://www.youtube.com/watch?v=EO67A-FIqbU


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Autora

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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