Riyoko Ikeda: a mangaká que desafiou o mundo dos mangás nos anos 70

Riyoko Ikeda: a mangaká que desafiou o mundo dos mangás nos anos 70

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Multitalentosa e com capacidade de criar personagens únicos e incríveis, Riyoko Ikeda marcou o mundo dos mangás nos anos 70. Transgrediu e revitalizou muito da própria indústria ao trazer obras como “A Rosa de Versalhes”, “A Janela de Orfeu” e “Para meu irmão…”.

Nascida em 18 de dezembro de 1947, Riyoko é uma mangaká talentosa e super reconhecida. Além disso, ingressou em estudos musicais nos anos 2000 e se tornou uma talentosa soprano. Há algum tempo disse ter o desejo de fazer uma ópera baseada em sua obra prima, “A Rosa de Versalhes”, e já fez participações em singles, como o cover feito pela banda (já separada) “La Reine”, da abertura da versão animada de “BeruBara”.

Em 1972, foi corajosa ao desafiar seus editores da revista Margaret (a contraparte feminina da Shonen Jump), Sueisha, ao mostrar que poderia sim fazer um mangá sobre a vida da princesa Maria Antonieta, da qual havia lido uma biografia e ficado impressionada. Seus editores quase vetaram um dos maiores sucessos que a revista teria, pois não viam sentido em colocar uma história onde todos saberiam o fim. Com elementos extras e personagens originais interagindo com os históricos, a obra foi conduzida de forma magistral. Anos mais tarde ela repetiria o feito com um mangá sobre o período napoleônico, recomendadíssimo para quem quer compreender de forma didática a revolução francesa, a era napoleônica e a Rússia czarista.

Personagens de “A Rosa de Versalhes”

A importância de “A Rosa de Versalhes” é tamanha que não somente quebrou tabus, como salvou o teatro Takarazuka – que estava em decadência e hoje é palco de diversos espetáculos. Infelizmente não há nenhuma editora brasileira com interesse de trazer seus mangás, mas é possível encontrar boa parte de sua obra, em espanhol, através de fansubs.

A Rosa de Versalhes

Lançado em 1972 e adaptado em anime em 1979, “Berusayu no Bara” ou “A Rosa de Versalhes”, é um shoujo épico que mostra os eventos que se tornariam o gatilho para a revolução francesa, através do elo do destino entre três personagens (dois históricos e um fictício). É considerado a maior obra de Riyoko Ikeda e a mais conhecida, tanto no Japão quanto fora, sendo sucesso e clássico por 4 décadas ininterruptamente. Em 1979 também ganhou uma versão live-action nipo-francesa.

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Oscar e Maria Antonieta

Uma curiosidade sobre a obra é que a “rosa” do título é a princesa e rainha Maria Antonieta, porém quem acabou por ganhar os holofotes e o protagonismo foi sua guarda, Oscar François du Jarjayes. E ela é um dos fatores que justificam taxar  a obra como transgressora. Se nos anos 80 o machismo japonês era forte e intenso (como citado sutilmente na matéria sobre Saintia Shô), imagine isso no início dos anos 70, onde a Margaret era uma revista relativamente nova e acostumada a romances simples e açucarados. Pois bem, Riyoko conseguiu quebrar tabus ao inserir uma personagem crossdresser, não exatamente por querer, e sim, por obrigação. Porém, Oscar é uma mulher intensa e justa, que não abaixa a cabeça para os homens.

Outra curiosidade é que alguns detalhes da vida pessoal da monarca só foram conhecidos anos depois da publicação, contrastando com o mangá (havia a suspeita que ela e Axel Von Fersen eram amantes, mas cartas comprovariam que eles eram apenas amigos. Na obra eles se tornam amantes no final da história, mas ficam volumes e volumes num clima de romance platônico).

A história acompanha a vida de Maria Antonieta desde a Áustria até sua morte na guilhotina, os dilemas enfrentados por Oscar e sua condição de “fazer-se” homem perante a sociedade, seu coração de mulher e a luta de Axel Von Fersen entre seu coração e a lealdade para com a monarquia francesa. Intrigas, pitadas de comédia e romance servem de conduíte pra a explosão da revolução e queda da Bastilha.

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Arte de Shingo Araki (Cavaleiros do Zodíaco) para a versão animada.

O anime chegou a ter alguns episódios dublados no Brasil e o filme (que resume os 40 episódios), lançados em vídeo por conta do sucesso de “Cavaleiros do Zodíaco”, já que seu design foi coordenado por Shingo Araki e Michi Himeno, que anos mais tarde trabalhariam na obra de Kurumada. A adaptação em animação fez Oscar perder muito de sua personalidade, se tornando mais submissa e séria que sua versão real.

A janela de Orfeu

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Julius e a intrigante janela que dá nome a obra

Lançado entre 1976 e 1981, também na Margaret, “Orpheus no Mado” é outra obra que conta com a temática crossdresser, dessa vez ambientada na Rússia czarista e na Alemanha, acompanhando os fatos que culminariam na Revolução Russa e a queda da monarquia, com toques de música.

Em uma escola de música chamada Instituto St. Sebastian, existe a lenda de que quem ver uma jovem dama através de uma janela, irá se apaixonar por ela, porém será um amor trágico e cheio de dor, tal qual a lenda de Orfeu e Eurídice, o que fez a janela ser conhecida como “A Janela de Orfeu”. E é aí que entra o triângulo amoroso de tragédia: Isaac, Klaus e Julius, que na verdade é Julia e precisa se disfarçar como homem para poder se tornar herdeira de sua família e poder proteger a mãe, uma simples empregada com quem o pai teve um caso, uma vez que estamos em 1903, numa sociedade bem mais patriarcal do que somos hoje. Isaac, um pianista talentoso e bolsista no Instituto e Klaus, um violinista fabuloso, veem Julius na janela e, bem, como na lenda, se apaixonam pela garota, ainda sem saber de seu segredo.

Mas o que começa como um shoujo “fofo” acaba por virar uma trama complexa, densa, cheia de mistérios, assassinatos e tragédias, tornando o triângulo em outro polígono amoroso.

Para meu irmão…

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Versão Animada de “Para meu irmão…”

Outra obra que ganhou versão animada, “Oniisama e…” foi publicado em 1975 com apenas três volumes e ganhou sua versão animada em 1991, com 39 episódios. Assim, como nas obras anteriores, temos outro personagem travestido do gênero oposto. A história é protagonizada por Nanako, de 14 anos, que estuda em uma prestigiada academia e tem como distração escrever cartas a um “irmão” (que no caso entra para aquela parte da gramática onde “onii-san/sama” pode referir-se a um rapaz mais velho para quem se guarda uma admiração). Esse “irmão” é apenas o leitor das cartas; não responde as mesmas. Ela se corresponde com seu professor de cursinho, Takehiko Henmi.

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Ao iniciar sua vida escolar no novo colégio, ela esbarra num belo rapaz durante o caminho, mas logo Nanako descobre que na verdade se trata de uma moça andrógina, Rei Asaka, conhecida por “Saint-Just”. Ao longo do enredo, Nanako acaba se envolvendo em situações densas com outras alunas e até mesmo quanto ao seu próprio passado, e além da temática crossdresser, Ikeda colocou assuntos como depressão, uso de drogas e suicídio. É uma obra que fala do amadurecimento e da hipocrisia da sociedade.

Lista de Obras da autora

  • Bara Yashiki no Shōjo (1954) — conto
  • Soyo Kaze no Mary — conto
  • Francesca no Shouzou (1969)
  • Sokoku ni Ai o (1969)
  • Freesia no Asa (1970)
  • Futari Pocchi (1971)
  • Ikite te Yokatta! (1971)
  • Jinchouge (1971)
  • Mariko (1971)
  • Sakura Kyou (1972)
  • Berusaiyu no Bara (1972) — A Rosa de Versalhes, Lady Oscar
  • Shiroi Egmont (1973)
  • Yureru Soushun (1973)
  • Shōko no Etude (1974)
  • Oniisama e (1975) – Para meu irmão…
  • Orpheus no Mado (1976) – A Janela de Orfeu
  • Claudine (1978)
  • Ayako (1980)
  • Epitaram: A Wedding Song (1981)
  • Aoi Zakuro (1983)
  • Jotei Ecatherina (1983)
  • Berusaiyu no Bara Gaiden (1984) — capítulos extras de A Rosa de Versalhes
  • Eikou no Napoleon – Eroica (1986) – Eroica – A glória de Napoleão
  • Glass no Yami (1987)
  • Mijo Monogatari (1988)
  • Kasuganotsubon – Kefuzo Kataku o (1989)
  • Porando Hishi Ten no Hate Made (1991) — Uma história secreta polonesa: Para as fronteiras do céu
  • Shoutoku Taishi (1991)
  • Fuyu no Shukusai (1997)
  • Elizabeth (1999) — apenas texto; arte por Erika Miyamoto
  • Niberunku no Yubiwa (2000) — Der Ring des Nibelungen, O anel de Nibelungo (baseado em ópera de Richard Wagner)
  • Ikeda Riyoko the Best: Ai to Tatakau Onnatachi (2001)
  • Falcon no Meikishu (2004)
  • Ai wa Waltz ni Nosete (2005)
  • BeruBara Kids (2006) — A rosa de Versalhes Kids (parody)
  • Haru no Yuki (2006) — Neve de Primavera
  • Taiyou Shijinki (2007) – baseado em um conto coreano, serviu de base para um seriado do mesmo país.
  • Taketori Monogatari (2014)


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