[SÉRIES] Agent Carter: O valor de Peggy Carter e o Feminismo

[SÉRIES] Agent Carter: O valor de Peggy Carter e o Feminismo

Em 2015 estreou a série de televisão protagonizada pela cofundadora da S.H.I.E.L.D., Agent Margaret ‘Peggy’ Carter (Agent Carter), personagem chave na mitologia do Capitão América (especialmente na versão cinematográfica), que vem se tornando, por causa dessa série, uma das figuras do mundo dos quadrinhos com grande reverberação junto ao movimento feminista, pelos posicionamentos da personagem quanto mulher no mundo (mais) machista do pós 2° Guerra Mundial.

(Contém pequenos spoilers)

A personagem, que teve sua estreia live action em 2011 em Capitão América: O Primeiro Vingador, é, desde de então, interpretada pela atriz britânica Hayley Atwell. Ela contou com participações (diretas ou não) em todos os filmes do herói, além de uma pequena participação em Vingadores: A Era de Ultron. Sua primeira aparição solo foi em 2013 no curta Marvel: Agent Carter, no qual é mostrado sua última missão antes dela se juntar com outros para fundar a S.H.I.E.L.D. Depois disso as produtoras Michele Fazekas e Tara Butters se juntaram para produzir no canal de TV norte-americano ABC.

A primeira temporada trata primariamente sobre perdas, mostrando-as das maneiras mais variadas. Uma delas foi a marca deixada pela perda de Steve Rogers, o Capitão América, depois de seu desaparecimento. A (aparente) morte de Steve, que Peggy vê mais como uma perda da pessoa e não do herói, já que os dois eram “próximos” antes mesmo dele ter se tornado um super soldado, afeta Carter nas várias camadas de sua vida, especialmente no campo dos relacionamentos interpessoais (não necessariamente amorosos), fazendo com que ela se afastasse das pessoas por medo de perdê-las.

Agent Carter

Mas, mais do que perder seu “grande amor”, com o fim da guerra, Peggy sente a perda de sua posição dentro das forças armadas, e junto com isso, a perda de um propósito. Ela não é mais vista como uma agente essencial para o trabalho da SSR, como era durante a guerra. Relegada a tarefas de secretária, ela é subestimada por todos os seus colegas de trabalho, incluindo aqueles que a tratam bem, sendo vista por uns e por outros, segundo ela mesma, como nada mais do que cada um deles imaginava dela, sendo para seu chefe uma espécie de bichinho abandonado, e para seus colegas uma donzela em perigo ou a garota colocada em um pedestal (Agent Carter, 2015, S1E7).

Agent Carter

É na figura de sua melhor amiga, a garçonete Angie, que ela encontra uma ponte entre seu mundo de espionagem, violência e perda, e uma vida comum, com relações de amizade e conversas triviais (mas necessárias para Peggy que, especialmente durante a primeira temporada, sofre tanto por conflitos morais e, mais uma vez, por perdas). Além dela, Peggy ainda conta com o auxílio e, posteriormente, a amizade de Edwin Jarvis (sim, Jarvis), mordomo de seu velho amigo Howard Stark (pai de Tony Stark, o Homem de Ferro), que a acompanha durante suas aventuras para tentar desvendar um caso antes de seus colegas da SSR completamente alheios.

Com um arco longo e cheio de reviravoltas, a primeira temporada de Agent Carter apresenta um Peggy mais profunda e complexa em relação a suas aparições na tela grande, mostrando sua luta por espaço em um mundo ainda mais machista do que o nosso, onde a invisibilidade de Peggy junto aos seus colegas é usada por ela como um instrumento para conseguir trabalhar em suas próprias investigações. Ao mesmo tempo, ela aprende que as lutas por espaço e por superação de suas perdas não poderiam ser ganhas sozinha.

Agent Carter

A segunda temporada da série leva Carter para Los Angeles, na investigação de um caso estranho que acaba se desdobrando em algo muito maior (nível o-mundo vai-acabar). Nela, Peggy, que ao final da primeira passa por um momento de compreensão de sua perda amorosa, ao mesmo tempo que ganha novamente seu espaço dentro da SSR, tem que lidar com um ambiente novo, ao mesmo tempo que lida com um cada vez mais animado Jarvis, que quer participar de suas aventuras (até o momento em que ele descobre que mesmo as melhores aventuras vem com um custo). Tendo maior foco na relação de amizade dos dois (estendida a esposa de Jarvis, Ana), a segunda temporada perde um pouco do impacto da primeira, mas não falta em qualidade.

Agent Carter

O arco de mistério é tão bem feito quanto o da primeira, ao mesmo tempo em que a maioria dos personagens em tela já são conhecidos pelo público, o que dá espaço para novas ligações e maior exploração de relações antigas. O fantasma da perda de Steve já não assombra mais Peggy, que “ganha” dois interesses amorosos. Mas o lugar da mulher ainda é questionado, especialmente na figura da vilã desta temporada, Madame Máscara, uma atriz com incrível conhecimento científico (personagem baseada na atriz e inventora, Hedy Lamarr). O antagonismo entre as duas é um dos focos da temporada, característica interessante pela raridade em que séries de televisão mostram o embate entre duas mulheres com grandes mentes, que se tornam arqui-inimigas antes mesmo de se encontrarem (algo comum quando o embate se dá por jogos psicológicos, ou mesmo quando pensamos em grandes vilões como Moriarty, por exemplo). 

Agent Carter foi cancelada prematuramente após sua segunda temporada. A série está inteiramente disponível aqui no Brasil pela Netflix, onde permanece para mostrar todo o seu valor, assim como sua protagonista, sabe que tem.

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Bat-fã, que ama cachorros, quadrinhos, chocolates e coisas velhas. Formada em História pela Universidade de São Paulo; tem como metas de vida trabalhar com arquivo histórico e HQs (de preferência ao mesmo tempo), e convencer sua irmã mais velha de que a Canário Negro venceria em um combate corpo a corpo contra a Caçadora.
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