O machismo sistêmico em “A vida invisível de Eurídice Gusmão”

O machismo sistêmico em “A vida invisível de Eurídice Gusmão”

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A vida invisível de Eurídice Gusmão, publicado em 2016 pela editora Companhia das Letras, é o romance de estreia da jornalista, editora e escritora carioca Martha Batalha.  Porém, antes de nos debruçar sobre a história da nossa protagonista, a genial Eurídice Gusmão, vamos dar uma olhada no processo editorial desse romance, pois ele também nos conta uma história exemplar.

“Feito raro para um romance de estreia, A vida invisível de Eurídice Gusmão é festejado internacionalmente antes de chegar às livrarias brasileiras, com os direitos já vendidos para mais de dez editoras estrangeiras.”

A citação acima, que abre a apresentação do romance no site da editora, chama a atenção, de modo positivo, qualificando de “feito raro” o percurso editorial do romance. O que teria acontecido para que um livro brasileiro, estreante, de ficção, escrito por uma mulher, em português, fizesse sucesso no exterior antes mesmo de ter sido publicado no Brasil?

Pois não foi nenhum evento extraordinário, nenhum “feito raro”. O que aconteceu, na verdade, é que o romance de Batalha foi sistematicamente rejeitado pelas editoras brasileiras. Segundo esse artigo de Maurício Meireles, “Record, Intrínseca, Globo Livros, Objetiva e LPM não se interessaram pela obra”. A única editora que teria demonstrado interesse é quase desconhecida Companhia Editora Nacional, mas que não chegou a publicar a obra por conta do atraso na previsão de publicação, seguido por uma posterior rescisão do contrato.

A história do livro poderia simplesmente ter se encerrado nesse ponto, em razão da rejeição generalizada, se não fosse por uma brilhante estratégia da agente literária de Batalha, Luciana Villas-Boas, que decidiu oferecer o romance às editoras estrangeiras. A primeira editora que se interessou foi a alemã, Sürhkamp, que escreveu, inclusive, uma espécie de “carta de recomendação”, atestando o seu interesse, bem como as qualidades da obra.

Na sequência, o livro de Batalha foi um sucesso na Feira do Livro de Frankfurt, de 2015, e os  seus direitos foram vendidos para a francesa Denoel, a italiana Feltrinelli, a portuguesa Porto, a holandesa Nieuw Amsterdam e a hispânica Seix Barral. O livro também será adaptado para o cinema, pelas mãos do produtor Rodrigo Teixeira e será dirigido por Karim Aïnouz.

A vida invisível de Eurídice Gusmão

Diante do grande sucesso no mercado internacional, a agente de Batalha voltou a bater às portas das editoras nacionais, conseguindo, finalmente, vender os direitos do livro para a Companhia das Letras. Apesar de a própria autora atribuir o “fracasso” inicial à crise – e ela própria, já tendo sido editora, conhece profundamente o mercado brasileiro, não podemos deixar de nos perguntar se, além do fato de ser uma autora estreante (o que costuma dificultar o aceite por parte das editoras), o tema do livro não teria sido um dos grandes motivos pelos quais o livro fora sistematicamente rejeitado. Para saber um pouco mais sobre a história, vamos dar uma olhada na sinopse do romance, disponível no site da editora.

“Rio de Janeiro, anos 1940. Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar.

Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas.

A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX e criadas apenas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha.

Enquanto acompanhamos as desventuras de Guida e Eurídice, somos apresentados a uma gama de figuras fascinantes: Zélia, a vizinha fofoqueira, e seu pai Álvaro, às voltas com o mau-olhado de um poderoso feiticeiro; Filomena, ex-prostituta que cuida de crianças; Luiz, um dos primeiros milionários da República; e o solteirão Antônio, dono da papelaria da esquina e apaixonado por Eurídice.

Essas múltiplas narrativas envolvem o leitor desde a primeira página, com ritmo e estrutura sólidos. Capaz de falar de temas como violência, marginalização e injustiça com humor, perspicácia e ironia, Marta Batalha é acima de tudo uma excelente contadora de histórias. Uma promessa da nova literatura brasileira que tem como principal compromisso o prazer da leitura.”

Depois de ler a primeira parte dessa apresentação, qual palavra está faltando? E assim, não é nenhum jargão inacessível, trata-se somente da palavra que nomeia a maior parte das relações que se estabelecem entre os personagens e que organiza toda a narrativa. Deu para perceber? Apesar do livro ser todinho construído em cima da discriminação, da violência, das desigualdades sociais, econômicas e históricas em relação à mulher, ainda assim a palavra “machismo” fica de lado.

Da mesma forma como a palavra feminismo assusta muita gente ainda, a palavra machismo também. Entretanto, é preciso sim nomear a opressão e apontar que a situação em que viveu Eurídice. A protagonista do romance não era um caso atípico, pois a violência simbólica a qual ela foi submetida durante toda a sua vida não era apenas mais uma característica do seu casamento, mas sim o resultado de construções maiores; de estruturas sociais que organizam a grande maioria das relações que se estabelecem entre homens e mulheres. Então, podemos dizer que, sim, “A vida invisível de Eurídice Gusmão é um livro sobre machismo. E, olha, em certos momentos, é necessário ter o estômago forte, viu…

A vida invisível de Eurídice Gusmão

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Sobre a história

A narrativa se concentra sobretudo na vida de Eurídice Gusmão, da sua infância até a sua vida adulta, dando ênfase principalmente nas escolhas que ela não teve ou que foi desencorajada — seja pelos pais ou, mais tarde, pelo marido —  a tomar. Para dar uma ideia do tom, confira o início do romance.

“Quando Eurídice Gusmão se casou com Antenor Campelo as saudades que sentia da irmã já tinham se dissipado. Ela já era capaz de manter o sorriso quando ouvia algo engraçado, e podia ler duas páginas de um livro sem levantar a cabeça para pensar onde Guida estaria naquele momento. […]

Por que Eurídice e Antenor se casaram ninguém sabe ao certo. […]

A questão é que se casaram, com igreja lotada e recepção na casa da noiva. Duzentos bolinhos de bacalhau, dois engradados de cerveja e uma garrafa de champagne para o brinde na hora do bolo. Um vizinho professor de violino se ofereceu para tocar na festa. Cadeiras foram empurradas contra a parede, para os casais dançarem uma valsa.

[…]

Foi uma cerimônia simples, seguida por uma festa simples, e por uma lua de mel complicada. O lençol não ficou sujo, e Antenor se indignou.

“Por onde raios você andou?”

“Eu não andei por canto algum.”

“Ah, andou, mulher.”

“Não, não andei.”

“Não me venha com desculpas, você sabe muito bem o que deveríamos ter visto aqui.”

“Sim, eu sei, minha irmã me explicou.”

“Vagabunda. Eu me casei com uma vagabunda.”

“Não fale assim, Antenor.”

“Pois falo e repito. Vagabunda, vagabunda, vagabunda.”

Sozinha na cama, corpo escondido sob o cobertos, Eurídice chorava baixinho pelos vagabunda que ouviu, pelos vagabunda que a rua inteira ouviu. E porque tinha doído, primeiro entre as pernas e depois no coração.

Nas semanas seguintes a coisa acalmou, e Antenor achou que não precisava devolver a mulher. Ela sabia desaparecer com os pedaços de cebola, lavava e passava muito bem, falava pouco e tinha um traseiro bonito. Além do mais, o incidente da noite de núpcias serviu para deixá-lo mais alto, fazendo com que precisasse baixar a cabeça ao se dirigir à esposa. Lá de baixo Eurídice aceitava. Ela sempre achou que não valia muito. Ninguém vale muito quando diz ao moço do censo que no campo profissão ele deve escrever as palavras “Do lar”.”

Deu para sentir o soco no estômago? Essas são as primeiras páginas do romance e a história evolui rapidamente: logo na sequência, dois filhos e depois a rotina, que se estende aos cuidados intermináveis com a casa e com as crianças. É muito trabalho, e trabalho pesado e, obviamente, ela é a única responsável por esses tarefas. Antenor, o marido, cumpria à risca os únicos papéis que lhe cabia: a manutenção da autoridade da família e o sustento.

Martha Batalha
A autora Martha Batalha. Imagem: Globo / reprodução

Um aspecto que é bem interessante de ressaltar é que Antenor não é pintado como o macho detestável, o agressor, o opressor. Ele é apenas esse homem ordinário, essa representação mais prototípica que podemos encontrar na sociedade. Ele é aquele cara que, se fosse hoje, talvez não assumisse o seu machismo, pois “é assim que as coisas são”, “existem trabalhos de homem e de mulher”, “a mulher é naturalmente mais dotada mais os trabalhos da casa e dos filhos”, “eu chego cansado, não vou ajudar nas tarefas domésticas” e por aí vai.

Se o romance parasse por aí, certamente a leitura seria muito mais desesperadora – e ela já é suficientemente desesperadora, pois é muito fácil de se identificar com várias coisas que acontecem com as mulheres que aparecem nessa ficção. Entretanto, a autora desenvolve Eurídice muito bem: ela é complexa, dinâmica, inteligentíssima e, aos poucos, consegue encontrar alguns espaços de respiro, para poder ser ela mesma, desenvolver seus talentos, escapar um pouco da rotina enlouquecedora que o casamento lhe impusera.

Para resumir, A vida invisível de Eurídice Gusmão é um livro ótimo e necessário, pois se desenvolve todo em torno das personagens femininas: de suas vivências, de suas angústias, de suas expectativas, de seus silêncios. São assuntos sobre os quais precisamos falar, que precisam encontrar eco em todas as esferas, que precisam ser compartilhados e debatidos. Como já comentamos, a leitura é, por vezes, dolorosamente verossímil, mas essa é justamente a maior força desse romance. Imperdível!


A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Martha Batalha 

176 páginas

Companhia das Letras

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Professora, feminista, pesquisadora em literatura, engajada na missão de ler sempre mais mulheres. É viciada em livros & séries. Tem sempre um lugar especial no coração para Star Wars, filmes da Ghibli & gatos.
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