[42ª MOSTRA DE SP] “A Terceira Esposa”, “Guerra Fria” e “Garotos Que Gostam de Garotas”

[42ª MOSTRA DE SP] “A Terceira Esposa”, “Guerra Fria” e “Garotos Que Gostam de Garotas”

A Delirium conferiu três filmes na 42ª Mostra de SP que abordam questões sobre a liberdade ou o aprisionamento feminino. Confira!

A Terceira Esposa

42ª Mostra de SP

A Terceira Esposa é o belíssimo filme de estreia da diretora Ash Mayfair. No Vietnam do século XIX, a jovem May, de apenas 14 anos, se torna a terceira esposa de um rico dono de terras, bem mais velho que ela. Acolhida pelas outras duas esposas, que a ensinam sobre as regras da vida com a nova família, May passa por um período de autodescobrimento, navegando o novo espaço que habita com ânsia pela adequação e reconhecimento.

O filme é visualmente belo, com ênfase nas lindas paisagens bucólicas que rodeiam os personagens. A direção de arte também é fantástica, com um rico nível de detalhes na produção do figurino e objetos antigos. Tais elementos, que muitas vezes são mostrados em close, são um deleite de se assistir. A atuação também é bastante delicada, seguindo o direcionamento do filme em nunca cair no melodrama ou na exaltação. A comunicação entre os personagens é muitas vezes feita por meio de olhares e toques, e até as repreensões são feitas em voz baixa, contida.

É interessante que o patriarca da família – o marido de todas elas – é basicamente uma figura silenciosa. Mal aparece e mal fala durante o filme, se tornando mais um símbolo da opressão a que todas estão submetidas, em vez de um personagem real. Isso contribui para deixar claro que o foco da narrativa é exclusivamente das mulheres, uma atitude muito positiva. May tem que navegar esse mundo percebendo que, por mais que cumpra bem todas as suas tarefas, seu papel como mulher naquela sociedade jamais lhe conferirá o conforto que anseia.

Embora esteja presa em um ambiente de sutil competição feminina, plácida reprodução e servidão sexual, a história de May não romantiza seu sofrimento. Apesar da bela atmosfera criada pela fotografia e trilha sonora, o filme funciona muito como uma denúncia sobre a forma que as mulheres estão reféns de regras sociais, mesmo no paraíso. E não haverá paz enquanto tais regras existirem, não importa a afluência material ao redor. 

Uma das maiores qualidades do filme, além de seu valor estético e narrativo, é a abordagem da sexualidade de May e das outras mulheres, tratada de forma natural, sem tabus, fetichismos ou conservadorismos, e sim como parte normal e saudável da vida. É possível que o fato de ter uma diretora mulher tenha contribuído para esse olhar. Precisamos urgentemente de mais filmes que tratem do assunto com esse viés positivo. Este é um dos melhores filmes da 42ª Mostra de SP até então.

https://www.youtube.com/watch?v=thuWXGk7K-w

Guerra Fria

42ª Mostra de SP

Guerra Friado diretor Pawel Pawlikowski (ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Ida”) tem todos os ares de filme clássico europeu. Além do formato quadrado da tela e da fotografia em preto e branco, conta a história de uma paixão conturbada entre um pianista e uma cantora, ambos poloneses, que se encontram e se separam repetidamente pela Europa durante a época da guerra fria. 

A fotografia traz muita elegância ao filme, mas é a trilha sonora, toda diegética, que o eleva a um alto nível, incluindo desde canções pastoris polonesas até jazz cantado em francês. O desenho de som também trabalha muito bem com as cenas mais silenciosas, enfatizando principalmente os ambientes de natureza pelos quais o casal passeia, temperando a paisagem com delicados sons de folhas ao vento, barulho de água correndo, e assim por diante. 

Todo o charme do filme balanceia a cansada história de amor impossível. Os atores trabalham bem, mas apesar de terem apenas 5 anos de diferença de idade na vida real, a dinâmica professor-aluna faz ele parecer bem mais velho que ela. Apesar de incluir também a antiga dinâmica do homem que persegue e a mulher que foge, a personagem feminina é retratada como bastante independente, inclusive sexualmente, o que é bem positivo. Guerra Fria é um filme elegante e charmoso, que cativa principalmente pela sua excelente trilha sonora.

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Garotos Que Gostam de Garotas

42ª Mostra de SP

No documentário Garotos Que Gostam de Garotas, da diretora Inka Achté, acompanhamos a luta de Harish Sadani, que fundou o grupo ativista MAVA (do inglês: Men Against Violence and Abuse, ou “Homens Contra Violência e Abuso”), o qual coordena até hoje. Orientando grupos de meninos e adolescentes em Mumbai, na Índia, o grupo instrui sobre violência sexual e verbal direcionada a mulheres, desconstrói mitos prejudiciais e ensina a desenvolver respeito por elas.

Um dos garotos frequentadores que os outros meninos mais admiram é Ved, e portanto o filme o observa de perto, acompanhando sua vida cotidiana, com seu pai abusivo (que nunca aparece, mas é mencionado várias vezes), as dificuldades da pobreza e do pensamento conservador de sua comunidade, e a paixão de Ved pela dança. O documentário pretende investigar o que faz com que meninos tão novos aprendam a odiar mulheres tão cedo, e como a educação pode ser uma via transformadora para transformá-los em garotos que realmente gostam de garotas. 

É triste, porém, notar as precárias condições de financiamento do MAVA. Há uma cena em que Harish vai até uma conferência de direitos humanos na Dinamarca, em busca de angariar mais fundos, mas todas as organizações ali não financiam grupos administrados por homens. Tomara que este belo documentário, além de nos encher de esperança por um mundo melhor, também consiga atrair mais atenção e suporte financeiro para grupos que combatem a misoginia desde cedo, trazendo uma perspectiva de melhora de vida para meninas e meninos das futuras gerações.

Para ver os horários de exibição dos filmes, acesse o site da Mostra.

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores.
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