[42ª MOSTRA DE SP] Balanço do Dia: “Ága”, “Rafiki” e “Temporada”

[42ª MOSTRA DE SP] Balanço do Dia: “Ága”, “Rafiki” e “Temporada”

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O Balanço do Dia da Delirium Nerd na 42ª Mostra de SP conta com três filmes que falam sobre a inadequação onde se vive, mediada por conflitos familiares. 

Ága

42ª Mostra de SP

Com direção de Milko LazarovÁga é sobre um casal inuit que mora isolado no meio do ártico, sendo uns dos últimos seguindo o modo de vida tradicional de seu povo. O filme mostra a rotina deles, caçando, pescando no gelo, costurando roupas com peles de animais, e vendo aos poucos os efeitos do aquecimento global e do mundo moderno afetando sua vida, como na primavera que chega cada vez mais cedo derretendo o gelo e nos aviões que passam no céu com mais frequência. 

O sutil conflito principal se dá sobre a filha do casal chamada Ága, que justamente representa o rompimento com a vida tradicional. Ela saiu de casa para trabalhar em uma mina de diamantes, o que seus pais consideram uma espécie de traição. A narrativa, porém, é bastante econômica e funciona por meio de metáforas. O auge do filme ocorre nas lindas paisagens contemplativas, filmadas em enormes planos abertos, com as figuras humanas minúsculas andando no horizonte. Junto à trilha sonora, essas cenas se elevam a uma experiência lírica sublime. É das coisas mais bonitas de se ver.

Rafiki

42ª Mostra de SP

Da diretora Wanuri Kahiu, Rafiki conta a história de duas jovens lésbicas que tem que lutar contra a sociedade conservadora do Quênia e a rivalidade política de seus pais. Seguindo uma narrativa tradicional aos filmes do gênero, acompanhamos o belo florescimento do amor entre Kena e Ziki, para em seguida testemunhar sua terrível perseguição e o dilema entre a conformidade e o enfrentamento. 

Com atuações primorosas e uma bela trilha sonora, esse é um filme que reconhece a necessidade da denúncia, mas não se esquiva de alimentar o sonho. Afinal, é da esperança de tempos melhores que nascem as mais poderosas resistências.  

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Temporada

42ª Mostra de SP

Temporadadirigido pelo excelente André Novais, mostra mais uma vez o enorme talento da atriz Grace Passô, que carrega o filme com uma atuação fantástica na pele de Juliana, personagem marcantemente diferente de sua estreia no cinema com Praça ParisApós mudar para a cidade de Contagem, Juliana encontra um ambiente acolhedor com seus novos amigos de trabalho, que vão aos poucos transformando sua vida, contrastando com o abandono de seu marido que ficou na cidade antiga. 

Com uma fotografia simples e uso de bastante luz natural, o filme foca no cotidiano de Juliana, rodeada pelos colegas (alguns deles umas figuras hilárias e cativantes) e pelo monótono trabalho que realiza na prevenção de dengue e outras doenças. Os personagens são todos muito bem desenvolvidos e também há um foco em cenas de conversas e contação de relatos sobre a própria vida – algo tão comum na vida real, que parece que estamos testemunhando aquelas conversas ao vivo. Essas cenas funcionam tão bem pelas belas interpretações, todas afiadas, e pelo texto certeiro e naturalista. As gírias dos personagens nunca soam falsas ou deslocadas, talvez pela habilidade de André Novais em trabalhar com atores não profissionais. 

Um belíssimo filme brasileiro que deve ser apreciado por todos que gostam de ver um pouco do nosso país real na tela grande.

Para ver os horários de exibição dos filmes, acesse o site da Mostra.


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Autora

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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