[FESTIVAL DO RIO] Praça Paris: suspense sobre racismo e paranoia social (crítica)

[FESTIVAL DO RIO] Praça Paris: suspense sobre racismo e paranoia social (crítica)

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De uma parceria inusitada entre o jovem escritor Raphael Montes – Suicidas (2012) e Dias Perfeitos (2014) – e a experiente cineasta Lucia Murat, nasce o inquietante Praça Paris, que tem sua estreia na Mostra Competitiva do Festival do Rio. 

Duas mulheres conduzem a narrativa. Duas mulheres têm suas vidas entrelaçadas por um confessionário. Uma é branca, portuguesa, e mora no Rio de Janeiro por conta de seus estudos de pós-graduação  em psicologia aplicada. A outra é negra, brasileira, e trabalha como ascensorista na universidade que aquela frequenta. Camila (Joana de Verona) atende semanalmente Gloria (Grace Passô) no consultório da universidade dentro do programa de atendimento psicanalítico comunitário. Gloria vira objeto de estudo de Camila. Mas a relação simbiótica e de fagocitose que as duas experimentam acaba saindo do controle.

Aquilo que seria uma espécie de “estudo controlado” acaba invadindo a vida pessoal de ambas num frenesi de ritmo cadenciado. A paranoia social é o grande tema deste filme, que tem como seu motor o racismo estrutural que demarca e sufoca a nossa sociedade. Assim como em Ao cair da noite (It comes at night, 2016) do americano Trey Edward Shults, o perigo criado pela mente humana ganha forma e começa a assombrar a portuguesa. O suspense é trabalhado de forma brilhante, na medida em que aquilo que está por vir domina a narrativa.

A construção de cada uma das personagens não poderia ser mais simbólica. Portugal e sua herança colonizadora estão presentes aqui na figura da psicanalista, que começa a ser analisada pela paciente num eficiente jogo de espelhamento. Aquela, que no início se apresenta como progressista e idealista, vai sucumbindo à estrutura social perversa que constituiu a segregada sociedade brasileira.

O mito da democracia racial fabulado por Gilberto Freyre já caiu por terra há tempos, embora ainda hajam aqueles que o sustente. Não é à toa que o cenário escolhido para o filme seja a UERJ, primeira universidade brasileira a implementar o sistema de cotas. Esta mesma universidade, que neste momento agoniza, encontra-se em vias de encerrar seu funcionamento, por conta do desmonte que o atual governo vem tentando sedimentar no Estado do Rio de Janeiro.

Praça Paris
Grace Passô em cena de “Praça Paris”
Praça Paris
Joana de Verona em cena de “Praça Paris”

No entanto, é preciso ficar atento. O roteiro caminha num limiar muito tênue, pois flutua por inúmeros estereótipos que poderiam cair facilmente numa armadilha esquemática esvaziando a trama. Mas as personagens de Praça Paris nunca estão na superfície. O mergulho narrativo é profundo e nos faz refletir o quanto a branquitude não costuma se pensar enquanto um elemento dentro do contexto racial.

O quanto nossas omissões produzem resultados ativos para aqueles que muitas vezes são invisibilizados por estarem à margem dos padrões sociais vigentes e estabelecidos pelo status quo? O quão perversa é a estrutura social que, com base na cor/raça/etnia das pessoas, as rotula, as classifica e as separa? Essas são algumas das questões que permeiam todo o roteiro e que se adensam na medida em que o filme avança.

Em determinado momento, um dos personagens quebra a quarta parede e nos encara. Nós, espectadores, somos convidados a refletir sobre o quanto cada um de nós, individualmente, comunga daquela paranoia coletiva alimentando-a em nossos pequenos atos cotidianos. E essa cena bate forte. Ressoa. Incomoda. Impossível sair do cinema indiferente ao que é visto na tela. Principalmente para quem vive no Rio de Janeiro e tem o cenário de uma cidade fissurada delimitando suas ações.

Apesar do roteiro acertadíssimo que Lucia Murat assina ao lado de Raphael Montes, o grande trunfo do filme vem da química das duas atrizes. A preparação de elenco feita por Amanda Gabriel é notável, tendo em vista a dinâmica que as atrizes constroem para que o clima de suspense se instaure de forma bastante eficiente. Grace Passô, numa atuação fenomenal, conduz a narrativa numa das mais marcantes interpretações do ano, com ares semelhantes ao visto no excelente Corra! (Get Out!, 2017) de Jordan Peele.

Em Praça Paris, Lucia Murat dirige um filme que ousa, com a roupagem do cinema de gênero, ao revisitar incômodos sócio-políticos e culturais que já estavam presentes em seus trabalhos anteriores, em que a repressão policial e a violência, seja ela física ou psicológica, estão sempre marcados.


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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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