[SÉRIES] Maniac: pílulas, fugas e a busca por nós mesmas

[SÉRIES] Maniac: pílulas, fugas e a busca por nós mesmas

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Um cientista convoca voluntários para testar três pílulas (A, B e C) que visam “consertar” a mente humana através de mergulhos em realidades virtuais. Entre eles, está uma viciada perseguida pela culpa e um esquizofrênico solitário que, por causa de um computador profundamente deprimido, passam a se encontrar em diferentes cenários, experimentando vidas que trarão à tona tudo o que está enterrado em seus subconscientes.

Está armado o palco para Maniac, série original da Netflix criada e dirigida por Carry Fukunaga (It: A Coisa, Beasts of No Nation, Jane Eyre) e inspirada em um seriado norueguês. Nesta mistura de ficção-científica, drama e comédia, todos estão tentando fugir de si mesmos – e são forçados a um confronto inevitável. Para quem é fã de ficção-científica, anos 80 e dramas universais do ser humano, essa série será uma boa mistura de tudo isso.

Maniac
Maniac (Imagem/Foto:Reprodução)

“Maniac” é um estado de quem sofre com o distúrbio de transtorno-bipolar e caracteriza-se por (entre outras coisas), mania de grandeza, alterações de humor, euforia, agressividade e alucinações. Com esse título, já podemos imaginar o estado de espírito em que estão as pessoas no universo de Maniac. 

As personagens principais são Owen Milgrin e Annie Landsberg, interpretados pelo excelente par Jonah Hill (O Lobo de Wall Street) e Emma Stone (Zombieland e La La Land). Owen está há anos lutando com sua esquizofrenia-paranóide ao mesmo tempo em que se sente excluído e só em meio a sua família poderosa e de princípios duvidosos. Emma enterrou dentro de si uma infância complicada, perseguida pelo fantasma da mãe que a abandonou, e tornou-se viciada na pílula A (aquela mesma, do início do texto) após a morte da irmã mais nova. Os dois se encontram durante a seleção de voluntários para um teste farmacêutico e passam a compartilhar vidas paralelas em cenários diversos oferecidos por Gertrude, a AI que comanda o laboratório.

Uma das viagens é ambientada nos anos 80 e Annie e Owen, um casal de classe média, precisam resgatar um lêmure de uma família de vendedores de pele. Outra é uma história noir e os dois são ladrões em busca de um capítulo inédito de Don Quixote. Em outra vida, temos duas histórias paralelas: uma com ares de Poderoso Chefão e a outra, uma aventura estilo RPG. Em todos eles, contudo, as personagens não conseguem fugir de si mesmas e de seus fantasmas, que precisam dos contextos mais absurdos para tomarem forma e serem finalmente encarados. Ao experimentar diferentes vidas, Owen e Annie conseguem chegar a uma resposta sobre quem são. Stone está excelente no papel de uma personagem feminina bastante problemática e com problemas de relacionamento, que precisa aceitar a morte da irmã. Ela consegue ser durona, às vezes até cruel, e permanecer absolutamente humana no papel, sem afastar o público de sua Annie.

Maniac

(Imagem/Foto:Reprodução)

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Outras razões para assistir a série, que é relativamente curta – a primeira temporada tem 10 episódios e alguns chegam a durar 30 min – são a produção, com suas referências estéticas a filmes como Poderoso Chefão, já mencionado, e toques retrô. O laboratório onde ocorrem os testes é um resgate dos filmes de ficção-científica dos anos 70 e 80 nos mínimos detalhes. Os acontecimentos neste laboratório fazem Maniac valer a pena tanto quanto as viagens de Owen e Annie em realidades paralelas: além da referência à maneira como a indústria farmacêutica assumiu o papel de “consertar” todos os nossos problemas, temos também uma brincadeira com a humanização das máquinas, exemplificada por Gertrude, um computador que não apenas tem um caso secreto com um humano, mas entra em estado de histeria ao ver-se sem ele.

Para consertá-la, o criador do programa, Dr. James Mantleray (Justin Theroux de The Leftovers) precisa pedir ajuda a sua mãe, Dra. Greta Mantleray (Sally Field de Brothers and Sisters), uma guru da auto-ajuda com quem ele tem profundos problemas. Enquanto isso, Dra. Azumi Fujita (Sonoya Mizuno de Ex-Machina e La La Land), com quem Dr. James já teve um relacionamento, é a criadora de Gertrude e sua relação com a AI é mais similar a uma entre duas mulheres que entre cientista e criação. A atuação de Theroux e Mizuno rende excelentes momentos de comédia, principalmente ao lado da experiente Sally Field. As personagens femininas (incluindo o computador Gertrude) demonstram complexidade e profundidade que transparece em frases certeiras e gestos significativos – todas as atrizes fazem um trabalho excepcional. É Field quem protagoniza uma das melhores cenas da temporada, em que a guru da auto-ajuda tenta tratar da AI Gertrude que foi baseada nela mesma. A Dra. Fujita, criadora de Gertrude, é provavelmente a única que não sofre com a própria identidade e é justamente a pessoa que todas as outras personagens menos conhecem – como fica provado no final. 

Maniac é uma série diferente em forma, proposta e estética. Ela pode não agradar aos que preferem uma história mais linear, sem grandes surpresas ou desvios súbitos, mas vale a tentativa de assistir aos primeiros episódios: Maniac aborda a perda, a solidão, questões eternas e universas, e o que fazer quando somos obrigadas a assumir quem somos.

Maniac

(Imagem/Foto:Reprodução)


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Consumidora de livros e filmes desde que me entendo por gente, sou graduada em Jornalismo e brasiliense de nascimento. Na seca e no silêncio do Planalto Central, aprendi a escrever para me comunicar e falar tudo o que não conseguia. Fã de terror, trash, cultura pop, filmes esquisitos, séries desconhecidas, livros bizarros e encontros inevitáveis.
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