The Leftovers: expectativas sobre o final, teste de Bechdel e representação LGBTQ
The Leftovers: expectativas sobre o final, teste de Bechdel e representação LGBTQ

The Leftovers: expectativas sobre o final, teste de Bechdel e representação LGBTQ

Neste domingo (04/06) teremos o último episódio de The Leftovers – criada por Damon Lindelof e Tom Perrotta, com base em um romance deste último. A série é uma produção da HBO e, apesar da alta qualidade, não conquistou um grande público.

NÃO CONTÉM SPOLERS DE NENHUMA TEMPORADA

O enredo se dá 3 anos após a “Partida Repentina”: um fenômeno inexplicável onde 2% da população mundial desaparece sem deixar vestígios. Kevin Garvey (Justin Theroux) é um policial que protagoniza inicialmente esta trama. Através dele, vamos tomando consciência de como a “Partida” afetou a sociedade. É evidente que após um evento desta magnitude exista uma intensa confusão mental em massa, o que gera diversas teorias e crenças, como o grupo dos Remanescentes Culpados (Guilty Remnant) – o qual Laurie (Amy Brenneman), esposa de Kevin, faz parte.

O objetivo e as crenças dos RC não são claros, visto que uma das marcas do grupo é um eterno voto de silêncio (além das roupas totalmente brancas, e o eterno vício do cigarro). A única coisa que sabemos sobre é que eles não querem que a população esqueça. De alguma forma eles obtêm as informações das pessoas que tiveram seus entes desaparecidos, e as perseguem constantemente, até que se irritem, ou se juntem ao grupo.

The Leftovers

Mas o grupo é somente um dos mistérios jogados aos telespectadores e que não são respondidos, assim como a causa da “Partida”. E bem, se você gosta de séries que se propõem a esclarecer todas as suas dúvidas e sanar a curiosidade – mesmo que de forma parcelada (como Mr. Robot, Westworld e How to Get Away with Murder) –, The Leftovers muito provavelmente não será do seu agrado. O que precisamos entender antes de iniciá-la (e que eu gostaria que tivessem me avisado), é que mais do que um mistério fantasioso, a série é um drama! E como o próprio título sugere, ela é sobre os “deixados para trás”, e não sobre os que partiram.

O Luto

Não é muito difícil associar o que os personagens que foram “deixados para trás” passam durante a série. O fenômeno muito se assemelha à morte de um ente querido: grande parte das vezes é repentina, e nunca temos a certeza de “para onde ele foi” – se é que foi mesmo para algum lugar. E talvez por isso ações dos personagens se enquadrem tão perfeitamente às fases de luto. Podemos dizer até que as temporadas se dividem desta forma. Podemos associar a primeira temporada com a negação e raiva, onde muitos ainda se recusam a aceitar, e os que já entenderam, entram num extremo surto movido por uma ira reprimida pela “Partida”, sem saberem lidar muito bem com todas as reações deste fenômeno.

The Leftovers

Na segunda, temos belos exemplos de barganha. Os fãs até se surpreenderam com a suposta calmaria no início (o que é bem frequente na série). Os personagens principais Kevin e Nora Durst (Carrie Coon), agora já casados, vão para uma cidade chamada Miracle, onde não houve registros de desaparecimento, na esperança de mudarem de vida e serem pessoas melhores. Mas obviamente, tudo se intensifica ao decorrer.

Já na última e terceira temporada, apesar do esforço de se demonstrarem felizes, vemos uma total depressão na maioria deles. Algumas ações finais desses últimos episódios já revelam uma certa aceitação de alguns personagens – como o ex reverendo Matt Jamison (Christopher Eccleston), Laurie e seu marido John (Kevin Carroll).

Mas além dessa evidente noção de luto, muitas outras questões são passadas na série, como por exemplo a reclusão em épocas de crise, abandonando, mesmo sem querer, pessoas próximas que também precisam de ajuda. E essa é mais uma das graças de The Leftovers. A humanidade dos personagens, e suas ações cobertas de erros e arrependimentos, geram uma identificação inegável. Mesmo que não tenhamos perdido uma pessoa querida na “Partida Repentina”, entendemos completamente o comportamento de Kevin, Nora, Laurie e Matt, entre outros.

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The Leftovers

Além disso tudo, a produção é um prato cheio para aqueles que gostam de referências bíblicas. É impossível não associar o acontecimento com o Arrebatamento. Contamos ainda nesta última temporada com um possível “Novo Messias” – com direito a ressurreição –, associações com o Apocalipse e aos seus cavaleiros (que no caso são quatro mulheres) e diversos diálogos diretamente sobre o assunto.

– Você, Dra. Garvey, só pode ser um dos apóstolos. Tomé, o que duvidava.

– Você está enganado. Eu não sou Tomé, eu sou Judas. Duvidar é fácil, porque não custa nada. Mas Judas estava perto de gente que falava sem parar como Jesus era especial. E ainda sim ele o traiu. Porque ele tinha certeza, ele acreditava em alguma coisa e agiu com base nisso.

– E se matou. Judas pegou as 30 moedas de prata e se enforcou. Se ele tinha certeza, por que se matou?

– Michael, eu não sabia essa parte da história. Não sei porquê ele se matou. Ele deixou um bilhete?

Certified (S03E06)

The Leftovers: Teste de Bechdel e Falta de Representatividade de Minorias

Se você acompanha o site, sabe que sempre tentamos analisar as produções a partir de um viés feminista (nr: e não é só porque The Leftovers é minha série favorita, que eu abriria mão das problemáticas). Mesmo na primeira temporada, notamos uma boa divisão entre personagens masculinos e femininos, mesmo que o protagonista seja um homem cis-gênero heterossexual. E conforme os episódios passam, só notamos uma melhoria na participação das mulheres.

The Leftovers

Nora e Laurie, apesar de ligadas de alguma forma a Kevin, são personagens bem construídas, com suas próprias histórias, e com ações que dizem respeito somente a elas, com pouquíssima interferência e motivação geradas a partir dele. Além delas, temos Jill (Margaret Qualley) – filha de Laurie e Kevin –, a “chefe” dos RC, Patti Levin (Ann Dowd), e a enigmática Meg Abbott (Liv Tyler). Todas também com seus próprios dramas internos e objetivos.

Mas se The Leftovers acerta em ter um elenco bem dividido que passe no Teste de Bechdel, peca na falta de representatividade de minorias. Até a primeira temporada, só temos um personagem negro, e por mais que tenha certa importância, conta com poucas aparições. Isso muda na segunda temporada, quando somos apresentadas à família Murphy. Durante toda a série não contamos com nenhum personagem que represente a comunidade LGBTQ. Isso porque a série se dá nos tempos atuais, e não é possível que em um fenômeno de tal magnitude não tenha atingido de nenhuma forma alguém desta minoria em questão.

The Leftovers

Mas mesmo com essa problemática citada, a série continua sendo altamente uma ótima recomendação. E para os que já são fãs da série, tentem não criar muitas expectativas sobre os desfechos. Não porque a série possa decepcionar – o que eu acredito que não vá –, mas sim porque ela nunca se comprometeu a dar respostas, e não seria no episódio final que isso iria acontecer. Como prova disso, aqui vai a sinopse dele:

“Nothing is answered. Everything is answered. And then it ends.”

Nada é respondido. Tudo é respondido. E então termina.

Importante ressaltar que o tal episódio se intitula “The Book of Nora”, e será dirigido pela Mimi Leder – que dirigiu 10 episódios ao todo, e que com mais quatro outras diretoras, comanda a direção de metade de todos os episódios da série. Independente do que acontecerá amanhã, o apreço por esta produção quase que desconhecida irá prevalecer; e nós sempre nos lembraremos da “Partida Repentina”.

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“O senhor não imagina bem que eterna variação de gênio é aquela moça. Há dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela é irritação e melancolia.” (Ressurreição, Machado de Assis). 20 anos, estudante de Engenharia e que prefere passar o dia vendo filmes do que com a maioria das pessoas.
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