[LIVROS] Afiadas: As mulheres que fizeram da opinião uma arte (resenha)

[LIVROS] Afiadas: As mulheres que fizeram da opinião uma arte (resenha)

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A antologia de Michelle Dean reúne os percursos e revelações de mulheres marcantes no mundo da escrita crítica e das resenhas. Já pela capa, podemos perceber o recorte do trabalho de Michelle Dean: o livro Afiadas é uma pesquisa sobre escrita. Melhor ainda, sobre as mulheres que fizeram da crítica uma arte das palavras.

Nomes como Hannah Arendt e Susan Sontag são conhecidos antigos de quem estuda as ciências sociais e teorias da comunicação, mas além de trazer informações sobre os trabalhos mais conhecidos das autoras, Michelle Dean cria uma rede conexões entre as escritoras escolhidas e sua influência mútua, suas relações pessoais e suas impressões sobre o trabalho uma da outra. Neste livro, em que o trabalho crítico e as amizades das autoras se interconectam, podemos nos aproximar dos contextos que levaram essas mulheres a escolherem seus temas de pesquisa, de seus sucessos e falhas no mundo literário e sobre como o movimento feminista esteve presente e ausente em suas trajetórias.

A palavra “afiada” também é fator em comum entre essas mulheres: das festas intelectuais de Dorothy Parker, passando pela experiência ex-patriada da judia Hannah Arendt, à crítica cinematográfica de Pauline Kael, o termo foi usado para categorizar o trabalho dessas pensadoras de uma forma que seus colegas escritores homens contemporâneos jamais experimentaram.

Seja como elogio ou crítica (sendo a crítica mais comum), o poder de cutucar feridas e expor pensamentos contraditórios por meio de palavras ácidas e honestas abriu espaço para que hoje possamos ter uma ideia do que foram os pensamentos e críticas de mulheres que ocuparam cargos de destaque em publicações “relevantes”. Foram essas publicações (como The New Yorker, Vogue, Ms.) que puderam dar o alcance necessário para o reconhecimento desses trabalhos, mas Michelle Dean não esquece de marcar como essa relação das escritoras com os grandes veículos sempre foi pouco estável e dependente.

Escritoras de profissão durante o século XX, o trabalho de Mary McCarthy, Dorothy Parker, Hannah Arendt, Susan Sontag, Pauline Kael, entre outras que fazem parte da coletânea, é revisto e recontado por meio de suas cartas e publicações. Michelle Dean investiga o que une e o que separa a vida pública e privada dessas mulheres, pinta o cenário de suas criações e expõe a reação ao que elas tiveram coragem de dizer.

Afiadas explora ao mesmo tempo o contexto que permitiu que a voz dessas mulheres ecoasse, enquanto deixa claro que elas fizeram parte de grupo seleto, que obteve a permissão para emitir opinião. O percurso literário de cada uma também é explorado e datado com entrevistas, cartas, publicações, repostas e contra-argumentações.

A jornada complicada pela ficção de Mary McCarthy acabou inspirando outras escritoras, a competição mascarada entre Pauline Kael e Susan Sontag também é pontuada, mas não inteiramente confirmada, e a inspiração na ideia dos salões de festas em que Dorothy Parker debatia ideologias políticas acabou por permear os pensamentos de todas as outras que vieram após ela e criaram uma imagem de escritora para si mesma.

Sem querer, ou talvez querendo, o livro serve de inspiração para jovens escritoras, para eternas e latentes escritoras que aspiram um dia por em prática e em letras o que tanto questionam e observam. Essas mulheres que escreveram desde “As origens do totalitarismo“, “O ano do pensamento mágico“, “Nasce uma estrela” à “Diante da dor dos outros” também vieram de algum lugar, conviveram com restrições e obrigações que moldaram sua forma de escrever e de ver o mundo.

Michelle Dean não deixa de expor os momentos críticos da trajetória narrativa dessas mulheres, ao mesmo tempo que expõe seus próprios limites enquanto mulher branca canadense escrevendo uma biografia crítica de mulheres brancas que escreviam críticas: as mulheres negras e as teóricas feministas são postas como contraponto, antagonistas no percurso das que hoje são lembradas e que fazem parte dessa antologia conjunta.

Hannah Arendt, por exemplo, vivendo nos Estados Unidos fugida da Alemanha nazista, encarou a questão da dessegregação dos EUA com uma abstração racista: ao observar e escrever sobre o quase linchamento da primeira estudante negra, Elizabeth Eckford, a fazer parte de uma turma mista em uma escola de Little Rock, Hannah Arendt se posiciona contra a dessegregação dos espaços públicos. Em uma crítica que enfatiza de onde a percepção de Hannah pode ter partido, Michelle Dean ao mesmo tempo que reconhece o racismo intrínseco, relativiza o ponto de vista.

A autora, em sua pesquisa, navega entre as cartas mandadas pelas escritoras, tirando das expressões pessoais parte do que completa a obra dessas mulheres. Palavras trocadas entre amigos, entre colegas de profissão e resenhistas, fazem parte da narrativa que junta a obra externa à investigação íntima. A amizade entre Mary McCarthy e Hannah Arendt foi fruto de muitos encontros: por meio dessa amizade, tanto Susan Sontag, quanto Pauline Kael e Renata Adler puderam criar pistas em seus próprios caminhos para aperfeiçoar suas produções.

A relação entre essas escritoras e o movimento feminista também é de tensão, mas que varia de acordo com a época em que as escritoras se encontravam e o momento que o movimento vivia: Dorothy Parker foi aprender com as sufragistas, e apesar de ter apoiado o movimento feminista de sua época, não fez da causa algo central em sua escrita. Mary McCarthy não chegou onde queria com seu romance sobre a vida de um grupo de mulheres. Susan Sontag se desentendeu com uma das pioneiras do movimento feminista, Adrienne Rich, e acusou o movimento de ser “simplista” (argumento usado até hoje para desclassificar o feminismo). Joan Didion também não deixou de desprezar o movimento ao criticar o trabalho de Shulamith Firestone.

Mesmo as escritoras que de alguma forma simpatizavam abertamente com o feminismo, como Pauline Kael em seu início de carreira, deixaram de falar sobre o assunto com medo do tema prejudicar de alguma forma sua aceitação. O feminismo então, era um assunto externo, em que elas poucas vezes se incluíam como parte da luta e julgavam a distância mulheres que se engajavam na teoria e prática do movimento.

Em Afiadas, as teóricas feministas são antagonistas, o que nos leva a pensar que as grandes escritoras críticas do século XX foram justamente as que não se aprofundaram na questão da própria opressão. Apesar de pistas e questionamentos estarem presentes na obra dessas mulheres, raramente seus olhares foram ginocentrados ou compreenderam o panorama cultural e político da dominação masculina como um sistema.

Essas escritoras e suas histórias, entretanto, nos servem como pistas e direções de caminho a tomar: ao conhecer sobre sua história, seus desafios, vitórias e fracassos, as escritoras de hoje podem formar uma ideia mais completa de como o ofício era tratado em séculos passados. A lição que fica é que escrever é poder: o poder de levar nossas ideias adiante, de enfrentar outros pensamentos e dialogar com o mundo. Mulheres que fizeram de suas percepções motivos de investigação e criação são hoje além de inspiração para as novas gerações, um marco do caminho árduo que percorremos e que precisamos continuar trilhando no futuro.


AfiadasAfiadas: As mulheres que fizeram da opinião uma arte

Michelle Dean

416 páginas

Editora Todavia

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