Atlantique: uma poesia visual multifacetada

Atlantique: uma poesia visual multifacetada

Em 2009, a atriz francesa Mati Diop lançou um curta documental chamado “Atlantique” (no Brasil, “Atlânticos”). Com 16 minutos de duração, ele reconta a odisseia de um grupo de senegaleses que tentam a sorte em uma travessia perigosa no mar. A obra aborda a história desses homens e os perigos da imigração ilegal com uma perspectiva melancólica e misteriosa. 

Uma década depois, Diop debuta como diretora de longa-metragens com Atlantique, título que foi mantido aqui no Brasil. A semelhança não é ao acaso: o longa traz a mesma história de um grupo de homens que adentram em uma jornada pelo oceano, rumo à Espanha. Entretanto, dessa vez, eles são vistos como parte de um contexto muito mais amplo, com o protagonismo sendo de Ada (Mama Sané), a namorada de um dos navegantes. 

Ada está prometida em casamento a Omar (Babacar Sylla), um jovem rico de família conhecida em Dacar, capital do Senegal onde moram. Apesar da cerimônia já estar agendada para dali 10 dias, ela ainda se encontra com Souleiman (Ibrahima Traoré), por quem está verdadeiramente apaixonada. Durante o que seria o último encontro dos dois, o namorado tenta se despedir, mas, como ele não podia revelar o plano de fuga do grupo antes da hora, ele se cala e não há desfecho. 

Atlantique (2019) crítica
Diálogo entre Ada (Mama Sané) e sua amiga Dior (Nicole Sougou). (Imagem: reprodução)

O roteiro se transforma a partir de então, com a adição de uma investigação pelo promissor policial Issa (Amadou Mbow), conflitos entre os diferentes grupos de amigas da recém-casada e um crescente tom sobrenatural. Ainda assim, a ruptura entre os apaixonados é o que pauta a narrativa. A ansiedade e a saudade de Ada e das outras mulheres conseguiu ser traduzida belamente para o público através da cinematografia e da trilha sonora, tornando “Atlantique” uma experiência fílmica especial, poética.

Interessante notar como a importância de uma conclusão também se reflete na gramática do jalofo, idioma presente no filme – além do francês e do inglês – e um dos principais do Senegal, com mais de 5 milhões de falantes. Na língua jalofa, o principal não são tempos verbais como passado e futuro, mas demarcações de ações concluídas (perfeitas) ou em andamento (imperfeitas). Na história, a luta pelo que é certo, pelo amor verdadeiro e a busca por justiça é contínua até que seja concretizada; nenhum outro resultado é satisfatório para as personagens principais.

E essa pluralidade característica do Senegal aparece com força em “Atlantique”. Seus idiomas, seus bairros, sua disparidade, suas cores, sua gente. Diferentes práticas religiosas, crenças e lendas são evidenciadas, assim como discursos patriarcais e noções feministas entre juras (nem sempre verbais) de amor.

Consequentemente, o longa espelha essa mistura presente no real, o que torna difícil – ou até injusto e desnecessário – tentar encaixá-lo em apenas um gênero cinematográfico. Apesar de às vezes ter seu título acompanhado pelo aposto “Uma História de Amor Fantasma”, esse é um resumo muito superficial (e comercial) de tudo que “Atlantique” consegue oferecer. 

frame de Atlantique (2019)
Frame do filme com o oceano ao fundo: “Eu sempre sentirei o gosto do sal do seu corpo no meu suor.” (Créditos: Netflix).

Eventualmente, o roteiro encontra alguns percalços: às vezes tenta se explicar demais, sendo que seus momentos mais fortes e duradouros ocorrem justamente quando apenas pincela alguns temas, deixando a interpretação a cargo de quem está assistindo. 

Esses momentos de reflexão, inclusive, são auxiliados e fortalecidos por enquadramentos que deliberadamente perduram um pouco além do esperado. Seja na singela (mas poderosa) indicação da passagem de tempo através da fase da lua ou nas “transições” compostas pelas imagens do mar em seus diferentes humores. 

Mais sobre a diretora Mati Diop e a equipe de “Atlantique”

A diretora Mati Diop no festival Cannes de 2019
A diretora Mati Diop no festival Cannes de 2019. (Créditos: IAN LANGSDON/EPA-EFE/Shutterstock)

Mati Diop ficou conhecida por ter protagonizado o filme 35 Doses de Rum (2008), de Claire Denis. Ela é filha do Wasis Diop, um músico senegalês conhecido internacionalmente, famoso por misturar a música folk do país com pop moderno e jazz. Ele já compôs inúmeras trilhas sonoras para documentários e dramas, inclusive para as poucas produções do irmão, ninguém menos que Djibril Diop Mambéty, diretor aclamado do cinema africano.

Essa colaboração entre o tio e o pai foi citada pela própria diretora como uma inspiração, um exemplo de parcerias excêntricas que se tornam canônicas, não podendo mais imaginar uma parte sem a outra. É isso que ela esperava que acontecesse ao propor o trabalho para a “não-convencional” Fatima Al Qadiri, a quem a trilha sonora de “Atlantique” é creditada. 

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Al Qadiri é uma musicista e artista conceitual kuwaitiana, nascida em Dacar e residente de Berlim. Em seu trabalho, ela já explorava os temas da guerra, memória, identidade sociocultural e a percepção ocidental de outras culturas. Suas composições são fundamentais para acertar o tom do longa, com as músicas instrumentais amarrando a narrativa e a experiência audiovisual, idealizada por Diop, evidenciando os sentimentos e as escolhas de Ada, assim como as temáticas sociais e místicas, além da carga emocional de cada cena. 

Claire Mathon e Amadou Mbow
Bastidores: a cinematógrafa Claire Mathon conversando com Diop e o ator Amadou Mbow. (Imagem: reprodução)

Outra peça-chave na construção desse mundo com toques sobrenaturais é a cinematografia realizada por Claire Mathon. Em alguns momentos, a pele negra retinta do elenco absorve as luzes ao redor, transformando-se em pinturas. Em outros, engolida pelo combo de areia e maresia, aparece matificada, combinando com a esmagadora sensação de desespero que enfrentam diante do futuro incerto e ecoando a força do oceano. 

Mathon também fotografou o filme Retrato de Uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma, a mesma diretora de Tomboy (2011). Esse foi outro filme bem trabalhado e que contou com uma recepção positiva da crítica nessa temporada de premiações, o que torna ainda mais difícil aceitar a falta de indicações ao Oscar a todas essas artistas. 

Prestígio merecido

O elenco de "Atlantique" junto com Mati Diop
O elenco de “Atlantique” junto com Mati Diop no tapete vermelho de Cannes. (Imagem: reprodução).

Felizmente, outros festivais de cinema prestigiaram “Atlantique”. Dentre eles, o principal foi Cannes, com Diop sendo a primeira diretora negra a disputar pela Palma de Ouro desde a criação do prêmio, em 1955. Levou o Grande Prêmio (basicamente, no sistema do festival francês, o segundo lugar) e teve amplo destaque na imprensa, sendo comprado para distribuição internacional pela Netflix. Daqui em diante, a esperança é que vejamos mais do excelente elenco, seja em novas produções de Diop ou de outras realizadoras.

“Atlantique” engloba uma bela história de amor “proibido”, de almas gêmeas. Apesar de que de início o conceito de alma apareça de maneira talvez um pouco enervante, ele é trabalhado de forma bonita, não chegando a ser assustador de fato. Ainda que traga resistência e vingança, o longa está mais próximo de uma fábula do que um conto de terror. 

Falar mais do enredo seria estragar a experiência. Confira abaixo o trailer de “Atlantique”, disponível na Netflix desde novembro de 2019.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Graduada em Publicidade e Cinema pela UFMG, se interessa pelos mais diversos assuntos. Comediante por natureza e professora por acaso, se descobriu escritora por necessidade. Sonha em ser uma poliglota fluente, mas não consegue focar em estudar um só idioma por vez.
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