Cells at Work: uma série sobre (e para) você!

Cells at Work: uma série sobre (e para) você!

Você já imaginou tudo o que acontece no seu corpo quando, por exemplo, você corta seu dedo com um pedaço de papel? Ou quando você espirra? Ou quando fica doente? Provavelmente, mesmo que você tenha uma noção sobre algumas dessas perguntas, a probabilidade que você tenha visto uma explicação sobre elas desde que você saiu da sexta série é bem remota. 

Para além de oferecer uma abordagem, digamos, didática para as nossas aulas de biologia, a série de animeCells at Work, com sua primeira temporada disponível na Netflix, narra as peripécias do corpo humano – e de suas células, mais precisamente, como indica o título – de uma maneira divertida e cativante. A série, que é baseada no mangá criado por Akane Shimizu, de 2015, estreou em 2018 e já tem uma segunda temporada em produção (sem data ainda).

Do lado esquerdo há um rapaz todo vestido de branco (inclusive boné), e ao lado direito uma menina toda vestida de vermelho (inclusive boina)
Cena da adaptação do mangá “Cells at Work” (Imagem: reprodução)

Cells at Work: “Uma história sobre você”

… ou, pelo menos, é assim que ela se apresenta no início. Mas o “você” em questão não se refere à história ou a um personagem, mas sim ao lugar em que a série se passa. O corpo humano é o cenário em que mais de 30 trilhões de células interagem e trabalham. Em forma humana, os protagonistas da série são um Glóbulo Vermelho, na pele de uma menina ruiva, e um Glóbulo Branco, representado por um moço sisudo e parrudo.

Ambos têm como única preocupação realizar seus trabalhos de maneira correta. Porém, devido a intempéries deste corpo – que parece não ser muito bem cuidado – eles acabam se esbarrando diversas vezes, desafiando todas as probabilidades. Além de criar um #ship muito real em nossos corações, mas tão impossível e proibido quanto Romeu e Julieta (biologicamente falando).

Por mais que a abordagem antropomorfizada do corpo humana não seja bem um aspecto totalmente original, no sentido de que há outras obras de ficção que fizeram o mesmo, “Cells at Work” tem recebido muitos elogios pelo cuidado e pela qualidade de sua adaptação. De fato, a atenção aos detalhes e a fidelidade com que retratam a biologia humana é um mérito inquestionável. Até pequenas coisas são pensadas, incluindo a jaqueta dos glóbulos vermelhos que têm coletes reversíveis quando transportam oxigênio versus quando transportam dióxido de carbono. 

Divertida e… educativa?

Sim, parece meio contraproducente hoje em dia você querer promover qualquer obra de entretenimento classificando-a como “educativa” (nerd alert!). Mas a verdade é que isso é, de fato, um dos elementos mais divertidos. Tanto que inspirou uma série de vídeos de médicos-youtubers fazendo reviews da série, gerando milhões de views cada. Se você consegue assistir em inglês, eu recomendo particularmente as do Doctor Mike e as de Ed Hope.  

Entre fumaça, existem dois personagens com fisionomias semelhantes, tendo olhos luminosos.
Os detalhes contidos no anime “Cells at Work” recebem merecido enaltecimento (Imagem: reprodução)

O fato dela ser educativa até certo ponto, no entanto, não significa que ela não seja, na verdade, bastante sangrenta. Como toda a adaptação minimalista e antropomórfica de respeito, um dos aspectos mais importantes é a megalomania na representação dos eventos mais simples. E isso fica explícito desde o primeiro episódio. As bactérias, vírus e afins – os maiores vilões neste contexto microbiológico – tem uma caracterização exemplar, não deixando barato para qualquer outro monstro de anime. As cenas de ação e de luta também não deixam a desejar.

Shounen ou Shoujo? Ou nenhum dos dois?

Esse é provavelmente um dos aspectos que levou a série a ser classificada como Shounen – ou seja, feita para meninos adolescentes. O que é um fator surpreendente para vários espectadores da série, já que a série é protagonizada por uma personagem feminina, tem um potencial romance (me deixem sonhar, taokei?) no centro da trama, além de ter as plaquetas representadas por crianças fofinhas. No geral, ela não é o que você espera de uma série dessa categoria. 

Esse é um belo pretexto para procurar mais informações sobre o dilema Shounen x Shoujo (conteúdo que seria voltado para meninas adolescentes). A verdade é que mesmo a classificação em si e a diferenciação por gênero do público-alvo já é considerada bastante ultrapassada, tanto no Japão quanto pelo público ocidental. Mas vale a pena dar uma procurada por artigos e opiniões sobre o tema, já que essas classificações persistem até hoje.

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Muitos deles discutem a diferença entre público-alvo e público real, o quão grande é a porcentagem de mulheres consumidoras de conteúdo Shounen e o quanto essa classificação, na verdade, se refere mais ao tipo de narrativa do que de fato ao público que a consome. Um dos indicativos disso é a existência de revistas como a Comic Gene, auto-proclamada “revista shounen para o público feminino”.

Capa da revista
Comic Gene Magazine, vol. 29 revista Shounen voltada para mulheres (Imagem: reprodução)

Seja para contradizer estereótipos de gênero do patriarcado japonês, seja para ver bastante ação e se divertir (e aprender um pouco sobre biologia no meio do caminho), “Cells at Work” é uma série que vale a pena conferir. Mais do que isso, é uma série que encanta pelos detalhes, pelo comprometimento com sua proposta original e pela maneira criativa com que desenvolve uma narrativa divertida em meio a um cenário tão complexo – nós mesmos. 


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.

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Criança que queria ser bailarina, depois foi querer virar oceanógrafa, que depois sonhou em ser fotógrafa da National Geografic, para depois querer ser escritora. Acabou virando jornalista (no diploma) e professora (na carteira de trabalho – RIP). Adulta, só daqui uns anos.
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