A mulher que fugiu: os desdobramentos de uma vida contemplativa

A mulher que fugiu: os desdobramentos de uma vida contemplativa

A mulher que fugiu, filme dirigido e roteirizado pelo sul-coreano Hong Sang-soo e protagonizado pela belíssima atriz, também coreana, Kim Min-hee, estreará nos cinemas na próxima quinta-feira, 09 de dezembro. O filme rendeu ao cineasta o Urso de Prata (prêmio de direção), no Festival de Berlim de 2020.

A mulher que fugiu

O filme acompanha Gam-hee (Kim Min-hee), uma jovem mulher proprietária de uma floricultura que, na ausência de seu marido que está em uma viagem a trabalho, decide visitar duas amigas. Ao que tudo indica, ela não as vê há muito tempo e, por um acaso, acaba se encontrado com uma terceira amiga, dona de um café.

Com um roteiro limpo, poucas falas, silêncios longos e uma estética elegante e suave, A mulher que fugiu acompanha a protagonista por 77 minutos, divididos em 3 partes que correspondem aos encontros com cada amiga.

a mulher que fugiu
Kim Min-Hee interpreta a personagem Gam-hee | foto: divulgação

Embora seja classificado como drama/comédia, o filme não tem o objetivo de fazer o público rir. Muito pelo contrário, através de uma cadência lenta, o longa provoca muitos momentos de reflexão sobre o tempo e a vida.

Um aspecto interessante no elenco de A mulher que fugiu é o fato de que a maioria seja formado por mulheres, contando com duas participações muito pontuais de atores.

Do que a protagonista foge?

A princípio ficamos esperando que algo no filme explique seu título: do que ela está fugindo? Ela está fugindo? Será que ela é feliz ou infeliz? E o marido? O que ela está buscando?

São indagações naturais, mas que nem sempre são respondidas em filmes mais contemplativos e que utilizam a câmera somente como observadora da vida. E talvez esse seja o aspecto mais atraente de A mulher que fugiu. O prazer de sentar-se por 77 minutos no cinema, permitindo uma pausa em nossas vidas e, silenciosamente, contemplar o cotidiano ou pelo menos o cotidiano que aquele recorte do filme nos traz, de uma mulher que poderia ser qualquer uma, realizando tarefas corriqueiras e prazerosas – como visitar amigas ou ir ao cinema.

introspecção de uma vida contemplativa
Cena de “A mulher que fugiu” | foto: divulgação

Essa pausa pode ter ainda mais significado se pensarmos que uma vida tranquila e contemplativa não é a realidade de muitas mulheres pelo mundo. O prazer de visitar amigas, ir ao cinema, fazer uma pausa mais longa para o almoço, escolher onde e porque ir são coisas tão simples, mas que nos escapam diante do caos. Portanto, nem percebemos quando vamos deixando de fazê-las. Ao nos darmos conta do que perdemos, já fomos catapultadas para um mundo onde o tempo e as escolhas viram objetos de desejo e o fazer torna-se nosso objetivo único em detrimento do ser.

Não fica claro do que Gam-hee foge. Evidente que há uma busca: seja por uma vida tranquila ou pelo desejo de resgatar seu passado. E, dessa forma, explicar os desdobramentos de seu momento atual ou até a procura por ela mesma.

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Em algumas passagens de A mulher que fugiu, principalmente na primeira visita de Gam-hee, ela comenta que vive com seu marido 24 horas por dia, pois, para ele, pessoas apaixonadas devem viver sempre juntas. Nessa passagem ficamos tentados a imaginar que ela possa estar sufocada pelo casamento ou até mesmo sofrendo nas mãos de um marido abusivo e controlador. Mas, em um outro encontro, ela menciona o fato de que não está muito feliz com seu negócio como florista.

A cada encontro, de uma forma sutil e quase imperceptível, a protagonista menciona um aspecto de sua vida que parece lhe deixar insatisfeita. Se ela, de fato, está em fuga ou em busca de algo ou dela mesma, não é possível afirmar. Numa análise mais amplificada, devemos levar em conta que se trata de um filme oriental, onde as relações humanas ocorrem com sutileza e pouca intimidade.

E nós? Do que fugimos? 

Novo filme do diretor sul-coreano Hong Sang-soo
Cena de “A mulher que fugiu” | foto: divulgação

De acordo com as devidas proporções e diferentes modos de viver, todas as pessoas encaram o desejo de fuga ou busca por algo ou alguém em alguns momentos da vida. Cada um tem seu motivo e sua explicação e as variáveis podem ser muitas, inclusive podem estar ligadas à violência, maus tratos, fome, pobreza e por aí vai. Mas essas são questões que o filme não aborda minuciosamente. Todavia, esse desejo (ou necessidade) pode ter relação com uma questão mais íntima sobre a humanidade, que é a capacidade e a possibilidade de sermos.

Para sermos precisamos do olhar, da escuta, do tempo e, quem sabe, até da contemplação. Pois, ao contemplar-nos, temos grandes chances de descobrir o que nos falta e o que nos leva a fugir. São reflexões e pensamentos que podemos fazer quando gozamos do privilégio de pausar nossas vidas, mesmo que em um breve espaço de tempo.

Autora:

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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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