Roda do Destino: três narrativas femininas sobre o acaso

Roda do Destino: três narrativas femininas sobre o acaso

O novo longa do diretor Ryûsuke Hamaguchi, Roda do Destino, reúne três histórias curtas, vagamente entrelaçadas tematicamente.

A primeira, “Mágica”, trata de uma moça que conta sobre seu novo interesse romântico, sem saber que a amiga que ouve é ex-namorada do tal rapaz. A segunda, “Porta Escancarada”, mostra uma mulher que tenta seduzir um professor da faculdade em que estuda, para vingar seu amante, ex-aluno do professor, por notas baixas que ele o conferiu. A terceira, “Mais Uma Vez”, retrata duas mulheres que se veem na rua e pensam que são colegas de escola uma da outra, de 20 anos atrás.

Representação de mulheres como protagonistas

Uma das virtudes do filme é retratar várias mulheres em todas as histórias. Porém, as duas primeiras envolvem um retrato não muito feliz de suas protagonistas.

Meiko (Kotone Furukawa), na primeira história, aparentemente fofa e compreensiva, acaba se mostrando uma mulher complicada e manipuladora, quando são reveladas as trapaças que propiciou a seu ex-namorado. Agora, sabendo do interesse da melhor amiga pelo mesmo cara (sem a amiga saber desse passado), ela tem que decidir se deixa os dois livres para seguirem o novo relacionamento, se tenta prevenir a amiga sobre como o rapaz age (já que ele parece ter muito mais lábia do que intenções verdadeiras), ou se tenta pensar mais em si mesma e reconquistar o cara, já que ainda nutre sentimentos por ele, e parece também ser recíproco da parte dele.

Representação de mulheres como protagonistas em Roda do Destino
Meiko e seu ex. Imagem: Reprodução.

O triste é que Meiko parece apenas gostar da confusão, da trapaça e dos joguinhos de conquista. Quando confronta seu ex sobre o novo relacionamento, ambos relembram o quanto ela estava entediada e frustrada no relacionamento, e tentava justificar suas trapaças com esse motivo. Ela é retratada como uma femme fatale fofa e que não consegue o que quer na vida por causa desse “desvio de conduta”.

A segunda história de Roda do Destino é a mais interessante de todas

Na segunda história, Nao (Katsuki Mori) é uma mulher casada, mãe de uma menina, e que voltou a frequentar a faculdade depois de alguns anos. Ela tem um amante que é um jovem aluno da mesma universidade, e ele a convence a se vingar de um professor que o deu nota baixa. O plano é seduzir o professor, gravar tudo e depois vazar para que ele caia em desgraça.

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Das três histórias, “Porta Escancarada” é a mais interessante de todas, trazendo tensão e bastante pano pra manga. Inclusive, poderia até ser um longa-metragem por si só, com maior desenvolvimento da trama. Ela também traz uma cena erótica muito interessante, somente com palavras, além de algumas reviravoltas surpreendentes.

A segunda história de Roda do Destino é a mais interessante de todas
Nao e o professor. Imagem: Reprodução.

O único porém fica por conta do destino trágico de Nao, enquanto o arquiteto do plano, seu amante, sai aparentemente vitorioso de tudo. Mais uma vez, a protagonista é retratada aqui como uma femme fatale, voraz sexualmente, mas ainda com o perfil recatado japonês. Muito se fala no empoderamento de tais personagens, mas isso não é sustentado nos discursos quando tantas delas acabam sendo punidas por suas transgressões nas histórias em que aparecem.

Confusão e afeto feminino

A última história, felizmente, foge um pouco desse padrão construído antes. Nela, duas mulheres (Fusako Urabe e Aoba Kawai) confundem uma à outra por colegas antigas de escola. Mas quando elas descobrem o erro, continuam a conversar e fazem um jogo de encenação para representar as pessoas que achavam que a outra era.

Trata-se de uma história que fala da solidão trazida pelos rumos que a vida seguiu, cada uma marcada a seu modo por experiências passadas. Diferentemente dos dois primeiros capítulos, “Mais Uma Vez” traz uma visão um pouco mais acolhedora e otimista. Também é ótimo o fato de focar inteiramente nas mulheres.

Confusão e afeto feminino em Roda do Destino
As duas mulheres que se confundem por conhecidas. Imagem: Reprodução.

No geral, apesar desses “poréns” nos retratos de algumas protagonistas, Roda do Destino é um filme bastante sensível, embora também bastante verborrágico. Os personagem verbalizam suas emoções a todo momento, de forma até pouco realista em algumas histórias (a primeira), mas as vezes de forma brilhante (na segunda). Tendo sido premiado com o urso de prata em Berlin, o novo filme de Hamaguchi com certeza vale uma conferida.

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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