Turma da Mônica – Lições: a gente pode crescer sem deixar de ser criança

Turma da Mônica – Lições: a gente pode crescer sem deixar de ser criança

A gente pode crescer sem deixar de ser criança” é uma das frases dita por Tina (Isabelle Drummond) em um trecho de Turma da Mônica: Lições e que depois é repetida por Mônica (Giulia Benite) em uma outra cena, para nos lembrar da importância de dar ouvidos à nossa criança interior. Dessa forma, já podemos entender que as principais premissas do longa – lançado no dia 30 de dezembro de 2021 – estão relacionadas às dificuldades do crescimento.

Assim como em Turma da Mônica: Laços (2019), Daniel Rezende é o responsável por assumir a direção da história que nos leva de volta ao bairro do Limoeiro, para assim acompanharmos as aventuras de uma das turminhas mais famosas e amadas do país. O longa conta com o mesmo elenco principal que conquistou muitas espectadoras no primeiro filme, e que retorna para mais uma vez para aquecer nossos coraçõezinhos. Trabalhando com a nostalgia, a nova obra também acessa nossas memórias afetivas, mas agora contém um elemento plus: a identificação com as dificuldades relacionadas ao amadurecimento.

Turma da Mônica - Lições
Magali (Laura Rauseo), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Sansão, Mônica (Giulia Benite) e Cascão (Gabriel Moreira) | divulgação
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Um dos maiores desafios para a produção de Turma da Mônica: Lições foi descobrir formas de lidar com um fator que ninguém consegue controlar: o tempo. Podemos perceber que o elenco de crianças cresceu consideravelmente de um filme para o outro. Ainda que as gravações tenham acontecido menos de um ano após a estreia de Turma da Mônica: Laços. Assim, a melhor resolução foi adaptar os “problemas” à narrativa. Já que o elenco está crescendo, nada mais justo do que realizar um filme sobre crescimento. Dessa forma, as filmagens do novo longa foram feitas em Poços de Caldas (Minas Gerais) entre os dois primeiros meses de 2020. A previsão de lançamento era para dezembro do mesmo ano, mas devido a pandemia a estreia teve que ser adiada.

Inspirado na graphic novel homônima, que é escrita e ilustrada pelos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, Turma da Mônica: Lições nos leva a acompanhar a rotina de Mônica, Magali (Laura Rauseo), Cebolinha (Kevin Vechiatto) e Cascão (Gabriel Moreira). O filme começa com os quatro ensaiando a peça Romeu e Julieta para apresentarem em um evento que vai acontecer no bairro. O ensaio acaba não sendo muito produtivo devido às já famosas características de cada um: o Cebolinha não consegue pronunciar corretamente as palavras com “r”, Magali não controla a fome, Cascão não quer se molhar e Mônica quer bater nos meninos.

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No dia seguinte, nenhum deles leva a lição de casa, devido ao fato de terem passado o dia ensaiando para a peça. Cebolinha sugere que fujam da escola para não levarem bronca e fazerem a lição na pracinha. A fuga resulta em um acidente que deixa Mônica com um braço quebrado. Os pais de cada um deles chegam a conclusão de que o quarteto passa muito tempo juntos e que isso os está prejudicando. Como consequência, os pais da “dona da rua” optam por mudá-la de escola, enquanto que o restante também vai ter que lidar com mudanças.

o quarteto de Turma da Mônica - Lições
O quarteto tentando fugir da escola. Imagem | Reprodução.
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Dessa maneira, a turminha é obrigada a lidar com a ruptura repentina do grupo. Com isso, então, a narrativa desenvolve quatro direcionamentos significativos que abordam os caminhos individuais que cada um vai seguindo. O maior obstáculo de Mônica é enfrentar a solidão na escola nova. A saudade dos amigos faz com que a melancolia aos poucos vá tomando conta de seus sentimentos, além de deixá-la desanimada para fazer novas amizades. É possível observar isso quando ela ignora o convite de Marina (Laís Vilella) para formarem dupla para fazer um trabalho. Mônica nem responde a colega.

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Já Cebolinha vai à fonoaudióloga, meio contra a sua vontade e demonstra não se sentir confortável com a situação. Quanto a Magali, sua fome interminável é associada a ansiedade, além disso, ela é matriculada em aulas de culinária. Porém, ela sofre com o fato de que a ansiedade que a faz ter tanta vontade de comer, deixando de ter paciência pela espera no preparo da comida. Já Cascão é matriculado pelos pais em aulas de natação, para que perca o medo da água. Óbvio que o garoto vai contra a vontade e continua se recusando a entrar na água.

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Cada situação nos é apresentada de uma forma sutil, mas suas orientações servem para encaminhar um processo de reflexão tanto dos personagens quanto das crianças (e adultos) que passam por condições parecidas quando o assunto é crescimento. Contudo, apesar da forma suave com a qual estes assuntos são colocados na trama, um tom de amargor é adicionado. Resultando em uma investida mais séria e crítica, um pouco diferente do que estamos acostumados e familiarizados. Ainda que o alicerce venha das histórias que Mauricio de Sousa concebeu e consagrou, o arco central da trama se concentra na graphic novel de Lu e Vitor Cafaggi. E é daí que vem essas nuances mais intensas.

Cena que virou pôster do filme e que é inspirada na capa da graphic novel da Lu e do Vitor Cafaggi. Imagem | Reprodução.
Alerta: o texto abaixo contém spoilers do filme

Turma da Mônica: Lições e a inserção de easter eggs e novos personagens

Um dos pontos altos da trama são os easter eggs. Para quem cresceu envolvida com o universo da Turma da Mônica, vão encontrar inúmeros velhos conhecidos espalhados pelos cenários. A direção de arte se empenhou com os detalhes. E assim podemos vibrar ao encontrar pelúcias do Penadinho e do Horácio no quarto da Mônica, um Piteco desenhado na lousa da nova escola, a Estrelinha Mágica, (personagem do longa de animação Turma da Mônica e a Estrelinha Mágica de1988), que é costurada pela Tina na mochila da Mônica, entre outros.

Seguindo nessa vibe fan service, vários personagens já conhecidos do público leitor também são introduzidos no enredo. Temos a Marina, que é colega de classe da Mônica; Humberto (Lucas Infante), que é o amigo que o Cebolinha faz na sala de espera da fonoaudióloga; Dudu (Giovani Donato), o primo da Magali que não gosta de comer; Franjinha (Tiago Minski Schmitt) e Bidu, que recebem a visita da turma no laboratório; Milena (Emily Nayara), a nova amiga da Magali e a responsável por apresentá-la ao Mingau; Do Contra (Vinícius Higo), o garoto que gosta de contrariar o comum e que fica amigo do Cascão, etc.

O quarteto principal com alguns dos novos personagens | Imagem: Instagram @turmadamonicaofilme.

É válido também evidenciar a participação do núcleo da “turma mais velha” que conta com Tina, Rolo (Gustavo Merighi), Pipa (Camila Brandão) e Zecão (Fernando Mais). Tina entra na vida de Mônica como uma espécie de mentora e tenta ajudar a garota a passar por essa fase da pré-adolescência de um jeito mais leve.

E o mais agradável nisso tudo é que as inserções de todos esses personagens têm uma relevância na história e faz com que a narrativa continue fluindo e se desenvolvendo bem.

As dificuldades do crescimento

Turma da Mônica: Lições trabalha com um tema que é praticamente universal para quem está prestes a entrar na adolescência: encarar as dores e as delícias de crescer. O roteiro de Thiago Dottori e Mariana Zatz demonstra competência e habilidade ao expressar de forma cuidadosa as dificuldades que as crianças enfrentam com o crescimento. Podemos observar nos personagens principais o quão difícil é para eles lidar com a necessidade de se adaptarem em situações que são novas ou intimidadoras. Assim como também o quanto é complicado lidar com as pressões colocadas sobre eles pela família. O filme aborda como é importante olharmos para esses momentos de forma acolhedora.

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Assim como Turma da Mônica: Laços é mais centrado no Cebolinha, Lições vem a ser mais centrado em Mônica. É o sofrimento dela que acabamos acompanhando mais intimamente. E podemos observar que apesar de Mônica se manter corajosa na nova escola, ela se torna alguém mais introspectiva. Mônica carrega consigo a dor de ter sido afastada de seus melhores amigos e isso a desmotiva até mesmo a fazer novos amigos. A decisão dos pais em trocá-la de escola com intuito de que isso colabore com o seu amadurecimento acaba não sendo muito assertiva.

Mônica se sente sozinha após mudar de escola e ser afastada dos amigos. Imagem | Reprodução.

Apesar de almejarem o melhor para a filha, a escolha deles de afastarem a menina dos amigos acabou sendo muito prejudicial. A falta de diálogo fica um tanto evidente, já que os pais parecem não perceber que Mônica está muito perto de entrar em depressão. No entanto, ela decide desobedecer os pais e vai ao encontro dos amigos. Porém, ao ver Magali com Milena, Mônica acredita que já foi esquecida e não se aproxima.

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A garota só percebe que o fato de fazer novos amigos não implica no esquecimento dos antigos quando conhece Tina. A personagem de Isabelle Drummond mostra para ela que cultivar boas e novas amizades só agrega. E ela usa como exemplo sua amizade com Rolo, Pipa e Zecão, que são pessoas que foram entrando aos poucos na vida dela e que no fim tornaram-se todos grandes amigos. Isso pode parecer meio óbvio, mas paras as quatro crianças que estavam juntas desde o maternal, não foi tão simples de lidar.

Rolo (Gustavo Merighi) e Tina (Isabelle Drummond). Imagem | Reprodução.

Mônica, Magali, Cascão e Cebolinha passavam tanto tempo juntos que não viam necessidade em buscar fazer outras amizades. Eles viviam juntos no mundo deles e estava bom. Quando Mônica se vê longe dos amigos e fazer outras amizades se torna um tipo de obrigação imposta pelos pais, ela não aceita. Com os outros três fazer novas amizades flui mais facilmente, já que apesar dos pesares eles continuaram na mesma escola e juntos. Mônica por estar em outro ambiente escolar e sem poder ver os velhos amigos, pois está de castigo, ela sente como se estivesse traindo os melhores amigos. E enquanto tudo isso acontece ela tem que lidar com o misto de sentimentos que crescer lhe impõe. Dessa forma, fica realmente difícil ver o lado bom de crescer.

Acolhida e um melhor entendimento da importância do amadurecer

A partir da conversa com Tina, Mônica percebe que precisa muito voltar a ter contato com os velhos amigos. Ela volta a se aproximar deles, sem que os pais saibam, e decidem se organizar para apresentar a peça de Romeu e Julieta que estavam ensaiando no começo do filme. Para que a peça seja realizada, eles contam com a colaboração de todos os amigos que fizeram no decorrer da narrativa. E quando assistimos a apresentação do evento, que ocorre no bairro do Limoeiro, é possível observar que o quarteto conseguiu amadurecer no decorrer da jornada.

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A Mônica, portanto, consegue controlar melhor seus impulsos e busca evitar ser mandona, dizendo que está tudo bem de os amigos manterem suas características pessoais nos personagens da peça. A Magali entende que parte de sua fome é oriunda de uma ansiedade que sente, além de ser possível controlar a vontade de comer. Nas aulas de culinária, ela aprende a se concentrar em outras coisas como, por exemplo, fazer comida ao invés de simplesmente só comê-la.

Cebolinha e Mônica como Romeu e Julieta. Imagem | Reprodução.

Já o Cebolinha finalmente consegue falar corretamente uma palavra com “r”, pronunciando “Romeu” em alto e bom som. Mostrando que apesar de as sessões com a fonoaudióloga a princípio serem contra a sua vontade, acabaram surtindo um efeito positivo. E sim, vemos o Cascão encostar na água em um ato da peça. Revelando que começou a superar seu medo.

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E dessa forma a turminha demonstra que passaram a entender melhor seus problemas e seus medos e estão buscando superá-los. Não é algo que vai acontecer de um dia para o outro, mas todos deram seus primeiros passos rumo às mudanças. Entre erros e acertos vão construindo e moldando cada um a sua personalidade. E isso serve também para os pais da galerinha, que ao verem os filhos aceitando as mudanças que o crescimento proporciona, se dão conta que crescer é um processo contínuo. E que temos que prestar mais atenção na criança que existe dentro de todos nós. “A gente nunca para de crescer” é uma das frases de Dona Luísa (Monica Iozzi), mãe da Mônica.

Tecnicamente falando, o filme exagera um pouco no uso dos close-up. Por ser um plano expressivo e intimista, acaba sendo um recurso muito utilizado em cenas que demonstram emoção. E isso fica um pouco cansativo, assim como acontece com o uso excessivo dos momentos emotivos. Contudo, a obra consegue se manter divertida e agradável, nos levando a ficarmos emocionados em diversas situações e nos fazendo ver que o crescimento não precisa ser visto como vilão.

E assim, como começamos com uma frase de Tina, é válido terminar com uma outra frase dita pela personagem, “crescer é difícil, mas não precisa ser ruim”.

Autora:

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Denise é bacharela em cinema e tem amor incondicional por tal arte. Pesquisa e escreve sobre feminismo e a representação das mulheres na área do audiovisual. É colecionadora de DVDs, fã da Audrey Hepburn, apaixonada por Rock n' Roll e cultura pop. Adora os agitos dos shows de rock, mas tem nas salas de cinema seu local de refúgio e aconchego.
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