“Tina: Respeito” e a história que muitas de nós já vivenciamos

“Tina: Respeito” e a história que muitas de nós já vivenciamos

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Tina surgiu nos quadrinhos do Maurício de Souza mais ou menos nos anos 70, usando óculos grandes e redondos, uma blusa riscada vermelho e branca, um longo cordão no pescoço, calça jeans e cabelos nos ombros. Começou como coadjuvante, com um visual hippie usando calças boca de sino e o símbolo da paz em um cordão no pescoço. Vendia miçangas, tinha problemas de aceitação com o pai e usava expressões que remetiam a esse período. Rolo e Pipa surgiram pouco depois. 

Uma das personagens que mais mudaram no mundo MS, a Tina de Fefê Torquato é cheia de referências a essas mudanças. Algumas de suas fases são vistas hoje como bastante problemáticas, deixando a personagem com um corpo cada vez mais padrão e roupas mais curtas. Entretanto, essas mudanças, assim como qualquer outro tipo de manifestação cultural, são o reflexo de seu próprio período. 

Tina: Respeito
Página da HQ “Tina: Respeito” (Imagem: Instagram @Fefetorquato)

A Tina dos tempos atuais quer Respeito

No apartamento de nº 41, na Rua Jardim dos Cedros, 110, vive Cristiana Lima e Sousa, jornalista e autora e editora da newsletter “Falando nisso…” com 52 artigos publicados e 87 mil assinantes. Ela está ansiosa para o primeiro dia de trabalho em um grande jornal, onde vai conhecer alguns ídolos e finalmente poderá trabalhar com o que gosta. 

Essas são as informações que recebemos logo nas primeiras páginas de “Tina: Respeito”, graphic novel escrita por Fefê Torquato para o selo MSP. Desde 2012, as novas versões dos personagens de Maurício de Sousa estão ganhando as bancas e, recentemente, os cinemas. O filme “Turma da Mônica – Laços” é inspirado na versão feita por Lu e Vitor Cafaggi para o projeto. 

Foi Vitor quem indicou Fefê para ser a artista responsável pela nova versão de Tina. Num domingo eu recebi uma ligação, era o Sidney Gusman. Eu quase tive um derrame, Torquato contou quando perguntamos como tinha sido a experiência de ser convidada para fazer a HQ. Gusman é quem faz o planejamento editorial da Maurício de Sousa Produções. O anúncio foi feito na CCXP de 2018, a primeira em que Torquato participou. 

O quadrinho foi lançado no final de agosto deste ano. O título e o tema da história haviam sido divulgados um pouco antes, no início do mês, através de uma publicação de Gusman em seu Instagram. A abordagem do assédio e o uso da palavra “Respeito” na capa, já nos deram uma ideia do rumo que a história iria seguir, faltavam as nuances. 

Tina: Respeito
Página da HQ “Tina: Respeito”. (Imagem: Instagram @Fefetorquato)

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência

Lendo a história de Tina, em muitos momentos nos pegamos pensando nas histórias que já ouvimos de outras mulheres. Aquele professor que fez certo comentário, o cara do trabalho que todas as mulheres evitam chegar perto, aquele grupo de meninos que a gente toma cuidado na escola, na faculdade ou nas festas, e aquele homem que a gente avisa para outras mulheres tomarem cuidado porque já saíram histórias de abuso sobre ele. Essas histórias estão por aí aos montes e, sendo mulher, é quase impossível que você não tenha vivido, presenciado ou escutado alguma delas. 

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a ABRAJI, em 2017 divulgou uma pesquisa sobre assédio no mercado jornalístico – esse mesmo em que Tina está inserida. A pesquisa deu origem ao site Mulheres na Mídia, que tem dezenas de informações importantes sobre esse cenário. Cerca de 500 mulheres participaram das entrevistas e 73% das jornalistas que responderam a pesquisa afirmaram já ter escutado comentários ou piadas de natureza sexual sobre mulheres no seu ambiente de trabalho. 

“Perguntadas se já ouviram piadas machistas – isto é, comentários que ridicularizam as mulheres, propagam estereótipos e/ou banalizam a violência contra a mulher – no ambiente de trabalho, 92,3% afirmaram que sim.” 

Na mesma pesquisa, 46% das entrevistadas responderam que as empresas onde trabalham não possuem canais para receber denúncias de assédio e discriminação. O risco de perderem o emprego, serem prejudicadas na carreira, a dificuldade em conseguir provas e a falta de apoio impede que a maioria das mulheres denuncie casos de violência.

Leia também:
>> Assédio sexual contra mulheres como alívio cômico
>>Precisamos Falar do Assédio: histórias que precisam ser ouvidas
>> Por que o trabalho feminino nos quadrinhos é tão desvalorizado?

As outras Tinas pelo mundo afora

Esse tipo de caso e situação nos faz pensar em como esse tipo de violência decorre de um problema geral e não individual como tendemos a imaginar. A violência de gênero ocorre, de diferentes formas, com a grande maioria das mulheres. Se o ato violento tem relação direta com o gênero em questão e tem uma característica tão generalizante, a questão não vem de estar no lugar errado, na hora errada, da roupa que se usa, do modo como as mulheres se comportam, mas de toda uma cultura que permite que essas violências aconteçam e continuem acontecendo. Com a falta de apoio institucional, o que resta entre as mulheres é o apoio de outras mulheres. Somos nós por nós, e Fefê consegue demonstrar em “Tina: Respeito” a necessidade dessa união de maneira incrível. 

Quando comecei a ler a Tina, eu havia acabado de terminar “Garotas Mortas”, da autora Selva Almada. O livro-reportagem conta diversas histórias de feminicídio partindo de três histórias principais sobre o assassinato de três mulheres. Selva nos conta tanta histórias diferentes que, em determinado momento, ela chega a uma conclusão que parece inevitável: o que a separa dessas garotas mortas é, basicamente, sorte. 

Todos os dias milhares de mulheres sofrem diferentes formas de violência por serem mulheres, por serem vistas como corpos que não merecem respeito, e o que impede que eu ou você sejamos uma delas é sempre isso: sorte. Esse tipo de violência é sistêmica. Enquanto não passarmos a ver um como consequência do outro, e não como casos isolados, seremos incapazes de entender suas estruturas e efetivamente combatê-la. 

Tina: Respeito
Página da HQ Tina: Respeito/Instagram @Fefetorquato

Histórico e renovação em “Tina: Respeito”

Fefê conseguiu manter as características da personagem clássica pela renovação. Ao longo dos anos, Tina ganhou mais espaços nos gibis, diferentes traços e histórias diferentes. A moda disco tomou conta dos quadrinhos nos anos 80 e a versão calça de cintura baixa chegou nos anos 90. Foi nesse período que descobrimos que seu nome é Cristina e que ela cursava Jornalismo na faculdade. 

Ao manter a essência de Tina pelo reflexo do tempo em que vive, Torquato nos permite ter acesso a uma nova história e ao mesmo tempo manter o histórico da personagem. E ela faz isso com uma narrativa que flui facilmente em uma composição que nos leva e nos prende analisando os detalhes da aquarela. Cada quadro se conecta de forma belíssima, e algumas cenas dignas de serem transformadas em pôster.

De diferentes formas, Tina sempre foi uma espécie de retrato do período em que a história é contada. Refletindo comportamentos, falas, gostos e traços que eram compreendidos como a preferência da época. E, não por acaso, a Tina de Fefê reflete questões relevantes para as mulheres hoje.


Tina: Respeito

Fefê Torquato

Panini

96 páginas

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Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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Formada em Direito e estudando Jornalismo, já esteve muito perdida na vida, agora talvez esteja um pouco menos. Metade Frankie e metade Grace, segue escrevendo, tentando cumprir as metas de leitura e ouvindo podcast. Acredita fortemente que um dia vai tomar rumo nessa vida.
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