“Garotas Mortas” e o retrato da realidade das mulheres e meninas da América Latina

“Garotas Mortas” e o retrato da realidade das mulheres e meninas da América Latina

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O feminicídio é um problema global. Só em janeiro de 2019, no Brasil, foram mais de 100 casos notificados de mulheres que foram assassinadas por maridos, ex-companheiros, namorados, irmãos e desconhecidos. Nascer mulher é um fator de risco em vários lugares do mundo, e em conjunto, vivemos sob a expectativa terrorista do medo. Mesmo quando solucionados, esses crimes permanecem no imaginário coletivo das mulheres, servindo de alerta para fato de que nem dentro de nossas próprias casas estamos seguras.

Mas para além dos crimes solucionados, a narrativa de Selva Almada em seu livro “Garotas Mortas“, investiga histórias sem final: a morte sem conclusão de três garotas na década de 1980, na Argentina. Entre 15 e 21 anos, as garotas Maria Luisa Quevedo, Andrea Danne e Sarita Mundín tiveram suas histórias interrompidas de forma violenta, e mesmo 30 anos depois do acontecido, a morte dessas meninas permanece um mistério.

No Brasil, temos a nossa própria cota de garotas mortas sem culpados. Em 1973, em pleno governo militar, a morte de uma menina de 7 anos em Brasília, Ana Lídia, abalou a tranquilidade da cidade que parecia uma pacata capital. Após 22 horas do acontecido, o corpo de Ana Lídia foi encontrado em um matagal, nua e violada, a criança tinha marcas de abuso físico e sexual. O que nunca encontraram foram os verdadeiros culpados. O crime de 40 anos atrás permanece irresolvido.

Garotas Mortas
capa do livro “Garotas Mortas”, de Selva Almada, lançado pela editora Todavia

Da mesma forma que, pessoalmente, a história de Ana Lídia reverbera em meus pensamentos desde minha infância, Selva Almada conta a história das garotas mortas argentinas a partir de sua relação com os crimes: Andrea Danne foi assassinada com uma punhalada no peito, enquanto dormia em seu quarto, aos 19 anos. Não havia sinais de roubo ou arrombamento, nem de que ela tivesse lutado para sobreviver. A ideia de que uma garota poderia ser morta em sua própria casa durante o sono, perseguiu a autora durante sua adolescência. Andrea Danne foi morta quando Selva Almada tinha apenas 13 anos. A partir daí, muitas outras foram assassinadas, e costurando as histórias de sobreviventes, dos crimes solucionados e dos sem resolução, Selva Almada faz uma investigação jornalística literária, em que conecta sua vida e impressões pessoais com a história dessas meninas e mulheres violadas.

Maria Luísa Quevedo tinha 15 anos quando desapareceu. Era uma garota miúda, aparentava menos que 13 anos, e trabalhava como empregada doméstica na casa de outra família. Saía do trabalho as 15h da tarde, depois da lavar a louça do almoço. No dia 8 de dezembro de 1983, Maria Luísa saiu da casa onde trabalhava e nunca mais foi vista com vida. Seu corpo foi achado dias depois, em um terreno baldio, com marcas de enforcamento pelo cinto que usava, comprado pela mãe. As circunstâncias de sua morte, assim como o motivo e o autor do crime, nunca foram encontrados.

A autora Selva Almada. Imagem: reprodução
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Sarita Mundín desapareceu depois de sair com o namorado, que era casado com outra mulher. Ela tinha 21 anos, um filho e uma vida difícil. Depois de anos desaparecida, a polícia encontrou uma ossada que supostamente seria dela. Com o desenvolvimento dos testes de DNA, a família decidiu comprovar se os restos mortais enterrados eram de Sarita. Não eram. Outra garota morta ocupava sua cova, e seu paradeiro nunca foi descoberto. A mãe acredita que ela pode ainda estar viva, pois nunca veio visitá-la em seus sonhos.

Essas garotas mortas seguiram a jornalista durante toda sua vida, reaparecendo nas lembranças a cada nova morte. A própria Selva possui suas histórias particulares de medo da violência masculina e de sobrevivência a abusos, como muitas de nós. É impossível não relacionar o destino das garotas mortas com a realidade atual, em que mulheres ainda são assassinadas pelo simples fato de ter nascido do sexo feminino. A cada nova morte, nova notícia de feminicídio, somos levadas novamente ao estado perpétuo do medo, que não se abranda nem dentro de nossas casas ou ao lado de nossos companheiros. Os nomes se multiplicam durante o livro e as histórias se repetem.

Garotas Mortas
Imagem: reprodução

Garotas Mortas” é um livro doloroso, que fala intimamente com todas as mulheres e expõe uma realidade terrível, um destino infelizmente comum para várias meninas e mulheres da América Latina. O feminicídio, assim como a falta de justiça para as vítimas e seus familiares, é uma epidemia generalizada no continente, tornando as Américas o lugar mais letal para mulheres no mundo. Nosso índice é de 9 mortes de mulheres diariamente. Se isso não representa um total estado de guerra contra as mulheres, nós realmente não sabemos o que representaria.

Nesse 8 de março, precisamos pensar no feminicídio como um problema estrutural, que reverbera em todas as mulheres do mundo. Precisamos identificar e falar sobre a violência masculina e o que ela já provocou na vida das mulheres como parte central da luta feminista, e assim como Selva Almada fez em seu trabalho, não podemos esquecer das garotas mortas. Não estamos todas juntas hoje, faltam elas.


Garotas MortasGarotas Mortas

Selva Almada

Editora Todavia

128 páginas

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Feminista Raíz
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