Coraline e o Mundo Secreto: o crescimento como um território desconhecido e assustador

Coraline e o Mundo Secreto: o crescimento como um território desconhecido e assustador

Henry Selick, diretor de filmes de sucesso como O Estranho Mundo de Jack (1993) e James e o Pêssego Gigante (1996), assumiu em 2009 a direção de mais uma animação que faz uso da incrível técnica stop-motion: Coraline e o Mundo Secreto. O roteiro é adaptação do livro Coraline, de Neil Gaiman. O autor se envolveu com a produção e deu vários palpites e sugestões para o desenvolvimento da narrativa. Na história somos apresentadas à Coraline Jones (Dakota Fanning) e seus pais, que acabaram de se mudar para um prédio residencial.

O novo lar de Coraline se chama Pink Palace. Porém, ao contrário do que o nome sugere, como algo mais glamoroso, se trata de um lugar já bem dilapidado. É a típica casa no topo da montanha, que nos passa aquela sensação de infelicidade e de que algo ruim vai acontecer. É aquele tipo de mansão vitoriana que vemos nos filmes clássicos de horror, como Psicose (Psycho, Alfred Hitchcock). A casa um tanto peculiar, abriga vários inquilinos excêntricos, como o Sr. Bobinsky (Ian McShane), que é treinador de camundongos saltadores.

Pink Palace, a nova casa de Coraline.
Pink Palace, a nova casa de Coraline. Imagem | Reprodução

Sempre buscando pela atenção de seu pai (John Horgan) e sua mãe (Teri Hatcher), Coraline se sente deixada de lado. Seus pais estão tão focados em seus empregos, que parecem não demonstrar muito interesse pela vida da filha. Para não se deixar levar por tais frustrações, Coraline incorpora seu espírito aventureiro e vai explorar a propriedade. Até que encontra uma pequena porta trancada e a chave que a abre.

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Tal premissa é claramente inspirada no clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. Mas também podemos pensar em obras como O Mágico de Oz (1939, Victor Fleming) ou Labirinto – A Magia do Tempo (1986, Jim Henson). Em todas essas narrativas temos uma protagonista observadora, cheia de ideias e corajosa que estão cansadas de suas vidas monótonas. Elas são lançadas a um mundo mágico que por mais que tenha um lado sombrio, consegue ser deslumbrante.

Alerta: O texto abaixo contém spoilers da obra
Coraline e o Mundo Secreto (2009) Henry Selick
Coraline e a porta que a leva para outra dimensão. Imagem |  Reprodução

Ao atravessar a porta Coraline é transportada para uma outra dimensão. Um mundo que é estranhamente semelhante ao que ela vive, porém com a diferença de que lá tudo parece muito melhor. Ela tem seus desejos e vontades atendidas. A velha casa do mundo real, que traz cores apáticas em um ambiente nada acolhedor, entra em contraste com as cores vivas desse novo mundo. Os ambientes são bem organizados e o quarto de Coraline é muito mais bonito, tudo criado para agradá-la.

E assim como ela encontra uma casa muito parecida com a sua, também encontra uma outra mãe e um outro pai. Porém, esses outros pais vêm com uma “pequena diferença”, eles possuem botões no lugar dos olhos. Esses novos pais, procuram mostrar para a garota que são muito melhores que os verdadeiros. Fazem todo o possível para cativá-la, seja dando uma atenção que ela não costuma receber, ou cozinhando seus pratos favoritos. Coraline volta a ter coisas das quais sente tanta falta: diversão e sensação de pertencimento. Ela demonstra se sentir acolhida, como não vinha sendo há muito tempo.

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Visto que no mundo real a menina se sente deslocada, pois ela não sente que faz parte do mundo de sua família. Contudo, a protagonista percebe que o preço a ser cobrado pelos seus desejos, realizados nessa dimensão diferente, é alto. Coraline descobre que a outra mãe na verdade é Bela Dama, um ser que quer tomar posse de sua alma e que aquele mundo não é de verdade. É apenas uma ilusão para atraí-la. É neste momento em que a garota se dá conta de que ela não quer tudo o que deseja.

Os outros pais na adaptação da obra de Neil Gaiman
Coraline e os outros pais. Imagem | Reprodução

Em certa altura do filme, Bela Dama se revela como uma espécie de mulher-aranha. Coraline consegue fugir de seus domínios e volta para sua verdadeira casa, mas não encontra seus pais. A vilã os sequestra e para salvá-los, Coraline vai precisar retornar ao outro mundo. E é só quando a protagonista consegue derrotar a vilã da história, salvar os pais e libertar as crianças fantasmas, que não tiveram a mesma sorte que ela, é que a garota dá seu salto emocional.

Coraline amadurece o suficiente para aceitar sua família como é. Apesar de serem um tanto negligentes eles a amam e querem o seu bem. Ela também se sente mais preparada para lidar com os medos que o cotidiano pode lhe trazer. A menina busca fazer uma aproximação entre seus pais, seus vizinhos e ela mesma. Procurando fazer as pazes com um mundo real que é seu e com tudo o que faz parte dele.

Coraline e o cinema de horror

Coraline e o Mundo Secreto trabalha muito com elementos que estão ligados ao cinema de horror, e podemos observar isso pela sua mise-em-scène. Através do aspecto visual da narrativa podemos coletar inúmeras informações sobre a história, pois eles sempre estão querendo nos dizer algo. Podemos utilizar como exemplo a sequência inicial: onde observamos a boneca ser costurada. Se prestarmos atenção no papel de parede da Bela Dama, podemos ver que sua estampa é de pássaros que parecem ser falcões ou águias.

Exibir essas aves nas paredes da oficina não é mero acaso. Afinal, são seres predadores que sempre estão em busca de alguma presa, principalmente se esta lhe parecer indefesa. Assim como a Bela Dama faz com as crianças. Ainda nesse início podemos ver o quanto o ritmo da montagem nos dá um tom onírico. De um plano detalhe para o outro vemos um trabalho ser feito com “mãos de agulha”. Elas costuram uma boneca, o que nos faz lembrar um pouco da história de Frankenstein, de Mary Shelley.

Coraline e o cinema de horror
A boneca, as mãos de agulha e o papel de parede com as aves. Imagem | Reprodução

Com isso já vamos entendendo que o filme se trata de uma fantasia sombria. Um subgênero que é responsável por tomar conta das emoções e afetar a nossa psique. As fantasias sombrias não têm como ideal assustar a espectadora, mas busca deixá-la incomodada e desconfortável. Na sequência de abertura do filme, as “mãos de agulha” são o tipo de elemento fantástico que causam esse desconforto. Pois é comum nos sentirmos desconfortáveis quando estranhamos algo. Para enaltecer esse sentimento, tal cena é acompanhada por uma canção que traz um coro infantil, além de sussurros e zumbidos que se envolvem com uma melodia suave.

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A música vai se misturando com os sons diegéticos que fazem parte da sequência, como o som do corte da tesoura, ou do material que foi usado para fazer o enchimento da boneca. É uma trilha que ao mesmo tempo em que parece divertida e animada, também é ameaçadora e perigosa. O que é algo recorrente em alguns filmes de horror que usam músicas infantis para causar um certo mal-estar em quem está assistindo.

A outra mãe de Coraline
A outra mãe. Gif | Reprodução

Dessa forma, a história vai sendo conduzida tendo como ponto principal a relação entre Coraline e seus pais. Em especial com a sua mãe e a dor do crescimento. Crescer não é algo tão simples, para muitos é algo doloroso. O embate de Coraline com ambas as mães é algo que, às vezes, é recorrente na vida de quem está crescendo. É comum ouvirmos histórias de crianças que estão entrando na adolescência e que fizeram o movimento de se isolar do mundo real. Elas muitas vezes querem viver em seu próprio mundo imaginativo com o que elas acham de mais maravilhoso. E quem nunca sonhou com essa pequena porta que pode nos levar para essa outra dimensão, hein?

O longa, portanto, nos mostra o quão é importante dar atenção e acolher quando alguém está passando por esse período de solidão e insatisfação do mundo real. Dar abertura para saber o que uma criança ou um adolescente está sentindo e respeitar seus interesses é de suma importância. Visto que crescer em silêncio é muito doloroso, em especial, quando nos encontramos no período de expansão da autoconsciência. É aquela fase em que normalmente a pessoa tende a ser mais rebelde, raivosa e revoltada. É necessário um olhar receptivo antes de julgar que tudo é drama, pois escutar é muito significativo.

Problematizações acerca do filme

Como é comum aos universos criado por Neil Gaiman, Coraline é uma obra que nos entrega uma protagonista forte e que expõe autonomia feminina. O autor é costumeiramente elogiado pela crítica feminista por construir personagens femininas independentes. Normalmente, elas fazem uso de seus próprios recursos e atributos intelectuais para superar seus desafios.

Na versão cinematográfica, Coraline segue essa linha do livro. Sendo assim, acompanhamos a forma como a garota encontra progressivamente seu próprio grau de independência, e reproduz com êxito seu próprio senso único de identidade. A questão de Coraline em efetuar tarefas indiscutivelmente assustadoras, por si própria, expõe uma adequação a uma leitura feminista que também está presente na obra literária.

Neil Gaiman e Henry Selick
Neil Gaiman e Henry Selick. Imagem | Reprodução

O longa é uma história de descobertas e conquistas pessoais. A partir disso, Coraline ganha autoconfiança, tem consciência dos erros que cometeu e se responsabiliza em tomar a frente para consertar as coisas. Coraline alcança a vitória por ser ela mesma – corajosa, determinada, aventureira. Tudo isso coloca Coraline em um emblema crucial de poder feminino em resiliência.

Porém, o longa nos traz algumas situações a serem problematizadas. Diferente da literatura, o filme nos mostra um novo personagem: Wybie. O garoto foi criado apenas para a versão cinematográfica. No livro, parte do texto é composto por pensamentos da protagonista. Sendo assim, decidiram criar um personagem com o qual Coraline pudesse dialogar tais pensamentos e não precisasse ficar falando sozinha.

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Wybie é apelido de Wyborn, portanto, o garoto já nos faz buscar por análises a partir de seu nome. Wy (why) em inglês significa  “por que”, “born” quer dizer nascido/nasceu. O que em uma tradução literal ficaria algo como “Por que nasceu?”. O que pode sugerir uma gravidez indesejada, já que o menino é criado pela avó. Isso nos faz refletir  ainda mais sobre essa questão de paternidade e maternidade que a história aborda.

Porém, a polêmica que gira em torno de Wybie é que ele, no final da trama, é o responsável por salvar Coraline. Essa escolha do diretor Henry Selick, que também foi o responsável pelo roteiro, desagradou muitos críticos e fãs. Afinal, no livro a protagonista se mostra autossuficiente até o final da trama, já no filme ela depende de um garoto para ser salva.

Problematizações acerca do filme de Henry Selick
Coraline e Wybie. Imagem | Reprodução

Não que exista algum problema em contar com a ajuda de pessoas, pois a coletividade é muito importante. Mas quando pensamos em histórias ficcionais, já contamos com inúmeras narrativas nas quais mulheres dependem de um homem para serem salvas. É empoderador para nós, mulheres, vermos personagens que alcançam suas conquistas sozinhas. Afinal, quantas histórias com homens que são autossuficientes durante todo o tempo, nós já vimos e ainda vemos por aí?

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Então, seria importante manter Coraline como a garota que salva a si mesma até o final, tal qual acontece no livro. O próprio Gaiman concorda com isso e não curtiu a mudança. A decisão de colocarem Coraline como a garota que é salva nos momentos finais dilui um tanto das conotações feministas que o filme vinha pregando. Mas esse desvio, apesar de causar um desânimo momentâneo, não permite que a obra perca seu brilho. O longa ainda comunica uma mensagem de força aos seus espectadores, em especial às espectadoras. Porém, se mantém como algo a se problematizar.

Coraline e seus pais em um momento de descontração
Coraline e seus pais em um momento de descontração. Imagem | Reprodução.

Coraline e o Mundo Secreto entrega um olhar um tanto sombrio e tenebroso da história de uma pré-adolescente, mas nem por isso a narrativa deixa de ter seu lado comovente. Os filmes de horror conseguem ser muito plurais, pois ao vincular esse mundo imagético com o horror é criado uma comunicação desafiadora, pela qual crianças e até mesmo adultos podem atravessar. É uma forma de examinar seus medos mais intensos e seus desejos de pertencimento.

O arco emocional de Coraline nos revela que enfrentar o que tememos e aquilo que nos angustia, faz parte da vida e é importante encará-los. É como o próprio Gaiman escreveu na introdução de comemoração aos dez anos do lançamento do livro: “Ser corajoso não quer dizer que você não está com medo. Quer dizer que você está com medo, mas fez a coisa certa de qualquer jeito”. A vida de Coraline pode não ser deslumbrante e perfeita, mas é isso que a torna real.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Denise é bacharela em cinema e tem amor incondicional por tal arte. Pesquisa e escreve sobre feminismo e a representação das mulheres na área do audiovisual. É colecionadora de DVDs, fã da Audrey Hepburn, apaixonada por Rock n' Roll e cultura pop. Adora os agitos dos shows de rock, mas tem nas salas de cinema seu local de refúgio e aconchego.
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