Transversais: documentário retrata histórias de cinco pessoas trans

Transversais: documentário retrata histórias de cinco pessoas trans

Em agosto de 2019, Bolsonaro fez uma live desqualificando vários projetos audiovisuais que estavam concorrendo a editais de financiamento. Transversais foi um dos alvos, inicialmente pensado para ser uma série documental. Felizmente, o projeto se transformou em filme e conseguiu sair do papel alguns anos depois.

Cena do documentário "Transversais".
Samilla em Transversais. Foto: Juno Braga e Linga Acácio.

As histórias contadas em Transversais

Em Transversais, o diretor Emerson Maranhão entrevista cinco pessoas transgênero do estado do Ceará. Érikah é diretora de escola, Samilla é funcionária pública, Caio José é enfermeiro do SAMU, Kaio Lemos é pesquisador e Lara é uma estudante adolescente (mas quem mais fala no filme é sua mãe, Mara).

Para além das histórias de adversidade e preconceitos enfrentados, uma das coisas mais cativantes que o documentário traz é o retrato do apoio que alguns dos personagens recebem de seus familiares. Os pais de Lara se mostram pessoas compreensivas e amorosas.

As histórias contadas em Transversais
Mara maquia sua filha, Lara. Foto: Juno Braga e Linga Acácio.

Mara conta como foi o processo de transição da filha e como teve que se preparar para apoiá-la no enfrentamento do mundo e do preconceito institucional da escola. O pai de Lara relata como foi o processo de vencer seu próprio preconceito e desinformação sobre o assunto, além de sofrer o afastamento de sua família muito conservadora.

Porém, o que Transversais mais enfatiza é o quanto os dois amam a filha e se preocupam em contribuir para o ativismo trans. Há imagens dos três passando tempo juntos, assim como o apoio dos alunos em uma passeata na frente da escola que expulsou Lara após sua transição.

O emocionante apoio dos pais

Os pais de Caio José contam como a adoção do filho foi uma reviravolta de amor em suas vidas, já que não conseguiram ter filhos biológicos antes. Quando Caio cresceu e começou a transição, ele e sua mãe ficaram com medo da reação do pai quando recebesse a notícia. Porém, a imediata compreensão do mesmo foi uma grata surpresa.

Documentário "Transversais"
Caio José em Transversais. Foto: Juno Braga e Linga Acácio.

Caio conta que o pai aceitou de forma mais natural do ele jamais imaginaria, e lhe ofereceu muitas palavras de apoio e compreensão. Essa cena nos faz pensar como o mundo poderia ser um lugar melhor se houvesse menos masculinidade tóxica se mais homens se permitissem ter a compreensão do pai de Caio.

É também muito reconfortante ver que todos os parentes e amigos entrevistados sempre usam os pronomes corretos para se referir aos cinco que são o foco do filme. Transversais não dá espaço para os parentes que não aceitam e desrespeitam a identidade de alguns deles, sendo apenas mencionados em alguns momentos nos depoimentos.

A discriminação não parte somente de indivíduos

Algumas instituições também são mencionadas no documentário. Tanto as que excluem, como a escola de Lara ou a igreja que os pais de Caio frequentavam, quanto as que acolhem, como a casa de candomblé que Kaio Lemos faz parte, ou os diversos grupos de ativismo LGBTQIA+.

Transversais retrata que a discriminação não parte somente de indivíduos
Kaio Lemos em Transversais. Foto: Juno Braga e Linga Acácio.

Apesar de seu formato convencional, focado em depoimentos e entrevistas, Transversais consegue contar histórias muito interessantes e tocantes de cinco pessoas bem diferentes, com diversas vivências, unidas pelo desejo de tornar o mundo um lugar mais inclusivo e menos tóxico para pessoas trans. O filme estreia dia 24 de fevereiro nos cinemas.

 

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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