Mulheres do Nobel: Louise Glück

Mulheres do Nobel: Louise Glück

Louise Glück é uma poeta norte-americana, nascida em Nova York no ano de 1943. Descendente de imigrantes judeus, Louise tem mais de 40 anos de carreia e possui 12 livros de poesia publicados, além de duas coletâneas de ensaios.

Antes do Nobel de Literatura, sua poesia já era aclamada pela crítica. Glück recebeu diversos outros prêmios literários, como o Prêmio Pulitzer (1993) e o National Book Award de poesia (2014).

As poesias de Louise Glück
Louise Gluck em 1977. Foto: Wikimedia commons

A universalidade do íntimo por Louise Glück

A poesia de Louise Glück não teme ser crua, ainda que vague pela sutileza. Sua escrita sabe tocar os extremos e desfiar o espectro da sensibilidade. Ela nos desconserta pela sustentação da ambiguidade, que se assemelha à nossa própria ambiguidade da existência. A existência é algo frágil, quase um acidente. Mas também é opressiva, é contrária à pureza, é ameaçadora a quem ousa existir.

O perpétuo trânsito de sua escrita entre nossas faces nos lembra, ou melhor, nos garante, que só se é humano por completo, se ambas coexistem. Somos covardes e bravos, gentis e cruéis. A plena existência, a vida de verdade, bárbara e resistente, só pode ser experimentada no equilibrar e no conhecer dos opostos. A recusa da dor, do luto ou da falta, resulta na perda de nossa própria essência e no maior dos pecados: negamos o próprio âmago do ser.

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A exigência da ruína

A qualidade mais marcante da voz poética de Glück é sua perpétua consciência da morte: sua voz, seus contornos, sua onipresença devastadora e às vezes imperceptível. Muitas vezes, ela emprega imagens naturais para demonstrar que finais servem como começos e vice-versa.

Em seus poemas, as flores têm bocas e as paisagens testemunham o desespero da loucura humana. A água canta a perda e os lírios brancos elogiam a ternura e a transitoriedade da paixão.” – Isabella B. Cho para The Harvard Crimson.

A perda e a finitude do que amamos, mais que nossa própria mortalidade, é a primeira das tragédias. O fato de amarmos é o paraíso e a danação da existência. Tudo que fazemos e toda arte que criamos é também para lidar com isso. Aprender a transpor nossos lutos é deixá-los nos traspassar, para que então sejam suportáveis e, com o tempo, transformados. E é esse um dos presentes da literatura: ser a arte que possibilita que Louise Glück ouça sua própria dor, e nós ouçamos e tomemos emprestadas suas palavras para falar de forma clara quando somos incapazes de encontrar as nossas.

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Ser humano, estar vivo, consciente e respirando nesse mundo é um fenômeno ambíguo, atravessado pelo passado, repleto de dualidades, e que permanece misterioso em seu início desconhecido e em seu fim involuntário.

“Você sempre se baseia em sua própria experiência porque é o material de sua vida, começando com sua infância. Mas eu procuro a experiência arquetípica e assumo que minhas lutas e alegrias não são únicas.

Elas se parecem únicas à medida que você as experimenta, mas não estou interessada em fazer os holofotes recaírem sobre mim e minha vida particular. Mas sim sobre as lutas e alegrias dos humanos, que nascem e depois, são forçados a partir.”

– Trecho de Louise Glück em entrevista para o NY Times.

Trecho do poema “Faithful and Virtuous Night”, de Louise Glück.

“Acredito que aqui te deixo. Ao que parece

não há um fim perfeito.

De fato, existem infinitos fins.

Ou talvez, uma vez que um começa

existem apenas os fins.”

– Trecho do poema “Faithful and Virtuous Night” (tradução livre)

Louise Glück e Barack Obama
Em 2015, Louise foi condecorada com a National Humanities Medal, pelo então presidente, Barack Obama, pela sua contribuição para a cultura norte-americana. | Imagem: reprodução

O Prêmio Nobel de Literatura de Louise Glück

Louise recebeu o Nobel de literatura em 2020 por sua “por sua voz poética inconfundível que, com austera beleza, transforma a existência individual em universal”.

Meus pais visionários liam os mitos gregos para mim e, quando consegui ler sozinha, continuei a lê-los. As figuras dos deuses e heróis eram mais vívidas para mim do que as outras criancinhas do quarteirão de Long Island. Não era como se eu estivesse recorrendo a algo adquirido no final da vida para dar ao meu trabalho uma espécie de verniz de aprendizado.

Estas eram as minhas histórias de ninar. E certas histórias ressoaram particularmente comigo, especialmente Perséfone, e eu tenho escrito sobre ela há 50 anos. E acho que estive tão envolvida em um conflito com minha mãe quanto as garotas ambiciosas costumam estar. Acho que esse mito em particular deu um novo aspecto a essas lutas. Não quero dizer que foi útil na minha vida diária. Quando escrevia, em vez de reclamar da minha mãe, podia reclamar de Deméter.

A memória também é protagonista em sua poesia, assim como sua interlocutora. Nós, como leitores, somos ouvintes e espiões, papéis que se intercambiam e se dissolvem em suas linhas. Assim, os temas profundamente pessoais e assombrosamente universais de Glück não nos deixam esquecer que os vícios e aflições dos deuses e heróis mitológicos são nossos exatos vícios, amores e aflições. Esses são nossos lembretes e garantias da nossa condição humana. São espelho e mapa de tudo que já fomos e perpetuamente somos.

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O PODER DA FEITICEIRA

Eu nunca transformei ninguém em porco.

Alguns humanos são porcos; eu os faço

Se parecerem com porcos.

 

Estou cansada do teu mundo

Que permite que o exterior disfarce o interior. Os teus homens não eram maus;

Uma vida indisciplinada

fez isso com eles. Como porcos,

 

Sob o meu cuidado

E das minhas ajudantes,

Se tornaram mais dóceis.

 

Depois reverti o encanto, te mostrando a minha boa vontade

E também o meu poder. Eu vi

 

Que poderíamos ser felizes aqui,

Como os homens e as mulheres são

Quando suas exigências são simples. Ao mesmo tempo,

 

Eu previ a tua partida,

Os teus homens, com a minha ajuda, enfrentando

O mar ruidoso e agitado. Você pensa

 

Que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,

Toda a feiticeira tem

Um coração pragmático; ninguém vê a essência que não possa

Enfrentar as limitações. Se eu apenas quisesse te abraçar

Eu poderia ter te aprisionado.

Tradução de Camila Assad para o periódico Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná.

  • No Brasil, os poemas de Louise são publicados pela Companhia das Letras.
  • Atualmente, Glück é professora adjunta e escritora residente na Universidade de Yale
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10 textos

Historiadora e escrevedora de frases longas. Entusiasta de diálogos. Fala de literatura e de história até na mesa do café.
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