Joan Didion – The Center Will Not Hold: a ordem da desordem de uma escritora

Joan Didion – The Center Will Not Hold: a ordem da desordem de uma escritora

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Joan Didion: The Center Will Not Hold é um documentário de 2017 produzido pela Netflix. Por meio de entrevistas com colegas e familiares de Joan Didion, assim como relatos concedidos por ela, se propõe a contar a trajetória de vida e escrita da jornalista, ensaísta e romancista.

Sob a direção de Griffin Dunne, sobrinho da escritora, conhecido por ser o protagonista de filmes como Um Lobisomem Americano em Londres (1981) e Depois de Horas (1985), o documentário leva o espectador a analisar a obra de Didion, baseada na perspectiva pessoal da escritora, questionando como as experiências de vida afetaram sua escrita.

O início da jornada literária de Joan Didion

Joan Didion é uma escritora norte-americana que nasceu em Sacramento, Califórnia em 1934. Desde pequena possuía uma conexão com a escrita, tecendo contos imaginativos sobre acontecimentos que presenciava, seja por meio da mídia ou experiências particulares.

Joan Didion em 1967
Joan Didion no Golden Gate Park em São Francisco, durante a escrita de seu artigo “Slouching Towards Bethlehem”, em abril de 1967 | Foto: Ted Streshinsky/CORBIS/Corbis

No documentário, Joan aponta para a escolha óbvia de um diploma de ensino superior, justamente pela afinidade com as palavras. A autora se forma como bacharel de Inglês pela Universidade da Califórnia em 1956, onde ainda em seu último ano de estudo consegue seu primeiro emprego aos vinte anos, trabalhando como escritora para a revista de moda Vogue, em Nova Iorque.

Didion discute a importância desse emprego para seu desenvolvimento como jornalista e ensaísta, onde teve que escrever textos que não estavam planejados, pelo simples fato do título do artigo estar na capa da revista sem que o mesmo existisse e que ninguém tenha planos de escrevê-los, sendo, assim, obrigada a assumir responsabilidades para as quais não estava previamente preparada.

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Em Nova Iorque, Joan conhece o roteirista e escritor John Gregory Dunne, com quem se casa em 1964. Eventualmente o casal se muda para a Califórnia, onde passará boa parte de suas vidas, até o posterior retorno à Nova Iorque. Didion começa a se destacar como jornalista, conhecida por “escrever a história de seu tempo por meio de artigos”, algo que até os anos 60 ninguém havia feito antes, como afirma um dos entrevistados.

Joan Didion em sua casa | Foto disponibilizada no documentário.

O jornalismo como ferramenta de compreensão da sociedade

Seus textos sobre os acontecimentos cotidianos nos Estados Unidos se destacam nos jornais, pois Didion não acha barreiras em abordar assuntos difíceis, como o racismo estrutural do país, ou o que ela apelida de o “centro caindo”: as comunicações constantes de falência, o desaparecimento em massa de crianças e a banalização dos assassinatos. Ela chegou a entrevistar uma das mulheres envolvidas no crime conhecido como “Os Assassinatos de Manson”, Lisa Kasabian. Joan, então, relembra como essa mulher esteve em sua casa, onde ela cozinhou um jantar para Kasabian e a entrevistou após seu julgamento sobre os crimes.

O acontecimento marcou muito a escritora, que era mãe de uma menina pequena no momento, pois envolvia o assassinato de uma atriz que estava grávida; ela afirma na tela que “antes de Manson tudo parecia ter sentido, o caso de Manson aconteceu e então nada fazia sentido”. 

A destreza de Didion é salientada conforme o documentário relata sua carreira, seus escritos políticos se destacam no momento que são publicados pela capacidade da escritora de decompor de forma analítica os acontecimentos considerados mais revoltantes da sociedade, como a Guerra Civil em El Salvador e o relato de Didion sobre o auxílio do governo norte-americano, o caso da mulher atacada no Central Park (conhecido como “The Central Park Jogger”).

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Joan afirmava não acreditar na narrativa racista que a polícia trazia ao afirmar que garotos negros cometeram o crime, em seu texto ressaltou que aquela era a própria visão da cidade de Nova Iorque, com o racismo sistêmico, e uma completa inaptidão de compreensão por parte da população de problemas profundos, os quais os moradores da cidade não possuíam vontade alguma de mudar.

Em entrevista para o longa, Didion afirma que “acreditava que se eu examinasse algo, seria menos assustador”, ela se utiliza da comparação com uma cobra: você acredita que se ela está na sua linha de visão, a cobra nunca irá matá-lo.

Ficção e o confronto do medo

É interessante, também, como o documentário aborda a obra de ficção de Joan. Alguns trechos de seus livros e diários foram selecionados para serem lidos ao longo dos noventa e dois minutos de filme, ponto positivo para aqueles que possam estar assistindo sem conhecer a fundo a obra da autora.

Ao discutir sobre sua escrita de romances, especialmente Play it as It Lays (1970), que foi adaptado para o cinema em 1972 sob a direção de Frank Perry, com roteiro da própria Didion, Joan discute um pouco sobre seu processo criativo, afirmando que “romances também são sobre coisas com as quais você tem medo de lidar”, e observando que ao longo de sua carreira, muitos pontos que ela considerava dolorosos em sua vida pessoal acabam sendo explorados em suas obras de ficção.

Contudo, um dos pontos mais comoventes do documentário é como ele aborda o relacionamento de Joan e John: não tenta torná-lo no relacionamento perfeito, mas mostra as dificuldades de um casamento real, entre duas pessoas que além de serem um casal, trabalharam juntos por muito tempo e tiveram momentos difíceis.

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Da mesma forma, os depoimentos de amigos e familiares sobre o casamento dos dois demonstram um relacionamento de cumplicidade e compreensão – a própria Didion afirma que não poderia ter se casado com um homem que não fosse, também, um escritor, pois só alguém assim saberia entendê-la. Há, portanto, uma cena intensa no documentário, onde Joan fala sobre seu relacionamento. Ela chega a afirmar que seu marido era “o regulador do fluxo entre o mundo geral e eu”.

Joan Didion com seu marido John Gregory Dunne e a filha do casal, Quintana Roo Dunne | Foto: reprodução

A expressão do luto por Joan Didion

A história do casamento deles acaba se intercalando com um relato que, eventualmente, afeta a todos nós: a morte. O falecimento de John aconteceu no mesmo ano em que a filha do casal adoece gravemente, passando dias internada no hospital. Todavia, a forma que o longa aborda esse momento da vida de Joan, faz com que quem esteja assistindo sinta o que está sendo descrito de forma visceral: o luto, a dor que pode ser aliviada com o tempo, mas nunca realmente some.

O cunhado de Joan comenta estar na casa da escritora um tempo após o funeral do John, os dois estão decidindo sobre o que fazer com as coisas dele, quando ela abre o guarda-roupa e, após olhar para o conteúdo do local por um tempo, afirma não poder se desfazer das roupas do marido, pois o que faria se ele voltasse? Naquele momento, o cunhado afirma que a pergunta de Joan fazia todo sentido, a possibilidade de que John voltaria para casa parecia real. A partir deste relato pessoal, somos levadas a questionar, olhando para nossas próprias crenças, se os mortos realmente nos deixam em algum momento.

O Ano do Pensamento Mágico - Joan Didion
Edição de “O Ano do Pensamento Mágico” da Harper Collins | Foto: reprodução

Esse momento conturbado da vida da escritora resulta em um livro dois anos depois, O Ano do Pensamento Mágico (com tradução de Marina Vargas, publicado pela Harper Collins no Brasil). Nele, Joan narra seu processo de luto por seu marido e a doença de sua filha, porém, de uma forma inusitada: usa de seu próprio luto para analisar como esse é um processo extremamente individual, onde, apesar dos sentimentos de impossibilidade, todos reaparecem e retornam à vida em sociedade, eventualmente  respondendo a pergunta de: o que fazer agora? Como continuar?

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Porém, essa é apenas uma parte da tragédia do luto para a escritora: no mesmo ano que Pensamento Mágico é publicado, a filha de Joan falece. O documentário, portanto, aborda esse momento por meio do relato de um dos editores de Didion, ao pedir que ela escreva um outro livro, relatando o que aconteceu com sua filha. Essa era uma tentativa de fazer com que ela voltasse a escrever e, de certa forma, retornasse a ser mais ativa – pois o luto parece ter feito com que Joan se distanciasse das pessoas e do mundo, se tornando quase reclusa em seu apartamento em Nova Iorque.

Em seguida, ela aceita o pedido e Blue Nights, seu décimo quarto livro, é publicado – no Brasil, foi traduzido por Ana Carolina Mesquita e publicado pela Harper Collins. O luto é novamente o ponto central dessa obra de não-ficção, mas Joan não se propõe a compreender o que aconteceu com sua filha ou o processo de aceitação pelo qual ela teve que passar, ela apenas discorre sobre como, às vezes, não resta sentido ou ordem nas narrativas de nossas vidas. Em certos momentos, simplesmente não conseguimos achar uma razão ou conclusão, por menos aceitável que ela seja.

Atualmente, duas coletâneas de seus artigos foram publicadas, Rastejando Até Belém (1968), publicado no Brasil pela Todavia com tradução de Maria Cecília Brandi, e O Álbum Branco (1979), com publicação brasileira da Harper Collins prevista para maio deste ano e tradução de Camila von Holdefer.

Joan Didion
Joan Didion | Foto: reprodução
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The Center Will Not Hold faz um excelente trabalho em recontar a história de Didion, com depoimentos sensíveis de indivíduos marcantes em sua vida. Porém, o que torna todo o conteúdo extremamente pessoal para além dos depoimentos, é a conexão de Joan e Griffin.

O diretor, que também faz parte do documentário, conversa com a escritora sobre momentos importantes de sua própria vida que envolveram Joan, principalmente na infância. Isso acrescenta ao longa uma atmosfera de proximidade e sutileza, unindo ainda mais o espectador com a vida pessoal da escritora. Esse toque emocional em muito acrescenta ao documentário, sem prejudicar os eventos retomados por sua narrativa, pelo contrário, auxilia quem assiste a compreender ainda mais a trajetória da autora.   

Joan Didion: The Center Will Not Hold é um excelente documentário. Para os fãs da escritora, que já conhecem sua obra e história, a narrativa não se mostra pesada ou monótona, possuindo uma fluidez proporcionada pelos próprios comentários de Joan em conjunto com os outros entrevistados. Ainda assim, é um filme que agrada mesmo aos que não possuem conhecimento prévio da obra da autora, mostrando uma história tocante e sensibilizando quem vê a se conectar com Joan por meio de sua jornada de vida à sua escrita. 


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.


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Historiadora e Pesquisadora de Cinema. Fã de horror, filmes, livros, hóquei e de um pug chamado Batata. Sempre pode ser encontrada com café.
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