Seres Mágicos e Histórias Sombrias: contos que nos fazem virar a próxima página

Seres Mágicos e Histórias Sombrias: contos que nos fazem virar a próxima página

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O fantástico, sobrenatural ou terreno, ganham forças na antologia de contos “Seres Mágicos e Histórias Sombrias”, organizada por Neil Gaiman (Sandman, Deuses Americanos e Coraline) e Al Sarrantonio (Toybox, Halloweenland e West Texas), traduzida por Regiane Winarski e publicada este ano pela DarkSide Books. Ao longo dos mais de vinte contos, somos apresentadas a mundos diversos, nos quais o insólito percorre mentes e acontecimentos perturbadores, nos fazendo sempre almejar a história seguinte.

Na introdução à edição de “Seres Mágicos e Histórias Sombrias”, Neil Gaiman conta que, antes de iniciarem o processo de curadoria dos contos, ele e Al Sarrantonio conversaram muito acerca de suas preferências literárias, principalmente se tratando do que os motiva a terminar uma história. Para o autor, o ponto principal para qualquer leitura se tornar prazerosa acontece quando consciente ou inconscientemente nos perguntamos: o que aconteceu depois? – e é esta inquietação e desejo por saber o que nos espera além dos primeiros parágrafos, que permeia as páginas de todas as histórias da obra.

“A verdadeira magia dessa pequena invocação é que inspirou centenas de milhões de palavras, fez pessoas que nunca se imaginaram contadoras de histórias virando narradoras que poderiam ter oferecido concorrência acirrada para Sherazade ou para Joseph Jorkens de Dunsany. Nós viramos a página, e a aventura começa.”

(Introdução, de Neil Gaiman, pág. 11)

Os contos dessa antologia possuem temas variados, uma vez que uma das exigências dos organizadores para que as histórias existissem e fossem escolhidas seria extrapolar o gênero fantasia e sair do lugar-comum, já conhecido por diversas leitoras; ora leremos sobre formas contemporâneas de vampirismo, ora voltaremos no tempo e acompanharemos uma história de vingança permeada por fantasmas do passado; de um lado encontraremos deuses existindo na cena boêmia de Nova York e, em outros, nos sentiremos ameaçados por aves e animais selvagens morando em um pequeno apartamento.

Seres Mágicos e Histórias Sombrias - resenha

Cada história possui algo de pavoroso e instigante, fatores que prometem – e cumprem – com a proposta de serem únicas, entreterem, apavorarem e, até mesmo, nos fazerem refletir sobre os sentimentos mais obscuros existentes no íntimo de cada pessoa.

“Seres Mágicos e Histórias Sombrias” apresenta exatas vinte e seis histórias, das quais sete foram escritas por autoras. Apesar de ser um número inferior ao de autores homens presentes na antologia, o livro é um dos poucos a dar tanta importância para as vozes femininas que escrevem literatura fantástica.

Se comparado às diversas obras existentes, cujo tema é igual ou semelhante, o livro sai muito na frente, ainda mais por apresentar autoras que, na maioria dos casos, ainda não foram trazidas para o Brasil e são pouco conhecidas do público; os contos servem, então, como porta de entrada para que elas sejam reconhecidas, também, nacionalmente (ainda mais se tratando de um gênero literário que na última década vem deixando de existir em maior quantidade no cenário masculino para ocupar seu devido lugar de excelência igualmente nas mãos de nós, mulheres).

“Carne da minha carne e sangue do meu sangue, só que não um, mas dois. Ainda assim, não dois iguais, pois o irmão demônio era o maior dos dois, com o único desejo de sugar sugar sugar para seu ser a vida do outro, o irmão menor, toda a nutrição do útero líquido e escuro, sugar para dentro de si o irmão menor em volta do qual estava encolhido como se o abraçando, a barriga na coluna curva e a testa do irmão demônio encostada no osso mole da nuca do irmão menor.”

(trecho do conto “Figuras fósseis”, de Joyce Carol Oates, pág. 23)

Seres Mágicos e Histórias Sombrias - resenha

As autoras da antologia são Joyce Carol Oates (“Figuras fósseis”), Joanne Harris (“Incêndio em Manhattan”), Jodi Picoult (“Pesos e medidas”), Diana Wynne Jones (“O diário de Samantha”), que inclusive escreveu o livro que deu origem à animação “O Castelo Animado”, de Hayao Miyazaki, Carolyn Parkhurst (“Indisposta”), Kat Howard (“Uma vida em ficção”) e Elizabeth Hand (“O primeiro voo do Belerofonte de McCauley”).

As histórias versam sobre divindades, extraterrestres, situações insólitas no cotidiano e dramas familiares. Destaque para “Figuras fósseis”, cuja escrita lírica, lindamente traduzido por Regiane Winarski, conta a história de irmãos gêmeos que, desde o útero da mãe, possuem uma relação de distanciamento e rivalidade, um dos garotos se sobressaindo ao outro, mais frágil, até a vida adulta; em “Pesos e medidas”, acompanhamos a vida de um casal que acabara de perder a filha e em como o terrível fato influenciou a vida de ambos, diferentemente; já em “Indisposta”, assim como em “Figuras fósseis”, a relação entre duas irmãs mostra o quão perverso o ser humano pode ser, a fim de alimentar os próprios desejos.

“Sua mente já ficou vazia? Aquele espaço entre um pensamento e o outro, quando seu cérebro é só ruído branco, quando não tem nenhum pensamento na sua cabeça – você se lembra dessa sensação?

Imagine essa ausência se prolongando para sempre. Não há como fugir, porque você não sabe –não é que não lembra, não sabe –o que você estava pensando antes do seu cérebro ter um branco, e assim não sabe o que fazer para fazê-lo funcionar de novo. Simplesmente não tem nada. Silêncio. Branco.”

(trecho do conto “Uma vida em ficção”, de Kat Howard, pág. 262)

Há, ainda, espaço para a reflexão de relacionamentos abusivos e assédios morais. Em “Uma vida em ficção”, a protagonista do conto está em um relacionamento com um escritor, que a utiliza como musa inspiradora para suas personagens femininas, mas acaba perdendo toda a sua individualidade nestes processos ao se submeter a situações pouco confortáveis para si, apenas para agradar o outro – um conto poderoso sobre dominação física e psicológica. No contexto de “O diário de Samantha”, uma modelo é perseguida por um admirador secreto, cujo gosto e a forma de abordar a moça é de extremo mal gosto e invasivo.

O primeiro voo do Belerofonte de McCauley” e “Incêndio em Manhattan” são os contos mais voltados para a fantasia urbana e a ficção científica popularmente conhecida na parte das autoras, o primeiro sendo uma aventura de tirar o fôlego acerca dos fatos misteriosos no voo de um aeroplano e, no segundo, a dinâmica entre deuses nórdicos convivendo em Nova York e tendo de se acostumar com as problemáticas humanas.

O livro conta com textos dos organizadores (o já conhecido “A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras”, de Neil Gaiman, e “O Culto do Nariz”, de Al Sarrantonio), e também com textos de Peter Straub (autor do livros “Ghost Stories”, também publicado pela DarkSide, que aqui assina o conto “Mallon, o guru”), Chuck Palahniuk (autor do famoso “Clube da Luta”, que na obra de Gaiman e Sarrantonio assina a história “Perdedor”) e Joe Hill (autor de “A Estrada da Noite”, cujo conto “O diabo na escada” faz parte da antologia e possui uma estrutura metalinguística muito interessante).

Por fim, o projeto gráfico do livro apresenta uma proposta que faz jus ao título: a tão amada caveirinha costura seu próprio íntimo sombrio às histórias, metamorfoseando-se em uma criatura mágica para nos contar as mais incríveis e seletas histórias de fantasia, terror e horror.

“Seres Mágicos e Histórias Sombrias” é leitura obrigatória e item indispensável na coleção de todo fã de excelentes histórias fantásticas. Histórias que nos assombram, perseguem e que nos fazem virar, sem cessar, as próximas páginas.


Seres Mágicos e Histórias Sombrias

Diversos autores e autoras

Darkside Books

392 páginas

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Edição e revisão por Isabelle Simões.

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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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