Mulheres do Nobel: Toni Morrison

Mulheres do Nobel: Toni Morrison

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Toni Morrison nasceu em 1931, no estado americano de Ohio. Nascida em uma família humilde, Chloe Ardelia Wofford adotou o nome “Toni” durante seus anos de graduação na Howard University. Toni Morrison foi escritora, editora e professora. Ela não só é a primeira escritora negra a receber um Prêmio Nobel, como também a primeira mulher negra a receber um Nobel em qualquer categoria.

Toni publicou seu primeiro romance, O olho mais azul, em 1970. Ela escrevia nos interstícios de sua vida e responsabilidades de mãe solo de dois filhos e de seu trabalho como editora literária na Random House, em Nova York. Toni editou e publicou diversos autoras e autores negros como Angela Davis, Henry Dumas, Gayl Jones e o próprio Muhammad Ali.

A originalidade radical de Toni Morrison

Toni escreveu 11 romances, além de ensaios e livros infantis. Além do Nobel, seus livros receberam diversos prêmios, como o Prêmio Pulitzer de Literatura e o National Book Critics Circle Award. Seus romances não só foram amplamente elogiados pela crítica, como também são sucesso de vendas em todo o mundo. Hoje, seus livros contam entre as obras que revolucionaram a literatura americana e no elenco dos romances essenciais da literatura mundial.

Toni Morrison
Foto: Jill Krementz (reprodução)

A prosa de Toni Morrison é densa e poética. Suas obras expõem e prescrutam o trauma individual e coletivo da escravidão: sua escrita traz à luz a brutalidade, a desumanização e suas consequências psicológicas e sociais. Os danos individuais e coletivos da escravidão, a violência e discriminação que eles causam e incitam, permeiam não só as relações familiares e da comunidade como a própria noção de valor e identidade do indivíduo. Através de suas personagens, Toni nos mostra que essas consequências ainda reverberam na sociedade estadunidense, manifesta em uma realidade social racista e desigual.

A escrita em gênero, raça e classe

A obra de Toni é permeada por duas esferas que a transforma em atemporal e absurdamente atual: suas personagens transcendem as páginas, ressoando para além de suas histórias. Assim, Morrison escreve a realidade que testemunha, as questões que permanecem como urgentes, mas também parecem parecem cíclicas, originadas em um passado que ressurge, longe de ser encerrado.

Eu estou escrevendo para as pessoas negras. Da mesma forma que Tolstoy não estava escrevendo para mim, uma menina de cor (coloured girl) de 14 anos de Lorain, Ohio. Eu não preciso me desculpar ou me considerar limitada porque eu não escrevo sobre pessoas brancas – o que não é absolutamente verdade, existem muitas pessoas brancas em meus livros. O ponto é não ter o crítico branco sentado em seu ombro para aprová-lo.“, declarou ao The Guardian, em 2015.

Toni Morrison e Angela Davis
Morrison e Angela Davis em 28 de março de 1974 | Foto: Jill Krementz (reprodução)

Na escrita de Toni Morrison a mulher negra americana, que tanto na sociedade quanto nas páginas da história e da literatura foi silenciada e brutalizada, é seu sujeito em evidência. Portanto, sua obra não só investiga as relações de poder, exploração e discriminação entre brancos e afro-americanos, como também se expande para as problemáticas e implicações de gênero e classe na vivência da mulher negra nessa mesma sociedade desigual e racista.

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Suas personagens nos olham através de diversas faces, complexas e complementares. Elas conhecem a tragédia e a crueldade, mas também o júbilo, a gentileza e o amor. Toni Morrison não se interessa pela bondade ingênua e nem pretende iludir a leitora com ela: a arrebatadora verossimilhança de seus romances nos reafirma que a virtude e corrupção coexistem no indivíduo e na comunidade. Isso nos faz humanos, por vezes desprezíveis, por vezes amáveis.

A obra de Morrison, desde seu primeiro romance, sempre entregou um grande ônus. Seus livros são povoados tanto pela história quanto pelas pessoas que são excluídas dela. […] Morrison frequentemente realiza o impensável enquanto minoria, enquanto mulher, enquanto uma ex-membro da classe trabalhadora: Ela abre democraticamente a porta de todos os seus romances para dizer: ‘Você pode entrar e sentar-se, e você pode me dizer o que pensa, e eu estou grata que você esteja aqui, mas saiba que essa casa não foi construída para você ou por você.’ Aqui, a negritude (blackness) não é uma mercadoria; Não é inerentemente política; é a raça de pessoas que são diversas e complicadas.“, escreve a jornalista e ensaísta Rachel Kaadzi Ghansah ao NY Times.

Toni Morrison
Foto: Jill Krementz (reprodução)

Seu domínio e sua mestria no emprego da linguagem é outro dos principais aspectos de sua escrita. Morrison faz uso da cadência e a rebeldia da oralidade; por vezes, apresenta a violência atroz em outros termos, usando palavras inimagináveis para tratar do bárbaro. Toni não economiza na prosa poética nem na experimentação com a linearidade do tempo. Assim, cria assim um curioso jogo de cenas aflitivas, escrita delicada e emaranho da ilusão do tempo.

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Eu posso aceitar os rótulos, porque ser uma mulher negra escritora não é um lugar superficial, mas sim um lugar rico de onde se pode escrever. Ele não limita a minha imaginação; ele a expande. É ainda mais rico do que se ser um homem branco escritor, porque eu sei mais e vivenciei mais.” – Trecho de Morrison à revista The New Yorker em 2003.

O prêmio Nobel de Literatura

Prêmio Nobel de Literatura em 1993
Toni Morrison ao receber o Prêmio Nobel de Literatura do rei Carl XVI Gustaf da Suécia em Estocolmo, em 1993 | Foto: Reprodução

Toni Morrison foi a primeira escritora negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1993. Segundo a academia sueca, a autora “em seus romances, caracterizados por uma força visionária e importância poética, dá vida a um aspecto essencial da realidade Americana.

Ao receber o prêmio, Toni fez um discurso magnífico, onde destaca a importância e a essencialidade de sua principal ferramenta: a linguagem. Essa, que pode assumir um aspecto de liberdade ou possibilitar a existência e a permanência da opressão.

O discurso completo pode ser lido em Inglês e em Português.

Toni Morrison e Barack Obama
Em 2012, recebeu a “Presidential Medal of Freedom” do presidente Barack Obama | Foto: Rena Schild – Shutterstock
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Ainda que Toni tenha escrito brilhantemente sobre a realidade americana, não é surpresa que o mérito e a relevância de suas obras ultrapassem não só as fronteiras nacionais, mas também as linguísticas, e se tornem relevantes e essenciais em todo o mundo. Não porque pretendam falar de uma experiência única, mas porque exibem de forma maestral a diversidade de sujeitos e vivências que são facetados e complexos protagonistas de inúmeras histórias.

“Nós morremos. Esse pode ser o sentido da vida. Mas fazemos linguagem. Essa pode ser a medida de nossas vidas.”

  • Toni lecionou no Departamento de Humanidades da Universidade de Princeton de 1989 a 2006.
  • No Brasil, os livros de Toni Morrison foram lançados pela Companhia das Letras.
  • Em 2019, foi lançado pela Magnolia Pictures o documentário Toni Morrison: The Pieces I Am sobre sua vida e obra.
  • Toni morreu em 2019, aos 88 anos.

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Historiadora e escrevedora de frases longas. Entusiasta de diálogos. Fala de literatura e de história até na mesa do café.
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