Desvendando Duna: a influência da obra de Frank Herbert na cultura sci-fi

Desvendando Duna: a influência da obra de Frank Herbert na cultura sci-fi

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Vez ou outra o mundo é presenteado com uma obra literária de força transformadora e capaz de redefinir padrões. Duna, escrito por Frank Herbert, é como o sopro forte nas areias noturnas em meio ao deserto de Arrakis. Essa saga, cujo início data de mais de cinquenta anos atrás e foi construída ao longo de décadas, é a fonte da qual obras épicas como Star Wars bebericou. Ou melhor, adaptou ao seu modo. Portanto, sua influência é grandiosa ao ponto de mesmo sendo escrito em 1965, consegue trazer temas ainda relevantes para a sociedade contemporânea.

Duna é uma teia dentro de seu próprio universo: você encontrará política, filosofia, sustentabilidade, biologia, criação de ecossistemas, o perigo que a humanidade representa a si mesma, além de um fio envolvendo magia, religião e tecnologia. São seis livros que abraçaram muitos aspectos de seu gênero com franqueza, elevando estes de tal forma que aqui estamos, meio século depois, debatendo suas temáticas.

Período histórico do nascimento de Duna

Curioso ressaltar que Duna nasceu após o movimento “pulp” e a ficção científica. O “pulp” eram revistas feitas com polpa de celulose no início da década de 1900. O auge do movimento ocorreu por volta de 1929, abordando os traumas que a Primeira Grande Guerra provocou. O pulp precedeu a ficção científica, e talvez, sem ele, o segundo não existisse.

As pulp fictions | Imagem: The Pulp Magazines Project

Mas em seus próprios termos, trouxe elementos interseccionais: antropólogos, físicos, biólogos, filósofos, teólogos, todos podem se alimentar do fruto que a sextologia gerou. Para uma breve noção introdutória explicando o motivo de tantos assuntos serem abordados, a história começa 20 mil anos no futuro; algo como 21.267 mil anos d.C. Nela, o homem conseguiu fazer algo que muito é abordado dentro da própria obra, após tantos milênios: colonizar outros planetas e fazer deles um novo lar. O preço disso? Sangue, guerras, intrigas e, no meio disso tudo, a Casa Atreides e dos Harkonnen.

Relevância de Duna nas décadas anteriores

Agora, a relevância dessa ópera espacial literária será catapultada novamente por uma mega adaptação cinematográfica, dirigida por Dennis Villeneuve. Mas sobre a influência de Duna no mundo audiovisual, outra adaptação foi feita em 1984 por David Lynch (Twin Peaks). Curiosidade: a produtora lançou uma versão do filme gravado por Lynch que ele odiou ao ponto de ter seu nome removido dos créditos.

Antes dela, a primeira tentativa de transferir palavras para a tela foi feita em 1975, por Alejandro Jodorowsky, diretor franco-chileno, até mesmo Orson Welles e Pink Floyd estavam envolvidos no projeto.

A adaptação de Duna feita por David Lynch em 1984.
A adaptação de Duna feita por David Lynch em 1984 | Imagem: divulgação

E por que tanto interesse? São mais de 22 milhões de cópias do livro vendidas desde a sua publicação. Um novo épico fruto dele, onde deserto, detentores de poderes mentais, um Império e um Salvador Prometido se misturam: Star Wars. Um novo Paul Atreides tentou nascer em muitas obras seguintes, mas quando algo é detalhado e rico da mesma maneira elevada que esses seis livros são, fica difícil extrair uma cópia de carbono funcional e orgânica como sua obra de origem.

Origens de Frank Herbert

Frank Herbert era um jornalista com claras influências de Freud, Jung e Heidegger. Mas Duna não nasceu com eles, nem com uma tentativa de tornar-se livro: foi criada como se obra da presciência inconsciente do autor, que na época foi enviado para escrever um artigo sobre as Dunas de Oregon. Esse artigo em específico nunca foi terminado, mas algo ainda maior nasceu, aresta por aresta, no espaço-tempo de seis anos. Frank Herbert, todavia, não era um homem de muitas economias, então durante todo o tempo onde escrevia seu livro, a esposa era quem tinha de manter as finanças da casa.

E como muitos outros autores com obras inesquecíveis, Herbert teve de encarar a rejeição vinte vezes até finalmente alguém concordar com a publicação do livro. Ele recebeu o Prêmio Nebula em 1965 e o Hugo Awards em 1966, as duas maiores premiações da ficção científica. Na época, era a segunda edição do Nebula e o Hugo já existia desde 1953. Porém, apesar desses feitos grandiosos, Duna ainda não tinha se tornado um sucesso global. Sua base de fãs teve início entre a década de 60 e 70, no círculo cult e lugares onde a ideia de transformações globais fossem bem aceitas.

Frank Herbert
Frank Herbert | Foto: reprodução
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Ainda jornalista, antes de ter um retorno financeiro rentável por Duna, ele foi enviado como consultor ecológico no Vietnã e Paquistão, nos anos de 1972 e 1973, respectivamente. Vejamos como isso se encaixa na linha temporal de seus livros: Duna (1965), O Messias de Duna (1969), Os Filhos de Duna (1976), O Imperador Deus de Duna (1981), Hereges de Duna (1983), e Herdeiras de Duna (1985). Alguns consideram os quatro livros iniciais a obra mais substancial em termos de construção, e as duas últimas, um legado para os fãs. Desde a morte de Herbert, em 1986, seu filho levou o mundo adiante com mais 13 livros.

O legado de Duna é repleto de elogios proveniente de autores consagrados. Neil Gaiman, por exemplo, chama a obra de “o melhor dos grandes romances de ficção científica e o que mais se manteve relevante.Arthur C. Clarke (2001: Uma Odisséia no Espaço) disse: “Não conheço nada que se compare a este livro, a não ser O Senhor dos Anéis.” E, de fato, muitos consideram Duna como um dos grandes pilares da literatura. Todos os outros pilares, como O Senhor dos Anéis, vieram de cicatrizes históricas ou momentos marcantes.

Influências da época na construção de Duna

Duna de Denis Villeneuve

É possível, dessa forma, falar sobre a influência da “Era de Aquário” nas páginas de Herbert. Aos que desconhecem, foi um período onde a preocupação com o meio ambiente, o potencial do ser humano, os estados alterados da consciência e os países emergentes insurgindo contra imperialistas se misturam numa única célula.

Durante as passagens da ficção científica vários desses elementos serão encontrados de maneira misturada. Existe a insurgência, questionamentos religiosos, o uso arquetípico do Messias, de especiarias alucinógenas, visões, além de profecias capazes de abalar o Império e todos seus integrantes.

Até mesmo obras como Game of Thrones fazem uso do que Herbert construiu em Duna. Porém, ao contrário do realizado na obra mais recente, o povo fremen de Arrakis não se submete, nem está ali para ser meramente salvo.

Eles tornam-se, portanto, parte do sistema, com Paul Atreides adotando suas práticas e endossando-as. Além disso, a profecia sobre aquele que os levaria ao paraíso não submete o povo às práticas da sua antiga cultura em Caladan. Portanto, Duna não é uma história de colonização, onde o herói messiânico irá salvar a todos e deixar a cultura morrer. Talvez seja por isso que tenha perdurado por tanto tempo.

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Uma releitura de Duna, nos dias atuais, trará ainda maior afinidade ecológica, com as preocupações nascidas quando o livro foi feito. É por isso que a obra de Frank Herbert permanecerá sempre como um legado – que pode ser revisto a qualquer tempo.

As origens da obra nasceram no passado, mas elas vivem no presente e ainda conseguem analisar parte de nosso futuro. Duna é, portanto, uma análise de nossos arredores. Um presságio.


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Arte em destaque e revisão por Isabelle Simões.


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Escrevo onde meu coração me leva. Apaixonada pelo poder das palavras, tentando conquistar meu espaço nesse mundo, uma frase de cada vez.
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