Sweat: filme vago sobre a vida de uma influenciadora

Sweat: filme vago sobre a vida de uma influenciadora

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O que quer que você já pense sobre influenciadores digitais, vai continuar pensando após assistir Sweat, novo filme do diretor Magnus Von Horn. É daqueles filmes que se resumem a apenas observar o cotidiano da personagem e que cada espectadora irá interpretar de seu próprio jeito.

Quem já torce o nariz para influenciadores, enxergará motivos para seu desprezo. Quem empatiza com eles, encontrará todas as evidências de suas virtudes. A crítica especializada também ficou dividida entre os que acreditam que Sweat critica o mundo vazio do digital e os que acham que o filme humaniza a personagem e seu estilo de vida.

A trama de Sweat

Sylwia (Magdalena Kolesnik) em Sweat | Imagem: divulgação

Em Sweat, conhecemos Sylwia (Magdalena Kolesnik), uma polonesa que tem 600 mil seguidores no Instagram. Ela posta conteúdo fitness, fazendo lives sobre exercícios e alimentação saudável. Porém, alguns dias atrás ela postou um vídeo chorando e dizendo aos fãs que, apesar de toda a vida cor de rosa que eles veem em seu perfil, ela se sente muito sozinha e gostaria de ter alguém especial em sua vida. O vídeo logo viralizou, mas agora alguns patrocinadores consideram que o conteúdo foi muito baixo astral e pensam em terminar a parceria de seus produtos com ela.

Durante o filme, acompanhamos 3 dias na vida de Sylwia. O longa abre com ela ministrando um energético treino aeróbico em um shopping, com várias fãs presentes. Logo em seguida, nos bastidores do treino podemos constatar que um de seus ajudantes, Klaudiusz (Julian Świeżewski), tem uma certa queda por ela.

Cena de Sweat, filme de Magnus Von Horn | Imagem: divulgação

Mais tarde, quando vai passear com seu cachorro na rua, Sylwia percebe que há um homem dentro de um carro estacionado em frente ao seu prédio, a observando. Incomodada, ela vai reclamar com ele e percebe que o homem está se masturbando. Esse homem continua lá por vários dias e Sylwia percebe que tem um stalker (perseguidor).

Sweat não fala nada de novo sobre a vida digital

Em vez de focar nos benefícios e problemas novos que as redes sociais nos trouxeram, a mensagem principal de Sweat parece ser aquela velha história de que a fama não traz felicidade nem companhia real para quem a tem. O mesmo já foi dito zilhões de vezes sobre outros tipos de celebridades, como atores, escritores, músicos e assim por diante, muito antes de a internet existir. Há até uma música de Britney Spears sobre o assunto, de tão senso comum que ele é.

Nada se fala, por exemplo, sobre o poder democratizante das redes sociais, que prescindem daquela estrutura anterior de rádios, televisões, gravadoras e editoras para que as pessoas consigam formar um grande público. Tampouco se pensa nas consequências dessa falta de infra-estrutura nessa nova indústria: qualquer problema que os influenciadores tenham, terão que aprender a resolver por si mesmos.

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Cena de Sweat | Imagem: reprodução

Influenciadores: ame ou odeie

Como Sweat tenta apresentar a rotina de Sylwia de forma neutra, alguns enxergarão Sylwia como genuína em seus posts no Instagram, outros como falsa. Alguns reconhecerão que Sylwia trabalha duro para criar o conteúdo que posta, mas outros pensarão que o trabalho não é sério, já que grande parte dele consiste apenas em filmar a rotina da própria vida.

Assim como filmes, TV e certos tipos de gêneros musicais já foram acusados de derreter o cérebro de seus consumidores no passado, os criadores de conteúdo das redes são os novos vilões da atualidade. Ou os novos artistas, dependendo de qual seja sua visão sobre o assunto.

Contudo, Sweat não se posiciona em relação a isso, julgando a personagem ou a absolvendo. A única coisa em que parece tocar é na solidão aparentemente causada pela fama digital. Mas essa questão também não é resolvida ao longo do roteiro de Magnus Von Horn.

Cena de Sweat | Imagem: reprodução

Foco muda para violência contra mulheres

Ao contrário, Sweat resolve desviar o foco para situações de ameaça sexual que a protagonista sofre de seu stalker e de seu ajudante Klaudiusz. Essa parte acaba sendo o clímax dramático do filme, embora, da forma que foi construído, não tenha relação direta com o fato da protagonista ser influenciadora. As cenas mostram algo que poderia acontecer com qualquer mulher, e, pior ainda, podem passar a impressão de empatia para com o stalker, quando Klaudiusz se mostra alguém potencialmente mais perigoso que ele.

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Klaudiusz e Sylwia | Imagem: divulgação

Como o filme se recusa a traçar um claro discurso narrativo, diversas interpretações podem ser derivadas desse clímax, inclusive a interpretação mais comum de trivializá-lo. É super comum obras de todo tipo tratarem a violência sexual como uma experiência inescapável de ser mulher. Mas devemos nos perguntar cada vez mais qual o propósito dessas cenas nas coisas que consumimos. Há sentido narrativo? Se sim, qual? O que o filme quer dizer com essas cenas? A cena poderia ser substituída por outro tipo de conflito, ou o filme está falando especificamente sobre uma questão em que a violência sexual seria imprescindível para contar a história? A obra tem tom de denúncia ou simplesmente retrata uma realidade banal das mulheres em cena?

Em Sweat, o fato é que, de todas as coisas possíveis de serem ditas sobre a vida de influenciadora digital, mais uma vez o foco é colocado em violência sexual. E ainda nem é algo próprio da vida digital em si, como perseguição online, doxxing e diversos tipos de misoginia que mulheres sofrem na internet.

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Cena de Sweat | Imagem: reprodução

Chance perdida de mostrar como a misoginia se estende à vida digital

É notável que quando se fala na futilidade e falsidade de celebridades, as pessoas estão se referindo principalmente a mulheres. Todos sabem que homens não passam pelo mesmo escrutínio que mulheres passam, e é lógico que isso se estenderá às pessoas públicas.

Se você pesquisar algo como “celebridade fútil”, a imensa maioria de imagens que aparecerão serão de mulheres. E esse julgamento já acontecia com celebridades muito antes da internet existir. É uma pena que o filme perca a chance de discutir essas questões e até mesmo confrontar o preconceito do público. Em uma matéria do The Guardian sobre o filme, por exemplo, os comentários são carregados de misoginia e preconceito contra influenciadoras.

Sweat poderia ser uma investigação sobre as novas formas de impactar a vida das mulheres trazidas pelas redes sociais, ou sobre as novidades que a vida de influenciadora tem em relação aos antigos tipos de celebridade. Entretanto, acaba sendo um filme bastante vago com a velha mensagem de que fama não traz felicidade.

Sweat está disponível no streaming do Mubi.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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