Framing Britney Spears: como a mídia misógina transformou a vida da popstar

Framing Britney Spears: como a mídia misógina transformou a vida da popstar

O documentário Framing Britney Spears, dirigido por Samantha Stark, disponível no Globoplay, foi indicado como Melhor Documentário no Emmy 2021 e, sem dúvidas, pode ser considerado um dos mais importantes do ano. A obra aborda a história da popstar extremamente conhecida e agraciada, além de retratar o malefício da mídia exploratória em sua vida.

Contudo, mesmo que não hajam muitas imagens dos processos e documentos levados ao tribunal ou respostas para a situação da cantora hoje, o documentário expõe de modo bastante claro o que houve para que Britney Spears fosse tutelada e como os fãs vêm a ajudado nesse processo.

#FreeBritney | Foto: reprodução

O inicio de um sonho

Britney Spears foi uma daquelas criança prodígio que participava de programas de talentos com o sonho de se tornar famosa. E Britney era realmente boa, tinha alcances vocais marcantes para alguém da sua idade e uma ótima performance. Como um movimento bastante comum na vida de artistas famosas, Britney foi ficando mais conhecida conforme crescia e se apresentava em shoppings para adolescentes e jovens, até que chega o sucesso estrondoso de “Oops!… I did it again” e com ele o sonho e o pesadelo alcançados num limite tão tênue.

Framing Britney Spears traz de modo cronológico como os ataques de paparazzi começaram e como afetaram a vida pessoal e a carreira da cantora. De início, parecia algo inofensivo e comum mas, principalmente depois do nascimento de seu primeiro filho em 2005, havia uma grande caça para desmerecê-la como mãe.

Fotos como as de Britney com Sean no colo ao dirigir se tornaram dinheiro fácil e alguns paparazzis não estavam atrás de algo relevante, mas sim algo que fosse polêmico e caro. Ao longo do documentário também existem excertos de vídeos de paparazzis que se mostravam minimamente preocupados com ela, imagens que são importantes para trazer de volta o teor humano de ambas as profissões: um fotógrafo que vai além da foto e uma artista que gostaria de ter seu espaço respeitado.

Leia também >> “I may destroy you” é a série do ano

Diversas cenas e entrevistas em que Britney chora por conta dessa perseguição midiática são colocadas em um contexto que revelam como ela realmente sofria com essa invasão e nada era feito a respeito. Além disso, a hipersexualização de sua imagem era igualmente maléfica, como se ela incorporasse o estereótipo de “piranha do colegial” (como um dos entrevistados pontua). Contudo, a mídia queria a todo custo detalhes de sua vida amorosa e sexual, como quando ela e Justin Timberlake terminaram em 2002.

Em 2006, a artista teve seu segundo filho e algumas semanas depois do nascimento de Jayden ela pediu divórcio. Kevin e ela brigaram pela custódia dos filhos na mesma época em que a mãe de Britney disse que a filha estava passando por uma depressão pós parto. Esse ano ficou marcado em sua história principalmente pelos encontros e festas com Paris Hilton e Lindsay Lohan, as “party girls“, e como consequência (talvez até uma punição moral, mas essa é uma leitura pessoal dos fatos) um aumento considerável de perseguições de tabloides e fotógrafos.

Lindsay, Britney e Paris, as "party girls"
Lindsay, Britney e Paris, as “party girls” | Foto: reprodução

2007, porém, é o fatídico ano em que Britney é tida como louca pela mídia – que controlava completamente as narrativas e pontos de vista, bem diferente do que pode acontecer hoje com as redes sociais. A cantora raspou o próprio cabelo movida pelo enorme desejo de não ser mais tocada pelos outros, pontuando mais uma vez a necessidade de ter o mínimo de privacidade possível, expondo também o quão tóxica e misógina nossa sociedade é quando foi taxada de “louca” por isso.

Leia também >> Uma discussão sobre rivalidade feminina no rock dos anos 2000 e responsabilidades nos dias atuais

É muito mais fácil fazer piada sobre o assunto ou questionar o que havia de errado com ela do que ir a fundo no problema. A mídia manipulava sua imagem e a sobrecarregava de expectativas e responsabilidades inalcançáveis como se ela não fosse mais um ser humano.

Britney Spears em 2007
Britney em 2007 | Foto: reprodução

Britney tentou ver os filhos no dia em que aconteceu outro episódio marcante: os golpes de guarda-chuva no carro do paparazzi. O documentário apresenta entrevistas de muitas pessoas que fizeram parte da carreira de Britney e o paparazzi em questão, Daniel Ramos, também é entrevistado e dá a entender que não tinha a intenção de prejudicá-la, mas também não compreendia o mal que a causava, não só ele mas todos os colegas de profissão.

No dia seguinte (21/02/2007), Britney se internou em uma clinica de reabilitação porque Kevin disse que tiraria o pedido de custódia total dos filhos – que havia feito caso ela se internasse. Depois de um mês na clínica e não tendo gostado nada da experiência, Britney colocou a responsabilidade em cima de seu agente e de sua mãe, demitindo assim toda sua equipe e entregando uma carta à mãe dizendo para que não a procurasse mais. Em outubro do mesmo ano a cantora lançou o álbum “Blackout“.

Foto promocional do álbum "Blackout"
Foto promocional do álbum “Blackout” | Foto: reprodução

O pedido de tutela de Britney Spears

Em janeiro de 2008, Britney passou por mais alguns problemas envolvendo a custódia dos filhos e as internações involuntárias. Após a segunda ida ao hospital, seu pai entra com um pedido de curatela temporária, um pedido geralmente feito por aqueles que cuidam de pessoas com idade muito avançada ou com diagnósticos de transtornos mentais que os impede, aos olhos do Estado, de tomar conta dos próprios bens.

A intriga ao redor da tutela de Britney já começa no momento de seu pedido: ela era jovem e produtiva e seu pai nunca esteve muito presente em sua vida antes desse momento. Um pedido desses não diz respeito a uma dificuldade qualquer em controlar finanças ou questões rotineiras, mas sim a um impedimento real de ser responsável por si. Enquanto estava internada, seu pai foi indicado para ser seu tutor e “cuidar” de sua pessoa física e das finanças junto do advogado Andrew Wallet.

Leia também >> Mare of Easttown: crime, mulheres sobrecarregadas e saúde mental

Ao procurar um advogado, o único pedido da cantora era que seu pai não fosse seu tutor. Houveram problemas quanto a sua representação no tribunal, uma vez que a escolha dos advogados também foi tirada dela. Existe também um documento que, em tese, diz sobre alguma condição mental que a impedia de tomar decisões, mas isso nunca foi mostrado ao advogado que Britney escolheu e que sofreu tal impedimento no tribunal. Em outubro de 2008 a tutela se tornou permanente.

A importância do apoio de fãs e celebridades no movimento #FreeBritney

Treze anos depois, a tutela já não faz mais sentido e precisa ser questionada. Na verdade, a tutela foi questionada desde o começo, mas muitas coisas ainda ficam entre quatro paredes como um segredo de família e é aí que mora a relevância do movimento #FreeBritney. A artista reconhece o apoio informado dos fãs e revela ser de extrema importância pra ela, mesmo que não tenha usado a hashtag nas redes sociais até a conclusão do documentário – possivelmente por conta da tutela -, usando-a somente no dia 14 de julho, Britney sabe que sua legião de fãs está de olho no processo e que qualquer coisa que tente ser escondida não vai passar despercebida por eles, como é o caso de uma postagem citada no documentário.

A conta da cantora no Instagram se tornou uma das maiores conexões com quem acompanha seu trabalho e em 2018, após um grande intervalo sem notícias de Britney, sua conta é atualizada com uma foto acompanhada de uma legenda que continha “:)” ao invés de emojis que ela costumava usar. Logo depois, veio a notícia de que ela estava internada novamente e o podcast Britney’s Gram recebeu uma mensagem anônima que dizia que a internação havia sido involuntária, tornando a denúncia pública na íntegra em um episódio que tomou conta das redes sociais e dos noticiários.

O movimento #FreeBritney identifica a falta de sentido e de justiça por trás da curatela e recebe apoio de diversas figuras públicas importantes ao redor do mundo, inclusive teve o lema refletido no Congresso Nacional em Brasília no último dia do orgulho LGBTQIA+.

Leia também >> O espaço para autoaceitação na música pop
Movimento #FreeBritney é projetado no Congresso no Dia do Orgulho LGBTQIA+
Movimento #FreeBritney é projetado no Congresso no Dia do Orgulho LGBTQIA+ | Foto: reprodução

Quando refletimos sobre a trajetória de Spears, nos deparamos com inúmeras situações em que homens tentaram, e algumas vezes conseguiram, tirar vantagem de sua fama e imagem. Justin Timberlake, Sam Lufti, Jamie Spears, Kevin Federline e tantos outros que passaram por sua vida supostamente lhe oferecendo afeto, mas que na verdade viraram as costas pra ela tão abruptamente que é difícil não sentir pena. Além do machismo que afeta suas relações, é extremamente bizarro a custódia de seu corpo e seus direitos reprodutivos, já que Britney não pode retirar seu DIU e continua sendo impedida de ser mãe.

Framing Britney Spears é um documentário importantíssimo para denunciar os abusos da mídia e da justiça norte americana. Se deparar com imagens da artista chorando, assustada com o que era obrigada a passar quando estava sendo seguida por paparazzis é dolorido e fundamental para que, mesmo sem tê-la presente nas gravações, enxerguemos o outro lado da “loucura” de Britney, um lado que reflete sua humanidade e que representava quase um grito de socorro na época, que o mundo não ouviu por estar imerso em um mar de notícias e fotos fúteis mais interessantes do que a saúde de alguém.

Leia também >> #13 Como a música pop salvou 2020

Britney Spears continua lutando por sua liberdade. Em julho, a cantora conseguiu que um advogado escolhido por ela a representasse no tribunal. Mathew S. Rosengart entrou com uma petição para retirar Jamie Spears da tutela no dia 26 e sugeriu que Jason Rubin, experiente contador do estado da Califórnia, fosse nomeado tutor de sua propriedade. A petição ainda não obteve respostas mas sabemos que a humilhação vivida pela artista é desumana.

Ainda há muito pela frente e o apoio à cantora vêm crescendo cada vez mais, na esperança pela retomada de autonomia de uma mulher de 39 anos que já sofreu muito nas mãos da imprensa, com “problemas de saúde mental não revelados” e com desejos de liberdade que não podem ser impedidos por alguém sem preparação alguma, tão ausente da vida pessoal da filha que dificilmente deseja seu bem levando-a à justiça.

FREE BRITNEY!

FreeBritney: movimento coloca pai de Britney Spears e fãs em guerra
Britney Spears em uma das postagens da sua conta oficial no Instagram | reprodução

Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

33 Textos

Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
Todos os textos
Follow Me :