[Festival do Rio] A vida da mulher e a solidão da maternidade

[Festival do Rio] A vida da mulher e a solidão da maternidade

A 27ª edição do Festival do Rio foi marcada pela presença de cerca de 10% de filmes dirigidos por mulheres — entre curtas, documentários e longas-metragens, do Brasil e de outros países. Esse número, ainda pequeno, revela como o cinema feito por mulheres permanece minoritário dentro da indústria. Ainda assim, é possível perceber a força que essas narrativas apresentam. Entre esses filmes, algumas temáticas se repetem, evidenciando as tendências e angústias que atravessam o cinema de autoria feminina.

Alpha, de Julia Ducournau

Alpha se afasta dos outros filmes da cineasta francesa, conhecida por um cinema marcado pelo horror corporal e pelo protagonismo feminino, atravessado por narrativas pouco usuais. Em seu filme mais recente, Ducournau se aproximou mais do gênero do melodrama familiar, mantendo, porém, seu estilo visual característico e empregando dispositivos visuais criativos que conectam uma história centrada na subjetividade de suas protagonistas.

Alpha é sobretudo uma metáfora sobre relações familiares em meio aos traumas que carregamos. A trama do filme utiliza a ideia de uma doença desconhecida e incurável (que no contexto do filme e nas pistas da caracterização das personagens, parece ter tido como inspiração a crise do HIV/AIDS, dos anos 1980 e 1990). Para explorar a partir da dinâmica entre mãe e filha, medos e paranoias que são deixados como cicatrizes de feridas passadas. 

O longa também trata do desgaste vivido por aqueles que assumem o papel de cuidadores dentro da própria família e na sociedade. Essas sendo em sua grande maioria assim como no filme, as mulheres. Esse desgaste desencadeia sensações de enclausuramento, claustrofobia e paranoia, que são explorados visualmente durante o filme. Além disso, auxilia na construção das personagens, como também da narrativa não-linear que o longa apresenta. 

Cena com duas pessoas em uma cama, uma mulher e uma criança abraçada a ela, em ambiente de quarto.
Alpha (2025) | Reprodução

Contudo, a maior força do filme está no elenco de protagonistas. Alpha e sua mãe são interpretadas por Mélissa Boros e Golshifteh Farahani, enquanto Amin é vivido por Tahar Rahim. A dinâmica familiar se constrói perfeitamente por meio da química entre os atores, que tornam as tensões do roteiro palpáveis. Farahani se destaca como a cola que mantém os três unidos, um papel delimitado pelo roteiro e cumprido de forma magistral pela atriz.

É por meio de sua personagem que a espectadora compreende os verdadeiros desafios propostos pela narrativa e embarca em uma intensa jornada de cura.

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Um filme inesperado de Julia Ducournau no Festival do Rio 2025

Como dito anteriormente, o filme é um melodrama. Apesar de criativo e bem executado, trata-se de uma narrativa básica, já explorada outras vezes, inclusive utilizando doenças e epidemias que realmente existem. No entanto, isso não o impede de impactar profundamente a espectadora, a partir da conexão com seus próprios medos e traumas.

Para aquelas que buscam algo mais desafiador da diretora, como Raw (2016) ou Titane (2021), o filme talvez não atenda às expectativas. Ainda assim, ele confirma que Julia Ducournau se mantém como uma cineasta divisiva, imprevisível e principalmente talentosa.

Cena de um homem e uma mulher se abraçando, destacando uma conexão emocional intensa, em ambiente interno com iluminação suave.
Alpha (2025) | Reprodução

Morra, amor, de Lynne Ramsay

Morra, amor é a adaptação do livro homônimo de Ariana Harwicz, dirigido pela cineasta escocesa Lynne Ramsay. O filme acompanha a rotina de uma família recém-formada, mas concentra sua narrativa em Grace, interpretada por Jennifer Lawrence. Em crise logo após o nascimento do primeiro filho, Grace se afunda em um espiral de situações cada vez mais caóticas, em busca de significado para a própria vida.

O longa explora, a partir dos conflitos internos de Grace, como o fechamento progressivo em si mesma coloca a personagem em atrito com o mundo e as pessoas ao seu redor. Seu principal conflito se dá com o companheiro Jackson, vivido por Robert Pattinson, figura que representa o papel tradicionalmente esperado das famílias normativas — com a divisão de trabalho entre o “ganha-pão” e a “cuidadora”.

Contudo, Grace se mostra resistente a essas limitações e, além disso, não se submete às expectativas alheias quando os outros também não atendem às suas. Isso faz com que ela se perca cada vez mais nas próprias vontades e impulsos.

Morra, amor apresenta uma forma original de explorar as dinâmicas familiares tradicionais e patriarcais, assim como os entraves que recaem sobre quem ocupa o papel maternal nessa lógica. Também aborda a depressão pós-parto do ponto de vista de quem a sofre — não como dificuldade em aceitar a maternidade, mas como desafio de lidar com o peso imposto pela sociedade sobre o papel materno.

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Ramsay desseca o imaginário de uma pessoa perdida

O elenco é um grande trunfo do filme, reunindo nomes importantes da atuação no mundo anglófono, como Sissy Spacek, Nick Nolte e Lakeith Stanfield. Jennifer Lawrence se destaca com uma presença magnética, mantendo a atenção da espectadora voltada para compreender Grace e suas ações. Pattinson cumpre seu papel como coadjuvante, orbitando o centro da narrativa, que é a performance de Lawrence.

Cena de uma mulher e um homem em uma dançando na sala de uma casa.
Morra, amor (2025) | Reprodução

A escolha de projetar o filme no formato 4:3 reforça a sensação de confinamento, como se as personagens habitassem “caixas”. A fotografia também contribui para uma estética quase onírica, intensificando a solidão vivida pela protagonista.

Morra, amor não é o filme que se espera ao ler a sinopse, mas sim uma exploração profunda da luta de uma mulher em crise com seus próprios limites e das consequências de suas escolhas.

Pequenas criaturas, de Anne Pinheiro Guimarães

O filme foi o grande vencedor da mostra Premiere Brasil do Festival do Rio 2025, ao levar o troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem. Dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, Pequenas Criaturas é o retrato de uma família que tenta se adaptar às mudanças da vida. Não apenas as geográficas, como mudar de cidade, ou as físicas presentes na passagem do tempo. Mas também, das ausências que causam reverberações nos integrantes de uma família. 

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Interpretada por Carolina Dieckmann, que também assina a produção do filme, Helena representa as muitas mães do século XX que tinham pouca agência sobre as decisões da própria vida. Ao longo da narrativa, podemos observá-la descobrindo formas de lidar com isso e, até mesmo, se rebelar contra tais limitações.

Apesar de manter um papel importante no longa, o centro da narrativa está nas personagens dos filhos de Helena, que transformam a história em um coming of age brasileiro dos anos 1980. A obra acaba reforçando esse lugar central da mulher na estrutura familiar no Brasil. Tanto Helena quanto a sua vizinha, vivida por Letícia Sabatella, vivem a prática da maternidade de maneira solo. Ambas resistem às amarras da sociedade e buscam reafirmar sua própria agência — ou, em certo sentido, instaurar um matriarcado.

Cena com dois jovens e uma mulher em ambiente ao ar livre, destacando o afeto entre eles, sob céu claro.
Pequenas Criaturas (2025) | Reprodução

A dedicatória do filme feita por Anne à sua mãe é justa e significativa, sendo também um exemplo das conquistas do cinema brasileiro. Pequenas Criaturas é, ao mesmo tempo, uma exploração do amadurecimento e seus desafios e uma homenagem às mulheres que enfrentam as dificuldades do lugar solitário da maternidade.

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Historiadora e Mestre em Cinema e Audiovisual. Pesquisando estética, identidade e como desafiar os padrões. Nerd desde do berço e apaixonada por arte, cinema e educação.
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