[QUADRINHO] “Archangel” – a estreia de William Gibson nos quadrinhos   (resenha)

[QUADRINHO] “Archangel” – a estreia de William Gibson nos quadrinhos (resenha)

É possível reverter a entropia? Essa foi a pergunta feita por dois cientistas fanfarrões no clássico conto “A Última Pergunta”, de Isaac Asimov, um clássico da ficção científica.

O fim de todas as coisas é esperado e muitas profecias apocalípticas foram feitas ao longo da nossa existência, prevendo o fim de tudo o que conhecemos. Mas será que o fim do mundo é o derradeiro fim de tudo?  E mais do que isso, é o fim para quem?


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Em sua obra de estreia nas histórias em quadrinhos, William Gibson (que por algum motivo desconhecido está passando sem ser notado pelos críticos) explora o processo de auto-destruição da humanidade e nos apresenta a um mundo devastado por uma guerra nuclear e pela ganância de homens poderosos, que não sabem o limite de sua ambição. Em 2016, eles possuem em suas mãos uma poderosa tecnologia: a máquina gigantesca chamada de “Splitter” (o Separador), uma máquina do tempo como nunca vimos antes.

Como sabemos, o tempo não é linear, não é um caminho reto onde só se pode andar para frente ou para trás, mas sim uma estrada cheia de buracos e bifurcações, cada uma levando a uma realidade diferente. A função do Splitter é criar esses buracos e copiar linhas temporais para que seus donos possam ter uma nova realidade para consumir e destruir, da forma que melhor convir. Basicamente, o sonho molhado de todos que estão no topo do mundo, certo? Uma fonte inesgotável de poder que eles podem corromper eternamente.

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A história começa com um desses homens, o vice-presidente. Em um cenário do que sobrou dos Estados Unidos depois da hecatombe que deixou o mundo em cinzas, ele passa por uma cirurgia plástica para se tornar uma cópia exata de seu bisavô, Aloysius Henderson, um alto oficial do departamento de segurança americano que serviu durante a Segunda Guerra Mundial. O plano é usar o Splitter e substituir o verdadeiro Henderson para colocar em prática o plano de tomar o controle de uma nova linha temporal. A primeira parte desse plano dá bastante certo, mas eles não contavam com um motim liderado pela Major Torres, a operadora do Splitter.


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Tomando a máquina em seu poder, Torres se certifica de que ninguém poderá impedi-la  em sua missão e coloca em movimento seus próprios peões. Não temos muitas informações sobre as intenções de Torres e suas motivações, mas fica implícito que essa incursão para outra realidade não seria a primeira. E dois pilotos, cuja missão é impedir o plano do vice-presidente, são enviados para 1945.

Quando suas naves colidem com um obstáculo invisível, eles são capturados pelos aliados americanos e uma jovem pesquisadora da inteligência britânica entra em cena.

Naomi Givens é uma cientista que pesquisa fenômenos UFO relatados durante a época da guerra, como os famosos “Foo-Fighters” e os “Scandinavian Ghosts”, luzes misteriosas que foram reportadas acompanhando aeronaves tanto do Eixo quanto dos Aliados e que até hoje geram muito pano para a manga de ufólogos e conspiracionistas.

Acreditando que a colisão tenha sido causada por algo do tipo, Naomi recebe a missão de investigar, e para isso ela precisa rever um velho desafeto, o Capitão Matthews, da Inteligência Americana, que mantém o único sobrevivente do acidente sob custódia.

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Naomi Givens, que poderia ser filha do Mulder e da Scully


A história se divide então em duas frentes: a de 1945, com o piloto tentando impedir os planos do Vice-presidente; e a de 2016, com Torres e o Splitter.

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O roteiro de William Gibson não deixa muitas informações mastigadas pelo caminho e depende muito da sagacidade do leitor para acompanhar a história, tornando releituras praticamente essenciais para se entender a complexidade da história – que é tanto ficção científica, quanto uma história de espionagem de guerra, digna de Frederick Forsyth (Caçada ao Outubro Vermelho).

Como na maioria de suas obras, em “Archangel”, Gibson também usa a ficção científica para promover debates relevantes ao momento em que vivemos, como a ganância e a corrupção de poucos que acreditam que o planeta lhes pertence.

As personagens femininas de destaque merecem atenção: tanto Torres, com seu cinismo e frieza ao sabotar a missão do Splitter; quanto Naomi Givens, que foge do padrão militar durona/donzela em perigo e possui muito potencial para ser uma protagonista forte, sendo muito capaz de cuidar de si mesma, mas não deixando de lado os laços com aqueles ao seu redor.

A arte de Butch Guide (Ruse, Aquaman, All New – All Different Marvel)  é satisfatória, mas não chama atenção em particular e nem tira o foco da história.

Por enquanto foram lançados os dois primeiros números dos cinco prometidos. “Archangel” já se destaca entre os lançamentos de 2016 e é essencial para os fãs de uma boa ficção científica, que se mantém pela história em vez de monstros e explosões.

Então nós podemos reverter a entropia? Foi a pergunta de Asimov. Depende, diria Gibson. Quanto dinheiro e escrúpulos você tem?


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Archangel #1

William Gibson e Butch Guice
Editora IDW
49 páginas

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Archangel #2
Willian Gibson e Butch Guice
Editora IDW
24 páginas

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49 Textos

Formada em Comunicação Social, mãe de um rebelde de cabelos cor de fogo e cinco gatos. Apaixonou-se por arte sequencial ainda na infância quando colocou as mãos em uma revista do Batman nos anos 90. Gosta de filmes, mas prefere os seriados. Caso encontrasse uma máquina do tempo, voltaria ao passado e ganharia a vida escrevendo histórias de terror para revistas Pulp. Holden Caulfield é o melhor dos seus amigos imaginários.
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