[LIVROS] O Beijo Traiçoeiro: o protagonismo feminino no YA de Erin Beaty (resenha)

[LIVROS] O Beijo Traiçoeiro: o protagonismo feminino no YA de Erin Beaty (resenha)

O Beijo Traiçoeiro, lançamento da editora Seguinte, é o primeiro livro da norte-americana Erin Beaty. A escritora é formada em engenharia aeroespacial e serviu à Marinha como oficial de armas e instrutora de liderança. Na primeira obra de uma trilogia, desenvolve um romance cativante. Apesar dos clichês comuns ao gênero young adult, O Beijo Traiçoeiro consegue se destacar em meio a tantos livros semelhantes. Com uma protagonista forte, proporciona uma leitura agradável para aqueles que gostam de romance.

O Beijo Traiçoeiro

Uma mulher contra os padrões

Sage Fowler está pronta para ser mandada embora da casa do tio. Aos 17 anos, órfã desde os 11, não consegue esperar pela hora em que se tornará aprendiz de algum ofício. Seguir com sua vida longe da autoridade do Lorde Broadmoor é sua principal meta. Ainda que seu tio não a maltrate, está longe de quebrar os padrões sociais da mesma forma que os pais de Sage tentaram. Seu planos, porém, se modificam quando seu tio anuncia a contratação da renomada casamenteira Darnessa.

A ideia é incluir Sage na lista de damas levadas a um evento denominado Concordium. Durante o acontecimento, as damas das principais famílias são apresentadas as nobres homens em busca de esposas. Casamentos são, então, arranjados. Se por amor ou por política, apenas os fatos dirão. O importante, como Darnessa afirma, é que este é o modo como as mulheres conseguem exercer sua influência nos jogos de poder.

Ainda que relutante, Sage, aceita auxiliar a casamenteira em suas manipulações de casais. A opção de receber para unir outros casais pode ser a esperança de um futuro em que não esteja presa a um homem. Com a perspectiva de um dia ser independente, mal sabe ela que está se entregando aos esquemas de que tentou fugir.

Durante a viagem, Sage se aproxima de um jovem oficial que se apresenta como Ash Carter. Sob o comando do intrigante capitão Alexander Quinn, esse espião tenta desmontar uma conspiração entre os inimigos de Demora. A perspicácia de Sage pode representar o sucesso para eles. Todavia, pode significar um grave risco de que, nessa rede de mentiras, não somente corações saiam machucados, mas vidas também.

O Beijo Traiçoeiro

Young Adult com protagonistas fortes

É difícil não comparar O Beijo Traiçoeiro com The Kiss of Deception, tendo em vista a semelhança nos enredos. Ambos apresentam sociedade fictícia com ar medieval, inimigos externos motivados pela escassez de alimentos, protagonista que se recusa a casar, jogo com a verdadeira identidade do par romântico, etc. Ainda assim, os livros apresentam importantes diferenças.

A história de O Beijo Traiçoeiro é bem menos sombria, mas a protagonista consegue se impor de melhor forma. Sage é inteligente e suas contribuições são essenciais para o desenvolvimento da narrativa. Ainda, apresenta ideias que não surgem aleatoriamente, mas são frutos de sua experiência. Ela compensa a insuficiência de habilidades físicas capazes de vencer os personagens masculinos com o raciocínio. Possui conhecimento de biologia e engenharia e utiliza as condições que lhe foram impostas socialmente a seu favor.

O único pecado de Sage é a comum rivalidade e menosprezo de outras personagens femininas. Se The Kiss of Deception se destacou por trazer outras personagens femininas de destaque e poder em uma união de mulheres, O Beijo Traiçoeiro falha neste ponto. Sage inicia sua história se opondo a outras mulheres. Age como se fosse melhor do que elas por não querer se casar, e não questiona se as demais realmente o querem ou são obrigadas.

Embora ela se aproxime de algumas personagens, poucas são bem desenvolvidas e todas são conectadas à ideia de casamento. A única personagem que foge do padrão de busca por um amor duradouro é a casamenteira Darnessa. Contudo, enquanto ela não busca alguém para si, busca para as demais personagens. Desse modo, permanece englobada na ideia mítica de que as mulheres, mesmo as mais relutantes, encontram um homem que as faça querer constituir uma família em algum momento.

Maternidade e infantilização da mulher

Outro ponto em comum nas duas narrativas é a conexão entre mulheres e crianças. Em ambas as histórias, os personagens masculinos são os referenciais de força para as crianças, que querem ser como eles na vida militar. A brutalidade com que essas crianças crescem é quebrada pela chegada da figura feminina “delicada”, que, com ar maternal, demonstra zelo. Perpetua-se assim, o estereótipo da mulher como mãe, quando se tenta seguir justamente pela linha de quebra dessa imposição cultural.

Não obstante, as mulheres são comumente entregues à companhia das crianças. Isto remete à ideia de que elas estejam em condição de maturidade inferior a dos homens. Cabe ressaltar que, durante muitos anos da história, as mulheres foram equiparadas aos infantes em questões de direitos.

Um romance ao estilo de Jane Austen

O livro chegou a ser comparado com os romances de Jane Austen. Em questão de romance e da caracterização da protagonista, o livro faz jus à comparação. Todavia, quando se analisam as histórias e o mérito de Austen, o contexto histórico em que se escreve é considerado. Austen rompeu com padrões de sua época. Pode-se falar o mesmo de livros semelhantes escritos atualmente?

A lógica machista permanece na sociedade, sim. O que difere é que em muito se avançou na crítica feminista. Criar uma personagem independente e diferente é tão importante quanto romper com outros clichês da literatura. Atribuir à protagonista mulher características físicas dentro dos padrões estéticos ocidentais, e menosprezar as personagens femininas secundárias são elementos a serem criticados ainda. Pode-se criar histórias que avancem além do que Austen criticou.

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Romances podem romper com lógicas machistas?

No tocante ao romance, a ideia moderna de romance é comumente atrelada a noções distorcidas e, por vezes, abusivas de amor. A sua mera existência, no entanto, não implica necessariamente em uma lógica machista. Ainda que O Beijo Traiçoeiro precise caminhar um pouco para romper com o estereótipos da lógica clichê de romance, possui alguns pontos positivos. Em raros momentos, a protagonista é colocada em situações de fragilidade para que possa ser salva por seu par romântico. Não obstante, o tratamento violento dos homens em relação às mulheres é questionado. Além disso, o final apresenta perspectiva interessante da conciliação entre profissão e casamento. E de fundo, há um plano de política, o qual talvez seja melhor explorado e discutido nos outros livros da trilogia.

Enfim, para quem gosta de bastante romance, O Beijo Traiçoeiro oferece uma história que entretém sem agredir com romantizações abusivas, o que é um destaque em uma sociedade que ainda promove uma literatura de romances abusivos. O livro consegue agradar com seus personagens cativantes, e sua fácil leitura estimula a continuidade da série.


O Beijo TraiçoeiroO Beijo Traiçoeiro

Autora: Erin Beaty

440 páginas

Editora Seguinte

A prova deste livro foi enviada pela editora para resenha

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Autora:

136 textos

Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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