[CINEMA] Oito Mulheres e Um Segredo: O filme que Hollywood demorou tanto tempo para fazer acontecer

[CINEMA] Oito Mulheres e Um Segredo: O filme que Hollywood demorou tanto tempo para fazer acontecer

O esquema de Oito Mulheres e Um Segredo (no original: Ocean’s 8) está longe de ser desconhecido. Um grupo de personagens distintos, interpretados por atrizes famosas, unidas em prol de um crime. Nada surpreendente. E nem teria como ser, sendo o quarto filme da franquia iniciada com “Onze Homens e Um Segredo”. Exceto pelo fato de que todas as pessoas no grupo são mulheres.

Apesar de dirigido por um homem (Gary Ross), tem roteiro de Olivia Milch (também diretora e roteirista de “Dude”). É protagonizado por mulheres, une críticas sociais e, não obstante, revela preconceitos ainda existentes da indústria cinematográfica.

Nos passos da família

Após cinco anos detida, Debbie Ocean (Sandra Bullock) finalmente é liberada. E como uma boa Ocean, a arte do crime está em seu sangue. Sem seu irmão, Danny Ocean (George Clooney), é a sua vez de assumir o planejamento de um grande golpe. Assim, ela une o desejo por dinheiro a uma vontade vingança contra aquele que a colocou atrás das grades. E reúne 7 mulheres para roubar o valioso colar Toussaint.

Debbie, Lou (interpretada por Cate Blanchett, uma falsária), Rose Well (interpretada por Helena Bonham Carter, uma endividada e excêntrica designer), Constance (interpretada por Awkwafina, uma golpista das ruas), Nine Ball (interpretada por Rihanna, uma hacker), Amita (interpretada por Mindy Kaling, uma avaliadora de joias) e Tammy (interpretada por Sarah Paulson, uma dona de casa envolvida com receptação de mercadorias). Sete diferentes mulheres, cada qual com suas habilidades e interesses, prontas para roubar o colar a ser utilizado pela estrela Daphne Kluger (Anne Hathaway), anfitriã do baile do MET.

É um plano grandioso e arriscado, que pode colocar Debbie de volta à prisão. A não ser pelo fato de que, dessa vez, ela é a única com um forte álibi. E isto intriga o especialista em crimes cometidos pelos Ocean, John Frazier (James Corden), que precisa de um culpado para esse crime milionário.

Protagonismo exclusivamente feminino

O filme de fato consegue cumprir com a proposta de ser protagonizado exclusivamente por mulheres. Inclusive expressa em seu roteiro o esforço em manter o foco nas mulheres. Debbie foi traída por um homem, Claude Becker (Richard Armitage), e destaca que a presença de um homem no grupo transportaria o foco para ele. E não é assim que funciona a sociedade? Quantos filmes, mesmo protagonizados por mulheres dão foco excessivo a um personagem masculino?

Outro ponto interessante de Oito Mulheres e Um Segredo está no fato de que não se perde com envolvimentos amorosos. Claude Becker se envolve tanto com Debbie quanto com Daphne, mas a relação é pouco explorada. No primeiro caso, é mostrada por flashbacks que explicam a prisão de Debbie. No segundo, trata-se apenas de envolvimento sexual motivado por outros interesses. Nenhum dos dois se perde em romantizações desnecessárias. Os homens são apenas acessórios na história.

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Falta de desenvolvimento ou estratégia?

O grande problema é que, talvez, a falta de desenvolvimento desses relacionamentos não seja apenas a uma estratégia do filme, mas a uma falta de desenvolvimento de modo geral. Isto porque o único relacionamento minimamente explorado é a amizade entre Lou e Debbie, que ainda assim não é desenvolvida a um ponto de conexão com o público.

A personagem de Cate Blanchett, embora ocupe uma posição central, é mal utilizada dentro do enredo. Perde destaque para todas as demais personagens que, com seus plots mais cômicos, cativam mais. Cate fica como plano de fundo em uma tentativa de retomar as parcerias icônicas dos filmes anteriores das franquias. É tratada como uma amiga de Debbie, preocupada com a vingança da amiga, que pode colocar em risco todo o plano, e também parte indispensável do planejamento, mas sem maior aprofundamento.

Seria complicado explorar cada uma das protagonistas certamente, e a proposta do filme é se manter numa linha mais leve. Contudo, acaba também se prendendo a alguns estereótipos e a algumas análises mais rasas, quando podia ir além. Apesar de repetir estereótipos de outras produções, Oito Mulheres e Um Segredo também tenta inserir algumas críticas sociais para além do foco majoritariamente masculino. Amita, Constance e Nine Ball trazem a diversidade étnica ao grupo – ainda que permaneçam como personagens secundárias guiadas por mulheres brancas e dentro dos padrões estéticos ocidentais. Seus personagens acabam tendendo a estereótipos, mas também conseguem desconstruí-los de certo modo.

Dos estereótipos às críticas sociais

Não obstante traga à tona diferentes personalidades em posições sociais diferentes, Oito Mulheres e Um Segredo trabalha com a relação entre mulheres. Vai da crítica à rivalidade pela idade – através da personagem de Hathaway e de Dakota Fanning – à união entre mulheres em prol de um plano maior.

Se a falta de desenvolvimento pode evidenciar uma superficialidade da abordagem, pode, por outro lado, revelar que mulheres não precisam necessariamente estabelecerem laços fortes e inquebráveis de amizade para trabalhar em conjunto. Mulheres podem conviver com outras e auxiliar outras, mesmo quando as vidas pessoais sigam caminhos diversos.

Oito mulheres se juntam para obter dinheiro. Naquele momento elas são um grupo, uma colabora com as outras, mas suas vidas seguem rumos diferentes. Cada uma nutre um interesse diferente e um sonho diferente. E assim, quando finalizam a parceria, traçam seus próprios caminhos, seja cuidando da família, abrindo um negócio ou viajando pelo planeta. Mulheres são mais fortes quando estão unidas.

A maior parte das críticas sociais, porém, não é expressa. Encontra-se em falas mais sutis, cenários – como na crítica ao império da juventude – ou em algumas tiradas mais cômicas. No entanto, não se pode negar a existência de tais críticas e também a sua importância. Oito Mulheres e Um Segredo se esforça em explorar diferentes contextos femininos e estereótipos para apresentar uma versão moderna da franquia Ocean e mais adequada às discussões contemporâneas de gênero. O próprio objeto do crime é por si um destaque – os diamantes não são os melhores amigos das mulheres? Então, que elas roubem vários para fazer sua fortuna.

Por que Hollywood demorou tanto tempo para fazer algo assim?

Diante de tudo isso, por que Hollywood ainda se recusa a fazer filmes do estilo? Em primeiro lugar, parece impossível para alguns produtores e críticos visualizarem mulheres em tela sem relacioná-las a estereótipos do gênero. Não apenas não conseguem dissocia-las de papeis românticos e sexualizados, como interpretam seus papeis como menos dignos.

Acerca do assunto, há dois pontos que merecem ser levantados. Em primeiro lugar como a história é repassada. Existe uma cultura que prega que mulheres não conseguem cativar como protagonistas, se não preencherem um estereótipo de feminilidade e não experimentarem um roteiro clichê que atenda a essa expectativa. Assim, produtores se recusam a fazer filmes como Oito Mulheres e Um Segredo, o qual apresenta mulheres extremamente diferentes, inteligentes, capazes, não sexualizadas, não limitadas por romances e que fazem o filme passar por muito no Teste de Bechdel.

Por outro lado, poderia ser diferente se a crítica não fosse também mais exigente com filmes protagonizados por mulheres. Então, o segundo ponto. A mesma cultura propagada na produção impulsiona a crítica. Na existência de um mesmo enredo, a probabilidade de um filme protagonizado por homens ser aclamado é maior do que o de mulheres, mas não porque seja, de fato, melhor.

Por que, ainda assim, vale a pena assistir?

Talvez Oito Mulheres e Um Segredo tenha muito a desenvolver, principalmente por mostrar um olhar de direção masculina, apenas do protagonismo feminino. Mas pode-se dizer que o filme é fraco? De modo algum. Será que todas as críticas consideraram que a recepção dos filmes anteriores da franquia era influenciada também por questões de gênero? Comparar o filme, protagonizado finalmente por mulheres, aos anteriores da franquia, não é suficiente.

Sim, existem problemas de enredo. Alguns pontos se desenvolvem rápido demais, fácil demais. Algumas explicações não são suficientes ou parecem forçadas. O fato, contudo, é que esses problemas não são exclusivos de Oito Mulheres e Um Segredo. O que ocorre é que são mais facilmente apontados pelas pessoas quando mulheres exercem posição de destaque.

Enfim, o filme é importante para evidenciar que mulheres podem protagonizar filmes do gênero. Oito Mulheres e Um Segredo é engraçado na medida, apresenta perspectivas interessantes dentro de uma cultura cinematográfica, entretém e agrada.

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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