[OPINIÃO] A mulher no faroeste e como a psicanálise ajuda a desvendar estereótipos

[OPINIÃO] A mulher no faroeste e como a psicanálise ajuda a desvendar estereótipos

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A britânica Laura Mulvey é uma das teóricas sobre cinema mais importantes em relação a como as mulheres são representadas na tela. Seu artigo “Prazer Visual e Cinema Narrativo” é todo um marco no meio acadêmico, especialmente em relação aos estudos feministas. E não é para menos. Mulvey juntou cinema e psicanálise para explicar porque os personagens femininos servem ao bel-prazer do olhar masculino, em primeiro e, as vezes, único lugar. A psicanálise é usada para desmascarar como a sociedade dominada por homens estrutura o cinema. Não é para menos. O cinema é uma indústria feita por homens, para homens e sobre homens.

Há uma mudança em curso porque nós mulheres finalmente reconhecemos a nossa importância como consumidoras de produtos audiovisuais e reclamamos uma participação mais ativa, mais protagonista dentro de fora das telas. O problema é que a passividade dos personagens femininos continua a assombrar os filmes, muitos anos após a denúncia sobre este aspecto feito por Mulvey, originalmente em 1975.

Mais de uma década depois, ela dialoga consigo mesma e se pergunta como a audiência feminina relaciona em relação ao herói clássico. A primeira percepção de como as mulheres se identificam com protagonistas homens é o que interessa aqui. Essas reflexões são como um ponto de partida para outras teorias sobre cinema e outras propostas e reivindicações. A teoria queer, por exemplo, corrige Mulvey, dizendo que o cinema não é apenas feito por homens, mas sim por homens heterossexuais. Os estudos gays e lésbicos expõem outras necessidades de outras audiências.

mulher no faroeste
Laura Mulvey. Imagem: Reprodução.

Mas, voltando a Mulvey e sua teoria, ela inspira-se em filmes de faroeste para rever alguns aspectos que havia proposto antes. As histórias de faroeste, geralmente, utilizam alguns pontos dos contos clássicos, como o herói invulnerável e o casamento como final feliz. O casamento é tido como um assunto tipicamente feminino. Elas é que querem encontrar o príncipe encantado e casar.

As histórias não mostram homens querendo encontrar uma princesa para casar e ser feliz. Mulheres esperam, homens alcançam. Uma diferença do faroeste é que nesse gênero alguns heróis preferem permanecer sozinhos e deixam as mocinhas de lado para continuar sua luta solitária. Alguns exemplos são os filmes do ciclo Ranown (sete filmes de faroeste protagonizados por Randolph Scott, entre 1956 e 1960).

Existem, em resumo, dois tipos de heróis no faroeste: um que obedece à lei e quer integrar-se à sociedade e outro que resiste às demandas sociais, especialmente as relacionadas à família e ao casamento, considerados assuntos tipicamente femininos. Mulvey exemplifica sua análise através de três filmes.

O primeiro deles é “O Homem que Matou o Facínora” (John Ford, 1962). A narrativa baseia-se em como a morte do bandido Liberty Valence (o facínora a que se remete o título em português) influi na vida de dois homens distintos: Ransom Stoddard (James Stewart) é um advogado que acredita na lei e Tom Doniphon (John Wayne), usa as armas para fazer justiça. Eles também são disputados pela mocinha Hallie Stoddard (Vera Miles), que, para desgosto de Doniphon, escolhe Stoddard, como o marido ideal, o bonzinho que segue as regras.

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“O Homem que Matou o Facínora” (John Ford, 1962)

O segundo filme usado por Mulvey em sua análise é “Duelo ao Sol” (King Vidor, 1962), que introduz uma mulher como tema central, algo não muito comum em filmes de faroeste. Aqui, há um novo tipo de discurso narrativo. A história não gira em torno da ação, mas, sim do drama interior de uma garota, Pearl Chavez (Jennifer Jones) entre dois irmãos que são o oposto um do outro: o advogado Jesse McCanles (Joseph Cotten) e o fora da lei Lewton “Lewt” McCanles (Gregory Peck).

Por sua interpretação, Jones concorreu ao Oscar de melhor atriz, em 1946. Ela vacila o tempo todo entre os dois e não há mais espaço para um que para o outro. No entanto, Pearl é incapaz de tornar-se uma dama para casar-se com Jesse, que logo encontra a mulher perfeita, representada por Helen Langford (Joan Tetzel). No final, Pearl e Lewt enfrentam-se em um duelo e ela e ele morrem. Pearl é, de certa forma, punida por não querer ser uma dama da sociedade como era esperado e morre ao lado do seu amante inconsequente que também nunca quis respeitar as regras sociais.

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O terceiro filme também foi dirigido por King Vidor: “A Mãe Redentora” (1937), que apesar de não ser um filme de faroeste, tem algumas estruturas narrativas semelhantes às de Duelo ao Sol. A personagem principal, Stella Dallas (Barbara Stanwyck), vive um dilema entre continuar com o marido chatinho Stephen Dallas (John Boles) ou seu amante inconsequente Ed Munn (Alan Hale). O marido de Stella pede o divórcio e ela fica com o amante, Ed.

No entanto, o filme centra-se na relação de Stella com sua filha Laurel Dallas (Anne Shirley), o que prejudica a relação da mãe com o amante. Stella e Ed gostam de se divertir, jogar, apostar e isso não é o que se espera de uma mulher. Logo, o marido abandonado por Stella, Stephen, encontra uma mulher perfeita para seguir com a vida dele, Helen Dallas (Barbara O´Neil). Apesar de sacrificar-se muito pela filha, Stella é punida por fazer escolhas erradas e, no final do filme, é menosprezada por Laurel.

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“A Mãe Redentora” (1937).

Essas mulheres desfrutam da liberdade de ação e dividem-se entre a feminilidade e a masculinidade, o que Mulvey usa para explicar como as mulheres apropriam-se de comportamentos masculinos para uma criar uma nova representação, menos passiva, mas ainda assim, limitada por questões ligadas ao domínio masculino. Essas mulheres rejeitam a posição feminina tradicional ou ficam confusas entre um comportamento e outro. Mulvey utiliza a psicanálise para explicar essa tensão entre ativa/passiva.

Mas, como funciona realmente essa identificação feminina com personagens masculinos? Homens também identificam-se com personagens femininas?

Algumas pesquisas atuais afirmam que sim, que as virtudes e a moral dos personagens estão acima do gênero e podem promover a identificação com a audiência. Outras pesquisas argumentam que essa identificação acontece quando os personagens não são sexualidados, especialmente no caso de espectadores homens que se identificam com heroínas.

Um exemplo podemos ter com as irmãs Ayra Stark (Maisie Willians) Sansa Stark (Sophie Turner) de Game of Thrones. No caso, os espectadores masculinos deveriam identificar-se mais com a violência “masculina” de Ayra que com a “astúcia” feminina de Sansa. No entanto, alguns homens também identificam-se com Sansa, o que sugere que há um novo tipo de espectador masculino mais versátil em termos de consumo audiovisual.

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Ayra Stark (Maisie Willians) e Sansa Stark (Sophie Turner).

Em todo o caso, é importante conhecer que mecanismos atuam na representação e na recepção de personagens femininos para assim propor um novo jeito de fazer cinema. Os personagens e a audiência são mais progressistas hoje que quando Mulvey escreveu seus textos. Mas também é importante ressaltar o seu papel ainda ativo no desenvolvimento das teorias cinematográficas.

Os argumentos utilizados pela pesquisadora são a base para diversas outras teorias ou análises cinematográficas que, em conjunto, oferecem uma forte sustentação acadêmica quando a indústria do audiovisual necessita adaptar-se às novas exigências femininas. Ou seja, queremos protagonismo e diversidade nos personagens femininos nas telas e temos uma boa base para provar a legitimidade desse nosso desejo.

Fontes:
  1. Mulvey, Laura (1975). Prazer visual e cinema narrativo (1975). In Xavier, Ismail. (org.). A Experiência do cinema. 2-ed. Rio de Janeiro: Graal.
  2. Mulvey, Laura (1989). Afterthoughts on ‘Visual Pleasure and Narrative Cinema’ inspired by King Vidor’s Duel in the Sun (1946). In: Visual and Other Pleasures. Language, Discourse, Society. Palgrave Macmillan, London.


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Apaixonada por tudo relacionado ao cinema e ao audiovisual. Gosta principalmente de ver mulheres fortes e felizes nas telonas e nas telinhas. Por isso, depois de trabalhar muitos anos em televisão, decidiu estudar mais sobre o assunto e fez um doutorado no tema pra ajudar na reflexão do papel da mulher no cinema, e poder dividir opiniões e pensamentos com mais apaixonadas/os como ela.
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