Toren: representatividade feminina mais diversa em uma aventura épica

Toren: representatividade feminina mais diversa em uma aventura épica

Toren é mais um jogo brasileiro que se destaca por sua arte e história belíssimas, com referência clara a jogos como Ico, Shadow of the Colossus e The Legend of Zelda, mas com sua própria personalidade. O jogo de aventura foi lançado em 2015 pela desenvolvedora brasileira Swordtales e distribuído pela norte-americana Versus Evil, em versões para PlayStation 4 e PC (incluindo uma atualização para Mac). Contando a história da Criança da Lua, uma menina presa a uma torre mágica e destinada a chegar ao seu topo, Toren merece destaque por ser o primeiro jogo financiado pela lei Rouanet de incentivo à cultura e por ter uma protagonista forte e esteticamente diferente, com traços nitidamente brasileiros, um passo importante para uma representação feminina mais diversa em jogos eletrônicos.

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Uma coisa é certa sobre Toren: a jogadora ficará maravilhada com a beleza dos cenários e intrigada com todo o simbolismo da história. O jogo começa com a Criança da Lua ainda bebê, que cresce à medida que avança em sua escalada pela torre mágica conhecida como Toren, até tornar-se uma jovem adulta. Pelo caminho ela resolve enigmas sob a forma de puzzles variados, às vezes precisa evitar armadilhas e executar mecânicas que a mantenham a salvo, e quando enfim chegar ao topo deverá enfrentar um dragão poderoso para conquistar sua liberdade e salvar a raça humana.

A Criança da Lua conta com a ajuda do Mago, um personagem que deixa a jogadora com mais perguntas do que respostas, mas mesmo com seu jeito enigmático lhe serve de guia em sua jornada, seja na escalada da torre ou em cenários oníricos. Estes cenários, aliás, são o palco onde a personagem tem visões nas quais encontra pistas e fragmentos sobre o passado, sua origem e sua missão, detalhes sobre a torre e as circunstâncias que a levaram até ali (e até sobre o que virá a seguir).

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Seja nos sonhos ou na própria torre, a beleza dos gráficos encanta. Se nem tanto pela polidez, que deixa a desejar, com certeza pela iluminação: as sombras insinuam perigos à frente e faz com que a jogadora pense bem antes de dar um passo adiante; a luz é muito delicada e bonita, lembrando raios de sol que entram por uma janela aberta ou transformando o ambiente em um momento de lembranças de tempos antigos. Isso acontece principalmente durante os sonhos, que são de um brilhantismo único ao fazer a ligação entre passado, presente e futuro com muita fluidez.

A música e a ambientação sonora também merecem destaque por dar um tom épico à aventura da Criança da Lua e proporcionar muita imersão para um jogo que não depende de um mundo grandioso, visto que tudo se desenrola apenas durante a subida pela torre e nos momentos em que prossegue durante as visões.

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E a Criança da Lua não apenas cresce literalmente, como aprende novas habilidades que tornam o jogo um pouco mais complexo e imersivo. Uma das coisas que também chama a atenção para esse processo é a muda que a protagonista planta no início do jogo e que também cresce com ela, tornando-se a Árvore da Vida. Além de muito bonita visualmente, ela também dá acesso a novas áreas e andares da torre, sendo parte essencial da jogabilidade e para o desenrolar da história. E a árvore é de uma sensibilidade ímpar: as folhas verdejantes tomando conta da torre e os ramos e galhos que crescem e florescem à medida que a jogadora avança, alcançando lugares antes intransponíveis, mostram não apenas a evolução no jogo, mas uma força construtiva que reflete o poder da heroína em sua jornada.

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E ela por si só é um alívio para quem discute a representação feminina em games. Porque ter uma protagonista em um jogo de grande repercussão como foi Toren é sempre bom, mas uma heroína com traços diferentes do padrão “branca, de cabelos lisos e corpo bem torneado” é um presente. Os detalhes do cabelo da personagem lembram o ondulado de madeixas cacheadas e seu tom de pele é de um moreno que facilmente remete ao arquétipo do brasileiro. As pinturas corporais lembram culturas tribais, o que também faz pensar quase imediatamente nos indígenas de nosso país. E a Criança da Lua também é cativante, apesar de silenciosa: ela tem força, evidenciada por ser uma guerreira e manejar uma espada, mas também tem a fofura da curiosidade infantil. Ela tropeça, cai, perde sua arma e tem que correr para recuperá-la, vira pedra caso se descuide e então precisará começar tudo de novo. Mas faz isso sem pestanejar, com uma bravura que chega a ser gritante, apesar de toda a simplicidade.

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Falando em simplicidade, os comandos e movimentos não são muito elaborados, mas o que incomoda é a jogabilidade complicada para quem está no PC – apesar do aviso no começo do jogo sobre ser recomendado utilizar controle, para quem prefere o teclado é realmente difícil ter uma experiência satisfatória. Também há muitos problemas com ângulos de câmera confusos e bugs, mas nada que diminua o mérito da desenvolvedora Swordtales: após 4 anos em desenvolvimento e com o marco de ser o primeiro jogo brasileiro a conseguir financiamento governamental, Toren é muito intuitivo e fluído, sem aqueles momentos em que a jogadora fica presa em algum ponto por não saber o que fazer ou onde ir, o que garante pelo menos 3 horas de um divertimento leve e muita contemplação.

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Toren trabalha com muitos simbolismos, como as runas que lembram uma mitologia antiga ou a própria protagonista – ao fazer referência a aspectos de culturas indígenas -, mas o que se destaca é a ideia de ciclos, seja com a Árvore da Vida ou com a Criança da Lua, personificações de novos começos, evolução e crescimento. Toren faz a jogadora ficar instigada a saber o que vem depois, quais são os segredos da torre e da história de sua heroína, e é muito legal ver como consegue mesclar tantas coisas complementares, ainda mais com uma personagem mais próxima ao que conhecemos.

Toren tem uma história envolvente, uma personagem que inspira, faz rir e emocionar com seus tropeços e suas conquistas, e de um jeito leve ainda permite que a jogadora reflita sobre encarar desafios e recomeços, que são parte essencial desta grande jornada chamada vida.

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No momento gamer casual. Em tempo (quase) integral Comunicadora, Relações Públicas e Pesquisadora. Pisciana e sonhadora, meio louca dos signos, meio louca dos gatos. Fã de tecnologia, games, e-sports e outras nerdices.
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