[CINEMA] Um Amor Inesperado: Por um sentido no casamento

[CINEMA] Um Amor Inesperado: Por um sentido no casamento

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O mais novo filme do famoso ator argentino Ricardo Darin, “Um Amor Inesperado” conta a história de Marcos (Darin) e Ana (Mercedes Morán), que, estando juntos por 25 anos, começam a questionar o sentido do casamento após a saída do filho de casa. Apesar de terem uma forte conexão e gostarem de conversar sobre temas profundos, os dois se perguntam se ainda estão apaixonados um pelo outro, e se o amor basta para mantê-los unidos. 

Decidem então se separar e experimentar como a vida nova os trata. Ambos os personagens aparecem construídos em termos bastante realistas, representando com naturalidade os valores de sua geração, e de uma classe alta e intelectualizada. Para aumentar mais ainda esse efeito, Marcos é colocado como um professor universitário. Dessa forma, suas divagações sobre a vida e o sentido da existência humana não parecem fora de contexto.

Entretanto, “Um Amor Inesperado” quebra o tom realista e entra na fantasia ao representar suas novas vidas de solteiros. Tanto Ana quanto Marcos encontram inúmeros parceiros em um curto período de tempo, aparentemente sem dificuldade alguma. Marcos, em especial, namora várias mulheres mais jovens do que ele. Embora isso possa ser um tanto comum na sociedade, o filme jamais comenta sobre o fato de forma crítica. Ainda mais se comparado aos parceiros que Ana consegue, sempre mais velhos ou da mesma idade que ela. O único rapaz mais novo com quem ela se relaciona é retratado como exótico e como um veículo para uma experimentação erótica diferente, que acontece apenas uma vez, e pela qual a própria personagem se julga.

Um Amor Inesperado
Imagem/Foto: reprodução

O efeito de naturalizar o machismo se prolonga na figura de um amigo de Marcos, que mantém uma amante mais nova escondida da esposa. Quando esta descobre o caso, o marido é expulso de casa, mas logo descobre as maravilhas de engatar um relacionamento oficial com sua amante. Nem Marcos nem o filme jamais julgam o amigo por suas atitudes, preferindo o caminho de talvez analisar o comportamento das pessoas de forma contemplativa e reflexiva. Entretanto, principalmente com a inclusão do amigo sendo recompensado pela traição da esposa, o filme pode estar reforçando as ideias machistas que já vigoram em nossa sociedade.

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É interessante notar também a diferença no tratamento dos dois protagonistas. Mercedes Morán é uma atriz fabulosa, e tem a habilidade de transmitir ao espectador exatamente o que Ana está sentindo, seja angústia, seja uma alegria contagiante. Entretanto, durante o filme Ana parece nunca saber a fonte de sua insatisfação com a vida. Ela olha para o vazio, distraída, e não temos a oportunidade de descobrir o que realmente se passa com ela. Aparentemente, nem a personagem consegue descobrir.

Já Marcos analisa o tempo todo, e em voz alta, seus questionamentos, conversa com seus amigos e namoradas, e às vezes até ouve respostas mágicas deles, que resumem tudo o que ele não conseguia perceber por si só. Desse modo, temos a impressão de estar bem mais próximos da mente de Marcos que da de Ana. Algo que não é incomum em filmes dirigidos por homens, como esse.

Na parte técnica, “Um Amor Inesperado” possui um bom ritmo, ótimo roteiro, com maneira orgânica e fluida de passar as informações sobre os novos relacionamentos dos protagonistas por meio das conversas cotidianas. Os atores são ótimos e possuem uma boa química juntos. O único porém é o final previsível e sem imaginação.

Um Amor Inesperado
Imagem/Foto: reprodução

Um Amor Inesperado” é um filme bastante competente, com uma visão mais madura do amor, e que intercala momentos alegres e divertidos com outros mais sérios e reflexivos. Retrata bem um recorte específico da geração dos protagonistas, e é possível que espectadores dessa faixa etária se sintam bem familiarizados e confortáveis com o filme. Para um público mais jovem e progressista, entretanto, a falta de novidades ou visões críticas pode ser um pouco entediante. 

“Um Amor Inesperado” estreia nesta quinta, 14 de março.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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