As Loucuras de Rose: como a ajuda entre mulheres as leva mais longe

As Loucuras de Rose: como a ajuda entre mulheres as leva mais longe

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Dirigido por Tom Harper e roteirizado por Nicole Taylor, “As Loucuras de Rose” (“Wild Rose”, no original), apesar de soar como uma comédia pelo título em português, é na verdade um drama. Bem humorado, é claro, mas que tem no drama sua principal veia narrativa.

No filme acompanhamos a história de Rose-Lynn Harlan (Jessie Buckley), uma jovem escocesa que ama música country e sonha em se tornar uma grande cantora em Nashville, a Meca desse gênero musical nos Estados Unidos. O obstáculo é que Rose tem alguns grandes problemas decorrentes de sua personalidade impulsiva e irresponsável.

Questão de classe e maternidade em “As Loucuras de Rose”

O filme começa com a saída de Rose da prisão, após cumprir um ano de pena por portar drogas. Ela precisa arranjar um novo emprego para poder sustentar os dois filhos pequenos que teve durante a adolescência, já que a dona do bar onde trabalhava com sua banda não a quer de volta. A mãe de Rose, Marion (Julie Walters), é quem segura as pontas, cuidando das crianças quando pode e pressionando a filha para ter alguma responsabilidade na vida. 

Rose-Lynn Harlan (Jessie Buckley) e Marion (Julie Walters)
Rose-Lynn Harlan (Jessie Buckley) e Marion (Julie Walters) em “As Loucuras de Rose”. Imagem: reprodução

No entanto, Rose logo encontra trabalho como faxineira na casa de uma família rica. O que ela não esperava era que, apesar de seu jeito desleixado e sem papas na língua, a patroa iria não só se afeiçoar a ela, mas se tornar uma espécie de fada madrinha, ajudando de várias formas para que sua carreira musical deslanche.

Mesmo com essa repentina sorte, o filme não faz da vida de Rose um conto de fadas sobre sucesso meteórico. Ao contrário, prefere seguir um estilo às vezes dolorosamente realista. Um dos maiores desafios, tanto para Rose quanto para a maioria das mães, é conseguir criar os filhos sem abrir mão completamente de seus sonhos. E o filme, aliás, acaba focando muito mais no lado familiar do que no musical. 

As Loucuras de Rose
Cena de “As Loucuras de Rose”. Imagem: reprodução

Mulheres que ajudam mulheres em seus sonhos

Felizmente sem nenhum subplot romântico, a trama do filme gira em torno dos conflitos de Rose com sua mãe, além das tentativas de se reaproximar dos filhos, e as constantes mentiras que vai contanto para sua patroa com medo que a verdade possa prejudicar a boa vontade de ajudá-la. 

Entretanto, faz um pouco de falta cenas onde Rose esteja mais envolvida com a banda, por exemplo, com quem ela mal troca palavras enquanto ensaiam, o que passa uma impressão de desconexão. A Rose fã de música country é muito mais palpável que a cantora profissional, já que há muito mais cenas dela cantarolando músicas que ouve em seu fone de ouvido ou falando sobre seus artistas favoritos, do que momentos em que exerça suas atividades profissionais com a música

apoio feminino
Jessie Buckley interpreta Rose em “As Loucuras de Rose”. Imagem: reprodução

Todavia, umas três cenas em que se apresenta no palco compensam em grande parte essa falta, porque são arrebatadoras e despertam uma energia incrível, com Jessie Buckley demonstrando extrema destreza tanto na atuação quanto no canto. A primeira cena, em especial, tem uma energia tão contagiante que configura um dos ápices do filme, quando finalmente podemos ver tudo de que Rose-Lynn é capaz no palco.

Ouça uma das músicas cantadas por Jessie Buckley em “As Loucuras de Rose”:

Drama emocionante sem mensagem moralista

Todas as atrizes estão excelentes, o que contribui enormemente para a imersão na história. Qualquer clichê narrativo que surge passa incólume devido à autenticidade que as performances trazem para as personagens.

Jessie Buckley (também conhecida por sua atuação impecável em “Chernobyl“) em especial, tem a oportunidade de demonstrar uma ampla gama de estados emocionais com sua personagem, fazendo uma composição bem completa de Rose. A mãe, incrivelmente interpretada por Julie Walters, que por vezes parece ser bastante severa e conformista, também tem chance de mostrar diversas nuances e o quanto se importa de verdade com a filha (preparem-se para as lágrimas!).

As Loucuras de Rose“, porém, subverte várias vezes nossas expectativas, por momentos até despertando o medo de que possa cair em uma mensagem moralista, mas sendo, afinal, uma bela história sobre apoio de mulheres, perdão familiar, e equilíbrio entre sonhos e responsabilidades. A ajuda e o apoio femininos são o que permitem Rose traçar seu caminho, seja a mãe ou as vizinhas que ficam com seus filhos, seja a patroa fada-madrinha que empresta sua influência social e financeira para as coisas darem certo. 

Wild Rose
Cena de “As Loucuras de Rose”. Imagem: reprodução
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Não se deixe levar pelo título do filme em português

Infelizmente, o título em português é bastante inadequado, pois além de ficar parecendo uma comédia (mas ser um drama), o filme não mostra as loucuras de Rose, mas sim sua redenção. As loucuras ficaram para trás e são apenas mencionadas brevemente por outros personagens, mas não aparecem nem em flashbacks. Por algum motivo resolveram vender o filme desta forma, já que o próprio trailer traz a aparência de comédia. Mas a verdade é que o drama não atua em detrimento da fruição ou entretenimento do filme, muito pelo contrário.

As Loucuras de Rose” é um filme emocionante, sensato e sensível, que evoca uma mensagem de equilíbrio – não devemos nem nos atirar irresponsavelmente nos sonhos, nem precisamos ser completamente resignadas com a vida precária que nos foi dada a princípio. Nada disso, porém, impede que as experiências da vida possam ser repletas de intensas emoções e energias.

O filme estreia dia 03 de outubro nos cinemas nacionais.


Edição realizada por Isabelle Simões.

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Autora

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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