Boys on the Side: desde 1995 mostrando como a amizade feminina pode ser forte

Boys on the Side: desde 1995 mostrando como a amizade feminina pode ser forte

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Em épocas de intenso conservadorismo e uma guinada tendenciosa a governos autoritários, é comum ouvir que a nova “geração mimimi” começou a se incomodar somente agora com machismo, racismo, misoginia, homofobia, dentre outros. Apesar dessas pautas estarem, de fato, em debate na sociedade que temos hoje – principalmente diante de um governo tão autoritário e conservador como o nosso -, não é verdade que só foram criticadas pela nova geração. Todavia, o filme “Boys on the Side” (“Somente Elas”, em português) é um exemplo disso.

Um dos últimos trabalhos do diretor Herbert Ross, o longa-metragem “Boys on the Side”, disponível atualmente no streaming Amazon Prime Video, conta a história de três mulheres fortes, completamente diferentes entre si e com dificuldades atreladas a seu gênero, que se encontram numa viagem rumo a Las Vegas, num clássico filme de 1995. Sim, 24 anos atrás.

Atenção: o texto a seguir contém spoilers do filme “Boys on the Side”

“Boys on the Side” e a força da amizade entre mulheres 

Somente Elas
Holly (Drew Barrymore) e Jane (Whoopi Goldberg). Imagem: reprodução

Jane (Whoopi Goldberg) é uma cantora falida, negra e lésbica assumida. Robin (Mary-Louise Parker) parece ser a típica mulher branca padrão: sonha com um marido rico, dois filhos e chora vendo filmes de romance, mas carrega uma trágica história familiar e é portadora do vírus HIV. Por fim, Holly (Drew Barrymore) é uma moça inocente, jovem e muito atraente, presa em um relacionamento abusivo e vítima de violência doméstica. 

É dentro desse enredo, roteirizado por um homem, que o foco do filme se modifica. “Boys on the Side” começa com Jane, que acabou de ser demitida do bar onde costumava cantar e tocar e encontra no jornal um anúncio de Robin, com a proposta de viajar até Las Vegas. A princípio, os rumos do longa nos levam a crer que o filme se passará dentro do carro e em ritmo de viagem, até a sugestão de parada em Pittsburgh, para que Jane visitasse sua amiga, Holly. 

A partir daí, o foco do filme muda de viagem para ação e drama. Ao visitar amiga, Jane e Robin se deparam com Nick (Billy Wirth), o namorado drogado, alcoólatra e agressivo de Holly. Durante um episódio de briga entre eles, após ser agredida, Holly o atinge na cabeça com um bastão de beisebol em legítima defesa e elas fogem sem saber que o golpe havia sido fatal. 

Boys on the Side
 Drew Barrymore como Holly em cena de “Boys on the Side” (Imagem: reprodução)

É só depois desse evento que Boys on the Side perde seu caráter bobinho de viagem para se tornar uma longa trajetória de amizade entre três mulheres muito diferentes uma das outras, que passam por inúmeras complicações juntas e, apesar das adversidades, acabam cada vez mais unidas – e contra tudo o que o tema pede, o filme é leve, divertido e envolvente. 

Discussões sobre relacionamento abusivo, racismo e homofobia

Durante a trama, cada uma delas se depara com episódios de machismo; Jane é vítima de racismo logo nos primeiros cinco minutos de filme, além de homofobia tanto por parte da sociedade como das próprias amigas; e Robin é constantemente questionada sobre suas atitudes independentes. Em determinada passagem, a mãe dela chega a dizer “…eu sou feminista também. Quando perdi seu pai e seu irmão, tive que me virar sozinha” e, logo depois, repercute uma série de frases machistas, homofóbicas e racistas a respeito de Jane.

Já Holly lida com as dificuldades de se ver em um relacionamento abusivo e depois se apaixona novamente por um policial chamado Abraham Lincoln. O tempo que elas passam em Tucson, no meio do caminho entre o começo da viagem e o destino final, acaba sendo o principal espaço do filme. Em vez de irem para Las Vegas, as três decidem morar em uma espécie de vila juntas, como uma família. 

Somente Elas
Jane (Whoopi Goldberg), Robin (Mary-Louise Parker) e Holly (Drew Barrymore). Imagem: reprodução

Apesar do brilho de luta social em um filme revolucionário, é preciso estar atento. Por ser um filme antigo, são muitas as passagens politicamente incorretas e ele cai em clichês conhecidos para não se mostrar um filme muito avulso aos costumes. Vale dizer que, dadas a polêmica desses assuntos à época, não é dada muita ênfase nas pautas sensíveis. A crítica à homofobia, ao machismo, ao racismo, aos relacionamentos abusivos e às relações entre as próprias mulheres estão lá, mas são tratadas com tanta sutileza que não se tornam o foco principal de “Boys on the Side“.

Uma estratégia do diretor para isso, por exemplo, é deixar que o próprio público tire suas conclusões a respeito de algumas relações durante o filme: a identidade da relação entre Jane e Robin, por exemplo, as intenções de Robin, as decisões tomadas por Holly dentre outros.  

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Boys on the Side
Cena de “Boys on the Side” (Imagem: reprodução)

Apesar de muitas proibições por falar abertamente sobre assuntos que até hoje são vistos como tabu, Hebert Ross foi muito inteligente ao dirigir um filme com tantas nuances de feminismo. É como diriam nossos professores de história: é preciso analisar o passado para melhorar o futuro e é assim que temos que fazer com filmes antigos; eles têm muito a nos oferecer, feitas as críticas necessárias.

Boys on the Side” é um filme revolucionário e um dos mais tocantes quando o assunto é sororidade e amizade feminina. Original e muito tocante para sua época, ele é base de muitos outros filmes que se decorreram do trabalho de Ross e mostra bem que a tal “geração mimimi” já vem debatendo essas pautas há muitos anos. 


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Quase jornalista, nerd, feminista, pesquisadora de minas nos quadrinhos, criadora do Phantom Ladies e do podcast Pauta Nerd, da Rádio Brasil de Fato. Não sei desenhar uma linha reta e sou movida à chá mate com limão.
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