O Farol: loucura e isolamento no novo filme de Robert Eggers

O Farol: loucura e isolamento no novo filme de Robert Eggers

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Desde que Robert Eggers nos entregou o aclamado filme “A Bruxa“, lançado em 2015, ficamos ansiosas para saber o que ele nos apresentaria em seguida. Toda a movimentação e debate que a “A Bruxa” gerou, além dos elementos utilizados e a forma como retratou o horror, contribuiu para que prestássemos atenção nos próximos passos do diretor. Com a notícia de que Eggers estaria dirigindo um novo filme, chamado “O Farol“, protagonizado por Willem Dafoe e Robert Pattinson, as expectativas se mantiveram altas. E Eggers entrega um filme tão bom quanto seu primeiro, mesmo que ambos sejam bastante diferentes entre si. 

Estivemos presentes, na terça-feira, dia 29 de outubro, durante a cabine de exibição do filme proporcionada pela Vitrine Filmes, e pudemos conferir o novo trabalho de Eggers. Além disso, fomos convidadas para a coletiva de imprensa que aconteceu no mesmo dia. Abaixo você confere, sem spoilers, nossas impressões do filme, além de comentarmos um pouco sobre o que rolou na coletiva.

O enredo de “O Farol”

Em “O Farol“, acompanhamos dois faroleiros entrando para sua escala de trabalho de quatro semanas em um farol isolado, localizado em uma ilha rochosa, sem sinal de vida humana à vista. O personagem de Willem Dafoe é um faroleiro de longa data que já havia trabalhado como marinheiro anteriormente. Apaixonado pelo mar e por toda por sua extensão, enxerga o mar como um oferecimento de tranquilidade. Já o personagem de Robert Pattinson é um faroleiro novato, que tem um passado borrado e pouco fala sobre ele mesmo. Ele não parece gostar de seu novo serviço, além de ter dificuldades com seu novo companheiro de trabalho e com as novas perspectivas diante da enormidade do oceano.

Ambos os personagens começam a ter problemas desde o início. Dafoe, um homem já velho, não gosta de ser questionado sobre seu trabalho. Ele deseja manter o controle para si mesmo, fazer as coisas da forma que sabe e que está acostumado. No entanto, Pattinson, novato, adoraria conhecer a luz do Farol, descobrir o que há lá; ele não deseja só fazer o trabalho pesado de cuidar da casa, da ilha, da água e da latrina. Mas ambos vivem desde o começo em uma certa aura de hostilidade com a vivência conjunta no farol.

Willem Dafoe e Robert Pattinson em cena de "O Farol"
Willem Dafoe e Robert Pattinson em cena de “O Farol”. (Imagem: divulgação)

O isolamento como desenvolvimento do horror em “O Farol”

É a partir do isolamento desses personagens e desse único contato, um com o outro, que a narrativa de “O Farol” se desenvolve. Através da solidão ambos acabam buscando companhia no outro, percebendo coisas sobre a vida no mar e sobre a própria existência. Durante esses momentos, temos explosões de raiva, momentos de autopiedade, situações íntimas, além do descontrole e da retratação da loucura. Também é quando os personagens percebem que estão sozinhos, que não são confiáveis, e que a vida de afastamento é absurda e destrutiva, que Eggers nos entrega os melhores diálogos, ameaças e lamentações.

De forma objetiva e pouco sutil, o que é uma qualidade enorme, conhecemos a destruição de duas figuras masculinas diferentes, porém muito semelhantes, assombrados pelo passado e por suas próprias vontades.

As atuações de Willem Dafoe e Robert Pattinson estão impecáveis. Os dois atores deram uma personalidade única aos personagens, com milhares de defeitos e problemas, trazendo diversas camadas de humanidade, vícios, vontades, desejos e superstições. É difícil, inclusive, assumir um lado entre os dois, enquanto ambos descobrem como podem lidar com eles mesmos durante as quatro semanas de trabalho. Eggers mantém o ritmo e a discussão durante as quase duas horas de filme, sem perder a atenção de seus espectadores, e faz isso com somente dois personagens – e atores brilhantes. 

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A coletiva de imprensa em São Paulo

Durante a coletiva de imprensa, que contou com a presença do próprio diretor, Robert Eggers, além de Willem Dafoe e Rodrigo Teixeira, da produtora RT Features, responsável pela produção de “A Bruxa” e de “O Farol” (além de filmes como “Ad Astra”, “Me Chame Pelo Seu Nome”, o brasileiro “A Vida Invisível”, entre outros), percebemos como Eggers tem completo controle sobre aquilo que faz.

Em uma das perguntas, Teixeira contou como acabou trabalhando em ambos projetos de Eggers, que simplesmente os apresentou a ele e eram concisos e bem desenvolvidos o suficiente para que chamassem a atenção do produtor brasileiro. O produtor ainda afirmou que escolhe os filmes para produzir conforme sua vontade de assisti-los, e como isso foi um ponto importante para que ambos projetos fossem para frente.

Teixeira também comentou como Eggers consegue fazer projetos diferentes entre si, mas ainda sim interessantes. E a vontade de Rodrigo e, claro, dos outros responsáveis pelo filme, é que “O Farol” esteja na temporada de premiações, principalmente no Oscar.

coletiva de imprensa de "O Farol", com Robert Eggers, Willem Dafoe e Rodrigo Teixeira
Coletiva de imprensa com a presença de Robert Eggers, Willem Dafoe e Rodrigo Teixeira. (Foto: Fernando Ticon / reprodução)

O Farol” é um filme onde tudo funciona corretamente. O horror, muito bem trabalhado, dialoga de forma perfeita com os dois personagens, assim como retrata toda a atmosfera em preto e branco do desespero e isolamento do farol. O trabalho do som, com as ondas batendo nas rochas e as gaivotas voando, mostra que trata-se de uma obra que merece ser apreciada no cinema, se possível.

No Brasil, o filme tem previsão de estreia em janeiro de 2020. Confira o trailer:


Edição e revisão realizada por Isabelle Simões.

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Autora

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.
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