Atrás da Estante: as questões que não deveriam estar escondidas

Atrás da Estante: as questões que não deveriam estar escondidas

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Lançado em 2019 no Festival de Tribeca (Nova York, USA), o documentário Atrás da Estante (Circus of Books, no original) conta a história de Karen e Barry Mason, proprietários da livraria e sex shop Circus of Books. A obra é dirigido pela filha do casal, Rachel Mason, além de contar com algumas entrevistas de ex-funcionários – inclusive a hoje famosa Alaska Thunderfuck – e a produção de Ryan Murphy.

Atrás da Estante conta como um casal judeu, tradicionalista, se tornou dono de um estabelecimento voltado para o público gay. Nos últimos 30 anos, a Circus of books foi uma referência em filmes pornográficos, artigos sexuais e um espaço de convivência para homens não heterossexuais.

Familia Manson e os negócios não familiares

Karen e Barry Mason, proprietários da livraria e sex shop Circus of Books.
Karen e Barry Mason, proprietários da livraria e sex shop Circus of Books. (Foto: reprodução)

Por ser filmado e dirigido pela filha do casal, o documentário tem um toque intimista e, claro, familiar. Intercalados com os depoimentos sobre a trajetória do Circus of Books, temos vídeos caseiros gravados através da história da família, numa tentativa de demonstrar que, apesar dos negócios não comuns, a família era normativa: pai, mãe, dois filhos e uma filha, todos lindos e inteligentes.

Durante todo o filme, fica claro que ao se envolver com esse ramo de negócios, o casal não estava preocupado com questões sociais ou políticas. A versão oficial, para a sociedade e para os filhos, é que eles “tinham uma livraria”. Ou seja, o discurso dos Manson nos dá a impressão que eles viviam no mundo gay, mas não participavam efetivamente dele. Um exemplo disso é quando Karen deixa claro que, mesmo sendo donos de uma produtora de filmes pornôs gays, eles nunca assistiram a nenhuma das obras.

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Parece paradoxal, para dizer a verdade. Dessa forma, Karen se refugiava na sinagoga – espaço religiosos das pessoas judias – e na sua família tradicional, enquanto acompanhava de longe frequentadores e funcionários da Circus of Books morrendo na epidemia de HIV/AIDS ou sofrendo outros tipos de violência, como serem expulsos de suas famílias. Por isso, podemos dizer que foi um balde de água fria para eles quando um de seus filhos se assumiu como homossexual.

Rachel Mason na loja de seus pais.
Rachel Mason na loja de seus pais. Foto: Ed Carrasco (reprodução)

Nas próprias palavras de Karen: “eu não via nenhum problema em ninguém ser gay, mas eu não estava preparada para ter um filho gay”. De qualquer forma, depois que seu filho saiu do armário, o casal se envolveu numa organização que trata questões de gênero e sexualidade, a PFLAG.

Portanto, podemos refletir que a grama nas cores do arco-íris do vizinho era linda (e lucrativa!), porém seria maravilhoso que a grama do seu quintal particular continuasse verde, como deveria ser.

Atrás da Estante: o privilégio de contar a história de fora

É sempre bom falar sobre o contexto que envolve a construção de uma narrativa. Em Atrás da Estante, vemos uma mulher cisgênero branca, declaradamente heterossexual, dirigindo um documentário sobre seus pais que, por um acaso, trabalhavam com homens gays.

É óbvio que a história da família se mistura com a história e a luta da comunidade LGBTI+, porém fica nítido o distanciamento – mesmo que inconsciente – dessas questões ao não ser abordado, por exemplo, a epidemia de HIV/AIDS de uma maneira mais clara e abrangente. Todavia, o documentário aborda como uma situação chata, que durante algum tempo fez com que a Circus of Books tivesse baixas em seus funcionários e clientes.

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Outro ponto incômodo que fica ao assistir o documentário é a forma não linear em que as histórias são contadas. Como já falamos aqui, a produção e direção tem a intenção de misturar a vida familiar e os acontecimentos sociais (mesmo que de maneira rasa), mas, no produto final, acabamos acompanhando histórias que se misturam e acabam não fazendo sentido entre si. Portanto, se torna cansativo, para quem assiste, tentar costurar todas as pontas soltas de várias histórias em 1 hora e meia de documentário.

Alaska Thunderfuck no documentário "Atrás da Estante"
Alaska Thunderfuck no documentário Atrás da Estante. (Foto: reprodução)

É importante também falarmos sobre o título. No original, pelo menos um acerto da produção, o título é Circus of Books. Já em português é “Atrás da Estante”, nos fazendo questionar: Qual é a estante? E o que está atrás dela? Dessa forma, deixa a impressão que os assuntos relacionados a comunidade LGBTI+ (os homens não heterossexuais, nesse caso) devem estar “escondidos atrás de alguma estante” ou como no senso comum, “dentro de algum armário”.

Por fim, o documentário nos deixa com um mal-estar. Com uma sensação de termos acompanhado uma parte da história das pessoas LGBTI+, mas que não necessariamente fala sobre essas pessoas. Como precursores do pink money, os Monsen escolheram se envolver até onde era conveniente, o que para as pessoas da sigla, incluindo um dos filhos do casal, não é uma escolha.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

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Lésbica, feminista, produtora de conteúdo, fluente em inglês e memes brasileiros. Sua trajetória pode ser seguida de uma adolescente emo para uma hipster meio torta, sempre bebendo muito café. Ativista dos direitos humanos, é fundadora do grupo “Féministas” que envolve feminismo e religião. Nunca nega um bom papo, mas se o assunto estiver relacionado com cultura nerd, signos ou gatos trabalha na base dos slides com muita convicção.
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