A Vida Sonhada dos Anjos (1998), dirigido por Erick Zonca, acompanha a amizade entre duas jovens, Isa (Élodie Bouchez) e Marie (Natacha Régnier). Após começar um novo emprego como costureira, Isa conhece Marie e, sem ter onde ficar, é acolhida por ela.
Com o tempo, as duas passam a dividir o apartamento de uma família hospitalizada após um acidente. Marie é responsável por cuidar do local até o retorno dos donos, e acaba levando Isa para morar com ela.
Entre crises emocionais e financeiras, o filme traça um retrato melancólico da relação entre duas mulheres que enfrentam o peso da vida real. A empatia da espectadora é guiada pela fragilidade, pela esperança e pelo desamparo das protagonistas.
AVISO: O texto contém spoilers do filme!
O preço por sonhar no sistema capitalista
As primeiras aparições de Isa no filme denunciam o desamparo no qual se encontra. Vagando solitária, e buscando dinheiro ao vender cartões que ela mesma produz, a moça consegue trabalho como costureira em uma fábrica. Lá conhece Marie, que, em contrapartida, demonstra aversão à injustiça social desde seus primeiros diálogos.
Isa é demitida após falhar em seu trabalho, e alega durante a demissão que ninguém a ensinou como fazer. Já Marie desde o princípio afirma que já foi maltratada por patrões em trabalhos anteriores, e decide sair da fábrica após ver a forma como Isa foi tratada.
No entanto, Isa parece ainda estar aprendendo sobre o mercado de trabalho, e em diversos momentos mostra-se otimista com relação às oportunidades. Já Marie é apresentada à espectadora como uma jovem inconformada com as condições que lhes são impostas. Essas perspectivas a respeito das personagens serão importantes nos eventos que se desenrolam a seguir.

A amizade em meio à precariedade
Enquanto estão juntas, as duas amigas se mostram jovens cheias de vida, expectativas e sonhos. Elas saem juntas, se divertem, flertam e conversam. Mas o que funciona muito bem nos momentos de ócio é abalado diante das perspectivas para o futuro. Enquanto Marie se recusa a aceitar trabalhos que oferecem péssimas condições, Isa se preocupa com o sustento das duas. A amizade embarca lentamente em um colapso que encontrará seu auge na crise emocional de Marie.
Uma sensação constante de angústia a respeito da vida das protagonistas é propositalmente transmitida à espectadora. O filme irradia uma incerteza incômoda quanto ao amanhã de duas jovens, que não possuem emprego estável e que podem ser despejadas da moradia em que residem à qualquer momento. A tensão das personagens é a mesma da espectadora. Em um retrato realista da condição de muitas pessoas na sociedade capitalista, A Vida Sonhada dos Anjos proporciona uma atividade de empatia mais do que necessária na atualidade.
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A feminilidade recusada e o sexismo cotidiano
Isa e Marie não performam a feminilidade tradicional esperada delas.
Em diversos diálogos durante o filme a ausência de uma performance de feminilidade por parte das jovens é ressaltada. As expectativas sexistas interferem na busca por um emprego.
Em uma ocasião, Isa convence Marie a acompanhá-la em uma ‘’entrevista’’ para trabalhar em um estabelecimento temático. Lá, as outras meninas se preparam para realizarem imitações de grandes divas famosas, enquanto Isa e Marie caracterizam uma disparidade visível para com as demais garotas. Não apenas a inexperiência dificulta o ingresso das duas no mercado de trabalho, mas também o fato de serem mulheres (e mais ainda, mulheres que não performam feminilidade).

O amor como gatilho, não como causa
Não apenas no mercado de trabalho, mas também nas relações pessoais, o sexismo sofrido é visível. O rapaz por quem Marie se apaixona a trata como uma mera aventura. Desde o momento em que passa a se envolver com ele, a jovem é constantemente chamada de ‘’uma qualquer’’. Ela é rebelde e inteligente, portanto deve ser conquistada e então descartada, para que possa ser substituída por uma mulher recatada e que se encaixe nos padrões de feminilidade.
Entretanto, o amor não correspondido não é o motivo que leva Marie a sucumbir ao sofrimento, mas sim um gatilho. Desde o começo do filme ela se mostra deprimida. As oportunidades que aparecem são apenas de trabalho alienado. Marie sabe que o mundo aguarda para tragar sua personalidade, e que as perspectivas de futuro na sociedade exigem o sacrifício da individualidade. Ela já sofre com o mundo real, e a tristeza advinda do âmbito sentimental sobrevêm como um complemento para a dor.
O sacrifício que Marie recusa é o mesmo que Isa aceita. Durante a sua jornada, ela vê o que acontece com sua amiga, que se nega a viver o mundo de tristeza e desilusão. Ela teme, e por fim cede à realidade social em que está inserida.

O trabalho e a perda da individualidade
O filme termina com Isa trabalhando em uma rotina de trabalho alienado. Ela está séria, consegue fazer o trabalho repetitivo e possivelmente o fará pelo resto da vida. Não se vê mais seu sorriso divertido e sim um semblante sóbrio.
Em seguida, aparecem diversos rostos de diferentes mulheres trabalhando. Em sua labuta, elas são iguais. Isa é todas elas e todas elas são a mesma pessoa — proletárias que, por exigência do capitalismo, abdicam de suas individualidades, personalidades e sonhos, para servirem à rotina exaustiva que lhes permite apenas sobreviver.
A vida sonhada dos anjos (e das mulheres comuns)
A partir do momento em que Marie mostra-se cada vez mais deprimida, Isa percebe que aquela relação não é saudável, e tenta convencer a amiga a evitar contato com o rapaz por quem está apaixonada. A forma como é tratada dentro dessa relação é desgastante, e piora de forma significativa a relação entre as duas amigas. À medida que Isa insiste que Chriss (Grégoire Colin) não valoriza Marie e que ela deve parar de se envolver com ele, brigas e desavenças começam a surgir.
Isa acredita que Marie abre mão de sua dignidade para agarrar-se à esperança de um amor correspondido. Marie acredita que Isa abre mão de sua dignidade ao aceitar empregos que oferecem péssimas condições de trabalho. No desespero por algum amparo para a vida, ambas cedem à relações abusivas que as objetificam, mas de formas diferentes. Essas relações culminarão no final de Isa como operária e no suicídio de Marie.

A amizade, o coma e o despertar simbólico
Isa consegue um lugar para dormir e viver através de Marie. Todo o tempo que sobrevivem juntas é por conta da sororidade que culmina em amizade profunda. Elas cuidam uma da outra, se protegem, e o trágico fim de Marie acontece quando Isa não consegue mais ajudá-la.
Enquanto reside no apartamento, Isa encontra o diário de Sandrine, menina que morava na residência e que está em coma por conta do acidente. Ela passa a visitar a criança hospitalizada e ler para ela. Marie mostra-se hostil a essa atitude, mas é justamente o vínculo entre as duas que possibilita a recuperação de Sandrine.
Por conta da morte da mãe de Sandrine após o acidente, Marie e Isa precisam sair do apartamento, o que potencializa os dilemas na vida das duas. Com a amizade abalada e sem saberem para onde ir, a história das duas encara seu trágico encerramento.
Enquanto lê para Sandrine, Isa lhe proporciona sonhos advindos dos relatos de sua própria vida. Em paralelo, ela e Marie vivem como se estivessem também em coma, sonhando com a vida livre que nunca poderão viver.
A Vida Sonhada dos Anjos conta com Yann Tiersen na trilha sonora. Uma das músicas que tocam no filme:
Edição e revisão por Isabelle Simões.




