Alba: a adolescência como um encontro de si mesma

Alba: a adolescência como um encontro de si mesma

Alba, o longa-metragem de estreia da diretora equatoriana Ana Cristina Barragán é uma pequena grande pérola (literalmente). O despertar da adolescência, assim como a captura de uma pérola, é aquele momento da vida em que o ser humano sai de sua concha de proteção natural e parte para conhecer, desvendar e enfrentar o mundo.

Obcecada pelo tema, tendo em vista que seus 3 curtas-metragens anteriores tangenciam o mesmo assunto, Barragán exorciza memórias de sua vida pessoal e numa espécie de catarse quase autobiográfica trás ao mundo um roteiro que começou a ser concebido ainda na faculdade de Cinema.

Para tal intento, após 4 meses de um intenso processo seletivo com mais de 500 candidatas, vemos nascer na pele da excelente Macarena Arias, a protagonista Alba. Alba é uma menina de 11 anos que não vê o pai desde os 3 anos de idade e, após a piora da enfermidade que sua mãe está passando, se vê obrigada a ir conviver com esse ser que lhe parece estranho.

Com essa guinada inicial do roteiro, vê-se um giro copérnico na vida da protagonista que começa a se ver sozinha, numa casa deteriorada, assim como a personalidade de seu pai, interpretado por Pablo Aguirre.

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Alba (2016)

A opção pelo uso apenas de luz natural, confere às locações um jogo de luz e sombra que vai dando o tom das relações entre os personagens, além de construir seus perfis psicológicos. Numa belíssima cena que se passa em um clube recreativo, a câmera passeia pelos corpos de mulheres mais velhas em seus belos trajes de banho dentro de uma piscina, enquanto Alba tem a desventura da primeira menstruação.

O poder do silêncio como artifício narrativo aliado à força de Macarena Arias que, com uma atuação espetacular, remete ao espectador todas as emoções que está sentindo apenas com a expressão de seu olhar dão o tom deste filme que para além do desabrochar da adolescência e da difícil relação entre um pai e sua filha, fala sobre solidão. Nesse sentido, o filme de Barragán nos remete ao excelente “Todo o Resto” dirigido pela mexicana Natalia Almada, conferido recentemente no Festival do Rio, mas ainda sem data de estreia prevista no Brasil.

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Alba (2016)

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O grande trunfo, porém, deste longa-metragem de estreia está no fato de que para além dos temas já citados, Ana Cristina Barragán conjuga-os de forma eficiente e sem maniqueísmos a uma discussão de classes sociais que de forma sutil permeia todo o seu argumento, fazendo a sensação de não pertencimento e desencaixe social ganhar ainda mais força. Não é à toa que apesar de vir de um país de pouquíssimo incentivo na área do audiovisual, Alba tem recebido diversos prêmios em quase todos os Festivais por onde passa, como por exemplo o da FIPRESCI no Festival de Toulouse e Menção Especial do Júri no Festival de San Sebastian. Ana Cristina Barragán é uma daquelas diretoras promissoras que não devemos perder de vista.

O filme está disponível atualmente no streaming MUBI.
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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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