Luna: descoberta sexual na adolescência e a luta contra o machismo

Luna: descoberta sexual na adolescência e a luta contra o machismo

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A sinopse de “Luna” diz que o filme aborda o cyberbullying, ato de perseguir e humilhar pessoas pela internet. Entretanto, o filme na verdade é muito mais sobre a descoberta sexual da protagonista adolescente e a luta diária das mulheres contra o machismo.

Em “Luna“, Luana (Eduarda Fernandes) conhece uma nova colega de turma no começo do ano escolar, Emília (Ana Clara Ligeiro), e as duas logo se tornam amigas. Vivendo em um ambiente de classe mais alta, Emilia apresenta a Luana um mundo novo de festas e experimentações. Uma delas sendo um site de conferência de vídeo onde as pessoas trocam performances artísticas.

O filme é muito mais sensorial do que narrativo, se atendo mais às imagens e buscando evocar de forma lírica as experiências da personagem. A própria montagem não segue a cronologia à risca, indo e voltando no tempo e embaralhando as causas de alguns eventos, que só são mostradas mais tarde na história. 

O desenvolvimento de “Luna” e a empatia do diretor

Luna, filme de Cris Azzi
Cena de “Luna”. (Imagem: reprodução) Foto: Bruno Magalhães / Divulgação

O que mais impressiona é o filme ter sido dirigido por um homem. Apesar de abordar descobertas sexuais, “Luna” realmente mostra a perspectivas das adolescentes envolvidas. O diretor Cris Azzi, em entrevista ao Delirium Nerd, atribuiu isso ao fato de as atrizes terem tido uma participação ativa na construção da trama e nas filmagens, chegando até a opinar sobre a luz de uma cena. O processo dele foi colocar a equipe inteira a serviço do elenco, para que pudessem dar o melhor de si sempre.

E isso é visível nas atuações, que estão todas muito afiadas. Eduarda Fernandes, em especial, brilha no papel de Luana, tendo a oportunidade de demonstrar uma ampla gama de emoções com sua personagem. O diretor também buscou fazer ele mesmo a preparação com o elenco (algo raro no cinema brasileiro, que geralmente terceiriza essa função), buscando uma aproximação com as atrizes e criando uma relação de confiança, que ele considera imprescindível para o resultado final, inclusive na questão que aborda os temas sobre o feminino, que ele admite não dominar.

Luna - #eSeFosseVocê? - cartaz - filme brasileiro
Cartaz de “Luna”. (Imagem: divulgação)

Foi interessante, na entrevista, ele se assumir como machista, e dizer que está em constante desconstrução de todas as noções tóxicas sobre gênero que aprendeu em sua juventude. É sempre importante a admissão do problema como ponto inicial para a melhora. E a busca de Azzi parece genuína, tanto que transparece no filme, pela perspectiva feminina que consegue imprimir.

O fato de Azzi ter dado ouvidos às recomendações das atrizes e de sua equipe feminina certamente contribuiu para isso. É uma das provas do benefício que pode haver quando homens recuam um pouco em sua posição de poder para dar espaço a mulheres. 

A sororidade como fonte de empoderamento em “Luna”

Um dos melhores aspectos de “Luna” é mostrar, de forma indireta, como a sororidade entre as mulheres as fortalece. A mãe de Luana é caracterizada como autônoma, forte, desafiadora (já que trabalha em uma obra, função tradicionalmente masculina), e aparece sempre apoiando a filha, tanto nos momentos de felicidade quanto nos de tristeza. Isso provavelmente dá muita força para que Luana possa enfrentar os piores eventos que ocorrem em sua vida.

Há também um grupo feminista na escola, onde as adolescentes se reúnem, fazem performances e, eventualmente, apoiam Luana após um dos vídeos eróticos que fez ter sido vazado na internet. Tudo mostrado de forma esparsa ao longo do filme, mas é possível fazer a ligação entre as coisas. 

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Ana Clara Ligeiro e Eduarda Fernandes em cena de "Luna", filme de Cris Azzi
As atrizes Ana Clara Ligeiro e Eduarda Fernandes em cena de “Luna”, filme de Cris Azzi Foto: Gustavo Baxter / Divulgação

A estética como quebra-cabeça 

Cris Azzi certamente não pretende deixar as coisas mastigadinhas para o público. Em certos momentos, a narrativa de “Luna” pode ser sentida como um quebra cabeça, onde é preciso pensar um pouco para juntar as peças. É possível, inclusive, até mesmo fazer uma leitura conservadora da história, já que ela não explicita firmemente suas posições. O processo destrutivo do cyberbullying, por exemplo, é quase omitido do filme, portanto as espectadoras terão que já saber de antemão como ele funciona para terem uma noção de sua gravidade e do impacto que causa na vida de Luana. Por outro lado, essa escolha permite focar nas partes mais interessantes da vida da adolescente.

Outra coisa muito sábia foi marcar a diferença entre as experimentações sexuais de Luana com seus amigos, e o assédio de um homem mais velho. As primeiras são válidas porque são totalmente consensuais. Quando ela se cansa em uma festa, vai embora sem problemas. O homem adulto, entretanto, busca se aproveitar dela enquanto está dormindo, logo após uma cena em que ela claramente se mostrou desconfortável com as investidas dele.

É muito importante mostrar essa distinção, pois é fácil cair no discurso comum de que quem tem mais liberdade sexual “topa tudo”, inclusive abusos e coerções. 

Luna” é um filme muito bonito, sensível, bem atuado, e que demonstra como homens são capazes de realmente empatizar com mulheres quando se esforçam o bastante. Que isso sirva de exemplo para outros cineastas também fazerem sua tarefa de casa. O filme estreia nos cinemas hoje, 10 de outubro.


Edição realizada por Isabelle Simões.

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Autora

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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