Mary Cagnin | Entrevista: sci-fi, girl power e “Black Silence”

Mary Cagnin | Entrevista: sci-fi, girl power e “Black Silence”

O ano de 2017 já começou bom! E a prova disso é a entrevista da quadrinista Mary Cagnin para o Delirium Nerd, contando um pouco sobre o processo de criação de seus trabalhos e sobre seu novíssimo quadrinho, “Black Silence”.

Mary faz parte da leva atual de quadrinistas mulheres que nós estamos tendo o prazer de conhecer e ver crescer no território nacional, apresentando trabalhos não apenas encharcados de feminismo e girl power, mas também de uma diversidade – seja ela racial, corporal, sexual – que está, felizmente, começando a ganhar terreno.

Mais especificamente sobre o novo trabalho de Cagnin, “Black Silence” (confira a resenha aqui), há a descoberta da mesma do universo sci-fi, arriscando-se pela primeira vez em uma obra deste gênero. Mas o risco valeu a pena! Além da popularidade entre o público, incluindo aqueles que ajudaram a financiar a publicação da HQ através do Catarse, “Black Silence” rendeu a Mary o prêmio de “Melhor Desenhista” no 33º Troféu Angelo Agostini (2017), um dos mais tradicionais da categoria no Brasil.

Mary Cagnin, Black Silence

Confira a entrevista que realizamos com a quadrinista:

DN – Como surgiu a vontade de ser quadrinista? Fazer quadrinhos é uma questão de treino?

Mary – Desde quando era criança eu gostava de criar histórias, por isso fazer quadrinhos foi uma coisa natural pra mim, além de unir duas coisas que eu costumava fazer: escrever e desenhar. Foi por influência dos mangás que comecei a fazer quadrinhos, mas hoje eu flutuo entre muitos estilos e gêneros diferentes.

DN – Você sente que existe muito preconceito no mercado de HQ’s em relação às quadrinistas mulheres? Quais as maiores dificuldades?

Mary – Eu não costumava sentir muito essa diferença, mas confesso que passei a sentir recentemente. Acho que depende da área e do que você está fazendo, já que existem alguns padrões estabelecidos onde a mulher encontra uma resistência pra se encaixar. Mas eu não deixei nada disso me abater, muito pelo contrário, usei como combustível na minha produção. É difícil, bate um desânimo, mas não podemos desistir.

DN – Há alguma mulher quadrinista em que você se inspire?

Mary – Há muitas, na verdade. Gosto muito do trabalho da Becky Cloonan e da Fiona Staples. De nacionais, acompanho a Bianca Pinheiro, a Lu Cafaggi e muitas outras artistas incríveis no universo independente.

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DN – Você recentemente participou do 2º Encontro Lady’s Comics, em agosto de 2016. Diante dessa experiência, você acha que a quantidade de mulheres quadrinistas brasileiras está crescendo e se tornando mais visível no cenário nacional?

Mary – Com certeza! E ter participado desse evento apenas me fez ter uma dimensão real de como as coisas estão mudando. Tem sim muita mulher produzindo quadrinhos, de todos os tipos. Tem pra todos os gostos e isso é o máximo! E o melhor de tudo: com essa visibilidade aumentando, outras garotas e mulheres se sentem confiantes em começar a fazer quadrinhos também.

Black Silence, quadrinho de May Cagnin

DN – E quanto ao cenário internacional? Tem planos para exportar suas obras a outros países?

Mary – Nenhum plano ainda, mas quem sabe? Estou esperando uma proposta irrecusável! (risos)

DN – Qual o seu processo de criação para as suas histórias? Cada uma teve um método diferente?

Mary – No geral, não existe uma regra. Meu processo criativo é muito louco e variado, e a minha motivação vem de muitos lugares diferentes. Tem algumas histórias que precisam de muito tempo e dedicação pra amadurecerem e virarem alguma coisa, e têm outras que chegam como um turbilhão.

DN – Tanto “Vidas Imperfeitas” quanto o novo, “Black Silence”, apresentam personagens femininas fortes – leia-se autossuficientes – em seu elenco principal; isso é uma característica importante que você gosta de passar em suas obras?

Mary – Sim, com certeza. Eu nunca me contentei ou me senti contemplada com as protagonistas de romances no geral, porque elas me pareciam muito, digamos, vazias. Mulheres reais são multifacetadas, têm suas próprias ideias e sonhos, qualidades e defeitos, por isso eu decidi colocar nas minhas personagens tudo que eu gostaria de ter visto naquelas histórias. Ao mesmo tempo, elas acabaram se tornando também uma fonte de inspiração pra mim.

DN – “Black Silence” se distingue bastante do anterior, “Vidas Imperfeitas”. Como surgiu o desejo de se aventurar pelo gênero sci-fi? Quais foram as suas inspirações?

Mary – Eu queria fazer algo diferente do que já havia feito e decidi me desafiar na ficção científica. Eu me inspirei nos filmes e séries que gostava, como Alien, Star Wars, Prometheus, Battlestar Galáctica… Meu foco mesmo sempre foi o terror psicológico, queria passar para os leitores tudo o que eu sentia em relação ao universo, por isso o tom mais sombrio. De qualquer forma, quem lê ambos os quadrinhos percebe que apesar do gênero ser totalmente diferente, continua sendo uma história feita por mim, com foco nos personagens e no drama presente na trama.

DN – Quais equívocos você sentiu que cometeu em “Vidas Imperfeitas” que foram corrigidos na criação de “Black Silence”? Existem erros neste que pretende rever para os próximos trabalhos?

Mary – Acredito que cada criação faz parte de um processo de aprendizagem contínua, por isso não acredito em equívocos. São obras diferentes, feitas em épocas diferentes da minha vida, e a evolução é uma parte natural na produção de todo artista, e também na nossa vida pessoal. Tudo o que vivi desde aquela época também me influenciou, tanto no traço, quanto no desenvolvimento da narrativa. Estou sempre buscando me aperfeiçoar, e mesmo que erros tenham existido (e é claro que sempre existem), sei que dei o melhor de mim, e por isso posso me orgulhar das coisas que faço.

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Edição de Black Silence

DN – O que você achou da experiência de financiar a publicação do quadrinho “Black Silence” através do Catarse?

Mary – Achei uma experiência muito intensa. Ao mesmo tempo que teve pontos muito altos, também teve pontos bastante complicados, pois a campanha exige muito do artista em diversos aspectos. Eu não me arrependo de ter feito Catarse, muito pelo contrário, ele me proporcionou momentos maravilhosos e tornou a publicação do meu quadrinho possível. Mas também é preciso ter em mente que a campanha exige muito tempo e dedicação, não só durante a mesma, mas na pós-produção também.

DN – Vemos uma clara diversidade no elenco de “Black Silence”; isso, porém, é ignorado pelos personagens durante a história, parecendo que no futuro em questão isso é insignificante. Isso era seu objetivo com a obra, de apresentar um ideal de sociedade em que a etnia não é importante?

Mary – Esta e muitas outras questões implícitas na obra são, sim, intencionais. Existe muito do universo da história que eu criei pra fazer a contextualização, mas nem todas as respostas são apresentadas ao leitor, pelo menos não de forma direta. Eu deixei algumas pistas, digamos. Eu não queria oferecer uma resposta pronta, sabe? Eu queria que os leitores refletissem sobre essas questões, criassem suas próprias teorias e tirassem suas próprias conclusões.

DN – O sobrenome da protagonista do quadrinho é “Ubuntu”, relacionando-se à filosofia de alguns povos africanos de união com a comunidade e com a natureza. Trata-se de uma crítica à dessincronização dos humanos atuais quanto aos objetivos que a humanidade deve seguir, e de que forma estes devem ser alcançados? E o nome dos outros personagens, como foi a decisão?

Mary – Nada em “Black Silence’ é por acaso, tudo foi pensado cuidadosamente, de forma que fizesse sentido dentro do universo que criei. Como eu disse na resposta anterior, eu não quis entregar respostas, então esta pode, sim, ser uma interpretação. A parte mais interessante é que acabo recebendo muitas interpretações diferentes, e não existe certo ou errado. Cada um é afetado de uma forma de acordo com suas percepções, crenças, valores e sua própria história de vida.

DN – A própria Neesrin Ubuntu quase cai no estereótipo de mulher negra como fortaleza (obrigatoriamente forte). A desconstrução desse aspecto no fim foi proposital ou uma feliz coincidência? Se proposital, o que desejou passar com a personagem?

Mary – O fato da minha protagonista ser uma mulher negra não foi uma escolha arbitrária. Faz sentido que tanto ela quanto os outros personagens estejam ali, assim como faz sentido dentro de sua história de vida que ela seja uma mulher durona e fria. Acima de tudo, a minha grande preocupação na criação de personagens é que eles sejam palpáveis, que tenham seus próprios medos, angústias e sonhos. A desconstrução faz parte sim daquilo que eu acredito que é ser humano, porque estamos todos em movimento e muito suscetíveis à realidade que nos cerca. Sempre levo tudo isso em consideração, para criar personagens que as pessoas possam se identificar de alguma forma.

DN – Há a possibilidade – e previsibilidade – de uma sequência de “Black Silence”?

Mary – Eu criei o “Black Silence” para ser edição única. Pra mim, as melhores histórias são aquelas que não tem uma continuação. Claro que pode estar muito cedo pra afirmar que não haverá uma, mas eu prefiro que ela acabe assim, porque foi como a concebi.

Black Silence é um quadrinho de Mary Cagnin

DN – E quanto a outros projetos futuros? Já existe alguma ideia em mente para um novo quadrinho?

Mary – Por enquanto não tenho nenhum projeto concreto, apenas algumas ideias, mas a minha intenção é anunciar mais alguma novidade ainda esse ano, então veremos!

Sobre a autora

Mary Cagnin

Mary Cagnin (nome artístico de Mariana Cagnin) é ilustradora e quadrinista, formada em Artes Visuais pela Unesp. Lançou um quadrinho pela editora HQM, o Vidas Imperfeitas, e atualmente trabalha como ilustradora freelancer. “Black Silence” é seu mais recente trabalho, tendo inclusive ganhado o prêmio de “Melhor Desenhista” do 33º Troféu Angelo Agostini pela obra. Gosta de escrever e contar histórias. Sem isso, nada seria.

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