Hourou Musuko: a importância da representatividade trans nos animes

Hourou Musuko: a importância da representatividade trans nos animes

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Em uma sociedade de ensinamentos e ideais tão anacrônicos, em que o diferente é automaticamente relegado a sua margem, é surpreendente – e infelizmente, raro – que uma parcela tão perseguida da sociedade seja representada em um anime. O anime Hourou Musuko se presta a esse papel, apresentado a história de crianças transexuais em meio às dificuldades não apenas da pré-adolescência, mas da adequação sexual.

Ao dizer que o assunto em questão é raro, levamos em conta, é claro, a maior representação trans presente hoje em dia na mídia tanto estrangeira quanto nacional. Hourou Musuko, porém, apesar de se passar no Japão, demonstra, a despeito dessa maior representação, como ainda há uma perseguição àqueles e àquelas que desejam serem vistos como o que verdadeiramente são, apenas refletindo externamente como se sentem internamente.

Hourou Musuko

“Do que garotas e garotos são feitos?”

Ao longo do anime, nos vemos constantemente, seja pelo próprio questionamento do narrador ou não, de frente com essa questão. Afinal, o que faz uma menina ser uma menina e um menino ser um menino é apenas o fato de nascerem com as genitálias correspondentes? A história dos personagens tenta nos fazer encontrar uma resposta para essa pergunta enquanto eles próprios tentam respondê-la. Nitori, o protagonista, é um garoto que quer ser uma garota e Takatsuki é uma garota que ser um garoto e durante os 11 episódios do anime vemos como, ao mesmo tempo em que eles passam pelas mudanças naturais de seus respectivos corpos, ambos tentam descobrir onde se encaixam.

Hourou Musuko

“Você é doente!”

Além disso, a já esperada hostilidade frente a essa “inadequação” os segue ao longo do anime, fazendo-os passar por situações não apenas de bullying decorrente de intolerância, mas de auto negação. Isso em meio à busca por adequação que os personagens desejam não apenas da sociedade em si, mas de seu círculo íntimo, sendo essa intolerância presente neste, bem como o esforço por entendimento e aceitação.

Hourou Musuko

O modo como a transexualidade é retratada no anime é notável, sendo feito de uma forma ao mesmo tempo delicada e eficiente para a criação de empatia entre os personagens e o público em geral, especialmente o leigo, permitindo-nos ver os personagens como humanos e merecedores de correspondente respeito. Desta forma então, talvez seja possível para os espectadores perceberem que o fato de uma pessoa – e no caso uma criança – ser trans não é algo cabível de escolha, mas sim involuntário.

Algo tão complexo quanto a sexualidade não poderá ser definido em poucas palavras nesse post, mas podemos apresentar a prévia de que o fato de uma pessoa não se sentir em coerência com o seu sexo biológico, e com o consequente papel imposto ao gênero correspondente, é o que a faz trans. Sendo que, apesar do que é dito, o fato desta mesma pessoa agir conforme o papel de gênero do sexo (homem ou mulher) com o qual se identifica, serve como busca de aceitação dentro dos ideais retrógrados da sociedade, não significando exatamente uma concordância com essas imposições, mas uma busca por aceitação através dessa representação.

Hourou Musuko
“Eu quero ser uma garota, e usar roupas fofas e bonitas.”

Em Hourou Musuko, a história é retratada através de um traço simples, tendo inclusive vencido o prêmio Best Animated Broadcast Release em 2012, que combina com a delicadeza, em meio a seriedade, com que a narrativa é contada. E mais, os personagens nos presenteiam com representações verossímeis da confusão que se passa não apenas pela cabeça das pessoas trans, mas daqueles que convivem com elas, frente a essa nova situação.

Hourou Musuko
“Nunca mais vou me vestir como menina para as pessoas tirarem sarro de mim!”

Felizmente, no geral, a situação das crianças em Hourou Musuko é retratada sem muito traumas, e com grande entendimento – ou pelo menos tentativa – daqueles que os cercam, algo que, em oposição, não é muito comum no mundo real, especialmente no Brasil, país que mais mata pessoas trans (inclusive travestis) no mundo, segundo dados da organização não-governamental Transgender Europe.

Hourou Musuko

Diante disso, só nos resta esperar que uma maior divulgação de informações sobre esse grupo social e o aumento da empatia dos demais possa abrir os olhos da sociedade em relação à humanidade e igualdade dessas pessoas. A representação na mídia aumentou mais ainda não é o bastante, porém é através de desenhos – e representações no geral – como Hourou Musuko que o sentimento de empatia com esse grupo pode vir a aumentar. Por hora, sabemos, não é suficiente.


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