[ENTREVISTA] Lambe Buceta: Conheça o projeto que promove autoconhecimento feminino pelas ruas!

[ENTREVISTA] Lambe Buceta: Conheça o projeto que promove autoconhecimento feminino pelas ruas!

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Quando fiz uma pergunta relativa à representação da “vagina” no Lambe Buceta – um projeto feminista que mescla ilustração, fotografia e arte de rua – uma de suas idealizadoras, Kelly Christina, logo me corrigiu. “Até mesmo a nomeação da genitália feminina é distorcida de maneira heteronormativa”, ela diz. “Estamos falando da vulva – um conjunto de órgãos que incluem o clitóris, o canal vaginal, os lábios, o monte de Vênus”, Kelly explica, “e que foi reduzido à parte que tem menos terminações nervosas, portanto, menos nos serve”. “Nossa, sim, é verdade”, pensei comigo mesma, e então passei a usar a expressão “vulva” pelo resto da entrevista – e depois de refletir (mesmo que superficialmente) sobre isso, acredito que passarei a usá-la também no meu dia a dia.

Lambe Buceta
Foto: Revista Trip

Os tabus relativos ao corpo feminino são tão enraizados e difundidos no cotidiano que, muitas vezes, nem mesmo nós mulheres percebemos o quanto os reproduzimos – infelizmente, isso pode acontecer em nosso vocabulário, em nossos hábitos, em nossas escolhas e, principalmente, em nossas práticas sexuais ou em nosso relacionamento com nosso próprio corpo. “Existe uma construção sociocultural que dita como a mulher deve ser, se comportar”, diz Karen Ka, que idealizou o Lambe Buceta juntamente com Kelly, “e a proposta do projeto é fazer com que todos – independente do gênero – entendam que existem mulheres com bucetas, e que elas vão além do que essa construção sociocultural diz”.

O Lambe Buceta é um projeto de lambe-lambe que usa a vulva como tema central – através dele, Karen, Kelly e artistas convidadas (como Fernanda Guedes, Lygia Pies e Cibely Zenari) buscam confrontar a heteronormatividade com ilustrações e fotografias, a fim de pontuar a importância da buceta em outros contextos que não os sexuais. A sequência de palavras que acompanha as artes produzidas – “olha, toca, molha e goza” – faz um convite às mulheres que passam pelas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador a interagirem com a própria vulva. “É impossível nos amarmos se não nos conhecermos”, afirma Karen. “Precisamos entender quem somos de fato, do que gostamos de fato – com nossas próprias mãos, com nosso próprio olhar, com nossos próprios sentidos”.

Lambe Buceta
Foto: Maíra Barillo

“Me inspirei em imagens que encontrei em um blog onde mulheres se fotografavam e publicavam as fotografias, pois achavam que havia algo de errado com a fisiologia delas. Eram mulheres que tinham uma espécie de complexo, achavam que tinham um problema com os lábios, com o formato de suas bucetas”, relata Kelly, que estampa seus lambes com ilustrações. O Brasil é o líder mundial em cirurgias estéticas de vulva, as mulheres diminuem seus lábios ou monte de Vênus para se encaixarem em um padrão de ‘buceta bonita’ ou ‘buceta correta’ que sei lá quem determinou”, pontua a artista.

Nos lambes de Karen, são utilizadas fotografias que amigas e entusiastas do projeto tiram de suas próprias xoxotas. “Quando comecei a série de fotografias, algumas amigas minhas passaram a me mandar fotos de suas próprias bucetas”, relata Karen, que recebeu 30 fotos para a primeira série e resolveu fazer o “Buselfie”, um fanzine que compila essas imagens. “Se nós fazemos selfie do rosto, por que não fazer da buceta? Por que não entender a composição, entender como fazer uma boa fotografia do próprio corpo?”, questiona.

DN – Como o projeto começou?

KELLY – A ideia do projeto surgiu de uma personagem de um conto da Hilda Hilst, a Clódia do “Conto d’escárnio”, que era uma artista que conhecia mulheres interessantes e desenhava suas bucetas. Fiquei curiosa e motivada pela temática que Clódia trazia, e então me propus a fazer o mesmo. Quando tentei desenhar uma vulva, não consegui e fiquei angustiada – eu trabalho com desenho, tenho um repertório de imagens e referências sobre diferentes elementos e percebi que não tinha isso sobre bucetas, apesar de ter sobre pintos.

Eu sabia desenhar o pênis, já a vulva permanecia uma questão, o que me gerou uma reflexão interna – isso tinha a ver com um tabu, com um bloqueio sexual, com a minha história de vida. Quando procurei por referências na internet, vi que muitas das imagens de buceta conspiravam para a minha trava, imagens relativas à pornografia e à sexualidade heteronormativa. Conversei com a Karen, que era minha amiga na época e já tinha uma pesquisa ativista relativa à representação do corpo feminino, e perguntei se ela não queria começar o projeto comigo, pois eu não me sentia forte o suficiente para fazer isso sozinha.

DN – Por que não?

KELLY – A temática do Lambe Buceta toca em um tabu que é muito grande – durante todo o projeto, nós lidamos com diversas reações. Além de ser um tabu, era também uma questão minha e de muitas mulheres, e desenvolver um projeto com essa proposta é um exercício que exige muita coragem. Realizá-lo com outra mulher que também era sensível a essa questão e poderia acrescentar à proposta me parecia ser mais tranquilo por se tratar de união, de parceria entre mulheres.

KAREN – A temática do nosso projeto é muito sensível, socialmente falando. Quando assumimos a buceta como o tema principal do nosso trabalho, estamos tratando do corpo da mulher como um lugar político. Estamos tratando de lugares sensíveis em relação ao que é “ser mulher” – um deles é se expor na rua, estar na rua – a maioria das mulheres se sentem amedrontadas quando saem de casa. No momento em que você tem a ideia de sair colando lambe-lambes pela cidade, que a princípio já é uma atividade de exposição – e se torna ainda mais com uma temática feminista – muitas outras coisas podem contribuir para seu medo. A proposta é se fortalecer, se apoiar, a ideia de que a mulher deve fazer tudo sozinha ou com homens é uma construção social, então criamos o projeto juntas e abrimos inclusive para outras artistas, primeiro foi a série da Kelly, depois a minha e então outras mulheres foram convidadas a disponibilizar seus trabalhos.

DN – Percebi que a página do Facebook de vocês não existe mais. Ela caiu? Com que frequência vocês têm seus conteúdos da internet denunciados, ou a arte de vocês violada?

KAREN – Sim, nossa página caiu, e não sabemos se ela volta ou não. No Instagram, nossas artes raramente são denunciadas, mas no Facebook são denunciadas com muita frequência. O meu perfil em especial ficou bloqueado por 30 dias, mas eu tenho um histórico de denúncias por já ter trabalhado com ativismo relativo ao corpo e postado fotos e performances que envolviam nudez outras vezes. O lambe-lambe é uma arte efêmera por natureza, ela será rasgada ou danificada pelo vento, pela chuva. Isso acontece. No entanto, é curioso perceber que os nossos lambes são violados bem nos lugares onde está a imagem da buceta – seja nos grafismos, nas fotografias ou nas palavras. Às vezes, tiram só o meio do lambe, onde está a figura da buceta, e o resto dele permanece intacto. Isso tem muita relação com a forma que a mulher é retratada na sociedade – nós somos violadas o tempo inteiro, é com esse tipo de violência que o corpo da mulher é tratado socialmente.

Lambe Buceta
Foto: Lambe Buceta

DN – Como a representação da vulva no projeto de vocês se diferencia das representações convencionais?

KAREN E KELLY – O que você chama de uma “representação convencional”?

DN – Aquelas que são socialmente aceitas, que aparecem na mídia massiva, na publicidade, na pornografia.

KELLY – Nosso projeto não necessariamente é uma crítica a essas outras representações, mas sim uma nova proposta, ele surgiu de um lugar muito pessoal nosso. Tanto eu quanto a Karen criamos nossas séries nos perguntando onde era o nosso lugar, o que nas outras representações e manifestações de vulva no Brasil e no mundo não nos representava. Eu criei ilustrações que não estavam atreladas à sexualidade, eram ícones de buceta, ilustrações em alto contraste feitas em fotografias, a buceta estava existindo apenas por existir – isso era uma forma, se não inédita, muito pouco vista em manifestações urbanas. Existe a ideia de que a vulva é meramente sexual, quando na verdade é um conjunto de órgãos muito importante para a saúde da mulher, para sua relação com o próprio corpo. Estamos falando de um lugar que sim, serve à sexualidade, serve ao prazer, mas estamos falando também de um lugar relativo à menstruação, que está suscetível a doenças, ao desequilíbrio, a uma baixa de imunidade – as aulas de biologia sempre trataram a vulva de uma forma muito simplista, estamos em uma cultura que diz que ela é suja, fedida. É um exercício de trazer a buceta sob outro contexto, o contexto de mera existência, e se perguntar por que isso causa tanta violência, tanto constrangimento, incômodo e choque.

KAREN – Além de tudo, nós trazemos uma reflexão de um ponto de vista feminino, de mulher para mulher. Por isso que a gente faz tanta questão de dizer que somos nós as criadoras do projeto, para que outras mulheres vejam que são mulheres que estão falando sobre o tema. A construção do corpo da mulher como objeto sexual vem de um ponto de vista masculino ou masculinizado. Minha série é feita com selfies de buceta, ela propõe às mulheres a interação com a vulva – olha, toca, molha, goza se quiser. É assim que se entende que ela é bonita, e para isso não precisamos da permissão masculina.

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DN – Qual o limite entre pornografia e arte erótica?

KELLY – Já nos questionaram muito se o que nós fazíamos era pornografia. Acho que esse limite tem a ver com a intenção do artista – que ele pode controlar – e a visão do público, que tem a ver com a história de vida de cada um, com repertórios particulares – e que não pode ser controlada. Em minha opinião, o problema da pornografia não tem nem relação com o erotismo em si, mas com a forma de como ela é feita até hoje, de maneira homogênea e heteronormativa. A proposta de “pornografia feminista” poderia ser interessante, relevante, mas as produções que nós vemos ainda não confrontam esses valores heteronormativos.

KAREN – Eu concordo. Acho que depende da bagagem de cada um, é normal que relacionem órgãos sexuais ao erotismo, principalmente em relação às mulheres – isso é uma construção social. Uma crítica à pornografia é que a mulher sempre aparece em uma posição pejorativa, ela está simplesmente servindo às fantasias do homem, e a sociedade é muito construída por este viés. Já chamaram o nosso projeto de pós-pornô, um movimento em que mulheres trabalham outros olhares sobre o erotismo – não que essa seja nossa proposta, nossa preocupação não é essa. Mas podem interpretar dessa forma, pois muitas vezes o corpo desnudo tem a interpretação simples e puramente sexual, o que é algo que o projeto também busca criticar. Por que a buceta sempre tem que estar atrelada a um contexto sexual?

DN – Por que é importante falar sobre masturbação feminina?

KAREN – A maioria das mulheres não se masturba, isso é algo que demoramos muito tempo para tomar consciência. Os homens são desde sempre incentivados a se masturbar, e em relação às mulheres isso é sempre recriminado, não somos socialmente incentivadas à prática. Mas além da própria masturbação feminina, o projeto propõe a interação com a buceta, que é algo maior. É claro que a escolha e sequência das palavras remete à masturbação, mas antes disso, é sobre interação. Primeiro você olha, reconhece sua vulva como parte do seu corpo, percebe suas nuances e sua composição, depois você toca e percebe suas reações ao toque – o toque pode levar à masturbação ou não, isso vai depender da interação de cada mulher com o seu próprio corpo.

KELLY – No meu ponto de vista, o prazer da mulher só pode ser construído a partir do autoconhecimento, e esse autoconhecimento se dá através da masturbação. Estamos falando de uma região complexa, e você só consegue entender o que funciona ou não para você experimentando – e espera-se que essa experimentação seja pessoal antes de depender da relação com o outro. Existem muitas pesquisas que questionam quantas mulheres conseguem atingir o orgasmo em relações sexuais, e em nenhuma delas feita no Brasil, a porcentagem atinge 50% – ou seja, menos da metade das mulheres brasileiras que estão transando estão gozando durante o sexo! Que sexo é esse que nós estamos fazendo, e por que estamos fazendo? Mas sim, nossa proposta é anterior à masturbação, nós propomos encarar a própria buceta, é mais sobre interação, autoconhecimento.

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Estudante de Comunicação Social com ênfase em Jornalismo. Apaixonada por música, documentários, artes visuais, quadrinhos e publicações independentes. Fascinada por contracultura e gente maluca.
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