[LIVROS] Outros Jeitos de Usar a Boca: As mulheres e as relações de amor através da poesia de Rupi Kaur

[LIVROS] Outros Jeitos de Usar a Boca: As mulheres e as relações de amor através da poesia de Rupi Kaur

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Outros Jeitos de Usar a Boca é a tradução publicada pela editora Planeta do livro “Milk and Honey”, de Rupi Kaur (veja o site oficial da autora aqui). A escritora e artista indiana, que vive no Canadá desde a infância, utiliza suas obras e performances para abordar temas como feminilidade, amor, perda, traumas e curas, temas estes também presentes em Outros Jeitos de Usar a Boca.

O livro publicado de forma independente no final de 2014 possui como título original “Milk and Honey” (“Leite e Mel”), expressão que remete à abundância e à fartura, a uma terra de prosperidade, um lugar em que se aparenta ter tudo de que se necessita. Todavia, por trás da doçura que apresenta o título e com que Rupi Kaur escreve suas poesias, está a violência, o jeito distorcido com que o amor é praticado, a ilusão da prosperidade a que leva a crer a expressão. E a utilização em diversos momentos da palavra mel, referindo-se à doçura esperada do sentimento amor, é contraposta à acidez da realidade.

A tradução escolhida para o título pela editora, ainda que diferente, não deixa a desejar. Em virtude das diferenças linguísticas e culturais, é provável que não se compreendesse imediatamente ou mesmo adequadamente a referência do título. Desse modo, escolheu-se Outros Jeitos de Usar a Boca, que faz referência a um dos poemas de Rupi Kaur. A boca pode ser considerada por sua função na sexualidade e na luta. No poema de Rupi Kaur a boca começa sendo usada para falar e termina como uma apresentação de outras possibilidades da sexualidade. Assim, remete primeiro ao instrumento de expressão e, posteriormente, à proposta do amor que se discute na obra. O título pode fazer referência tanto ao não se calar, como ao usar de modo diferente a boca, quebrar com esse padrão estranho de amor.

você fala demais

ele sussurra no meu ouvido

conheço jeitos melhores de usar essa boca

O livro revela de forma sensível os pensamentos de uma mulher, que como todas enfrenta um mundo de violência, tabus e falsos amores, e busca na palavra uma forma de se curar da vida que lhe é imposta. Dividido em quatro partes, Outros Jeitos de Usar a Boca separa as poesias que o compõem em diferentes esferas do relacionamentos. A Dor, O Amor, A Ruptura e A Cura apresentam uma gradação dos relacionamentos e a descoberta do ser mulher como libertação dos padrões e comportamentos estipulados por uma cultura machista. Partindo de traumas da infância, passa pelas primeiras relações com o sexo oposto, pelo amor familiar, pelo sexo, e pela relação consigo e com o corpo feminino.

Outros Jeitos de Usar a Boca
A autora, Rupi Kaur

A Dor é o primeiro choque. Traz as primeiras experiências de uma pessoa que, ao se descobrir mulher, enfrenta uma realidade de violência. Diante da cultura do estupro, Rupi Kaur escreve poesias que mostram a dura realidade a que as mulheres são introduzidas tão logo paridas. Desde jovem, a mulher é objeto de olhares e toques indesejados de estranhos e parentes. A sexualização do corpo feminino, a objetificação da mulher. A mulher que se depara com sua faceta sexual pelos olhos do homem, como se devesse ignorar seu próprio prazer em prol do prazer do outro. Discorre sobre o início da experiência com os homens guiada e imposta pelos homens e não por uma maturidade ou vontade que seja da própria mulher.

O ser que descobre a sexualização fruto do machismo conhece, então, os primeiros conceitos de amor, um amor que nem sempre é aplicado como um nobre sentimento, mas como um padrão de comportamentos e pensamentos estipulados por uma cultura que distorce a realidade em benefício do sexo masculino. Há o primeiro contato com o amor materno, a figura em oposição à dominação do pai. Há o amor entre pai e mãe, um misto de amor e submissão. Há o amor entre pai e filha, algo que ambos não sabem conduzir. Se, por um lado, há a afeição e a exigência de carinho que se espera dessa relação, por outro, há a insensibilidade que se determina aos homens, o que culmina no estranhamento. E essas relações são a base para os futuros amores, que mesclam ilusão, carinho e realidade. A figura do amado parece representar tudo; é a ideia dos romances vendidos. Na prática, os pensamentos consomem, e talvez todo esse amor seja mais do que apenas um sentimento que brota entre duas pessoas. O Amor é uma ideia que não sabe se surge naturalmente ou se é concebida por imposição de uma educação cultural. É belo, até que se percebe que é doloroso.

A Ruptura quebra a idealização de O Amor. Este é o momento em que os conflitos se destacam. Surgem as incoerências entre a ideia de amor absorvida e o amor próprio. O amor romântico é contraposto ao respeitar-se e amar-se. Dá-se conta da ideia de amor abusivo, como se os amantes se tratassem como brinquedos e não como indivíduos. E diante de uma sociedade machista, a dominação do homem prevalece. A mulher vê-se na situação típica do romance abusivo, sem saber se é vítima ou causadora da própria desgraça, como se de alguma forma fosse a única culpada pela ausência do amor e pela solidão. E de alguma forma ela também nutre os sentimentos de posse que uma vez foram a ela aplicados. Mas ela deseja romper com esse amor que muito foge do amor.

Chega então A Cura. A cura é a redescoberta da sexualidade e da feminilidade. É uma proposta de relacionamento com o corpo e com o ego. A aceitação da mulher enquanto ser biológico e ser social. Aborda a visão dos pelos, da menstruação, do corpo de uma mulher que deseja se libertar. Aborda o alcance do aceitar-se e compreender-se como capaz de amar e ser amada.

meu coração sangra pelas irmãs em primeiro lugar

sangra por mulheres que ajudam mulheres

como as flores anseiam pela primavera

As poesias são curtas, em regra, ainda assim são poderosas. São francas e sensíveis e abordam diversas pautas do feminismo de uma forma sutil. Acompanhadas de ilustrações que refletem a simplicidade dos textos – uma simplicidade capaz de expressar a universalidade dos sentimentos -, são palavras que obrigam a leitora a refletir sua própria realidade enquanto mulher e levam-na a descobrir que existem outros jeitos de ser amada e respeitada por si, por outras mulheres e pelos homens. Certamente, Outros Jeitos de Usar a Boca é um daqueles livros que se carregam para sempre.

Outros Jeitos de Usar a Boca
Ilustração do livro

Outros Jeitos de Usar a BocaOutros Jeitos de Usar a Boca

Autora: Rupi Kaur

Editora Planeta

208 páginas

Onde comprar: Amazon

Este livro foi cedido pela editora para resenha.

 


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Autora

135 Posts

Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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