[LIVROS] NW: A autoconstrução de duas mulheres (Resenha)

[LIVROS] NW: A autoconstrução de duas mulheres (Resenha)

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Em entrevista à rádio KCRW, a escritora Zadie Smith comparou o papel de leitores ao de músicos amadores diante de uma partitura “feita por alguém que não conhecem, alguém que provavelmente não entenderiam completamente, e eles têm que usar suas habilidades para tocar essa música”.  Essa visão da obra literária como algo vivo a ser completado por seus leitores é integrada pela autora com maestria a NW (2012), seu quarto livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

O título se refere a uma região do noroeste de Londres habitada pela classe trabalhadora multiétnica da cidade em conjuntos habitacionais. Este é o local da criação dos colegas de escola Leah, Keisha (que se renomeia Natalie) e Nathan, assim como local de passagem para Felix, e é através deles que a vivência na cidade se torna vívida e visível mesmo para leitores que nunca a visitaram.  

NW é uma obra de tempo e de espaço, profundamente moldada por suas circunstâncias. Isto também ocorre com seus personagens, que entram em conflito entre o passado e o futuro ao tentarem construir suas vidas.

O livro começa acompanhando Leah, em uma seção chamada de Visitação. O estilo narrativo, aqui, é descontínuo, alternando entre fluxos de consciência e a realidade modesta de Leah e de seu marido, Michel. Essa escolha narrativa reforça as sensações de alienação e de apatia no presente da personagem, em um constante senso de apartação – como única mulher branca e sem filhos da ONG em que trabalha, paralisada em relação às ambições do marido e da mãe, e como uma mulher imperfeita em relação à Natalie, sua amiga mais antiga.

É com essa adequação do estilo narrativo à personagem que a autora consegue oferecer brilhantemente uma imersão profunda no que é ser cada umas das personalidades da obra. A alternância de Leah entre rompantes de consciência e desvios de ideias entrecortadas retrata o desânimo frente à maternidade indesejada que lhe é exigida e à necessidade de crescer.

A realidade em Visitação é dolorida e fugaz, camuflada em observações do cotidiano. Toda esta mistificação, porém, acaba abruptamente na relação de Leah com Natalie, o ponto mais interessante da obra.

Em Visitação, Natalie é retratada como uma mulher completamente formada – advogada em ascensão social e financeira, mãe e esposa em uma casa completamente distante do conjunto habitacional da infância. Essa visão de uma personagem em movimento, em oposição à estagnação de Leah, é ao mesmo tempo aprofundada e arruinada em Anfitriã, terceira seção do livro.

A narrativa de Natalie rompe com os desvios anteriores, contando a transformação de Keisha em Natalie por meio de vislumbres breves de muitos momentos de sua história, como alguém que relembra o passado para encontrar sentido nos problemas do presente. Esse formato funciona para a personagem ainda mais do que o escolhido pela autora para Leah, desconstruindo a imagem da mulher completamente formada e apresentando também novos contornos para sua amiga.

Keisha era uma criança determinada e inteligente em meio a uma família empobrecida de imigrantes muito religiosos, resultando em uma criação moldada pela meritocracia e pela certeza de que, como uma mulher negra, teria de trabalhar muito mais do que qualquer um para se provar. Keisha se transforma em Natalie pelo seu apreço desmedido e sem verdadeira paixão ao trabalho, qualquer que fosse, e para se afastar dessas origens.

Anfitriã contrasta essa vida externa da personagem com suas emoções e a sensação de vazio interno de forma simultaneamente delicada e impactante, construindo uma vulnerabilidade em Natalie que a torna a personalidade mais complexa e bem desenvolvida da obra. Ao atingir o presente, a narrativa dela lida com a destruição da imagem de perfeição apresentada anteriormente por Leah, demonstrando a falta de conexão de Natalie consigo mesma, à medida que busca encontrar quem um dia foi Keisha por meio de se sentir desejada em relacionamentos extraconjugais.

As dores do presente de Leah e de Natalie se reencontram por meio da sutil intersecção na obra entre os seus quatro personagens principais. A intervenção das narrativas de Felix e de Nathan resulta em um momento novo da amizade entre as personagens, explorando extraordinariamente a construção dialética de suas personalidades e a falta de pertencimento compartilhada entre elas.

A jornada até este ponto, apesar de habilmente conduzida por Zadie Smith, exige um esforço dos leitores bastante semelhante, de fato, ao de músicos amadores diante de partituras desconhecidas. Isso em grande parte se deve ao estilo adotado pela autora, combinando diferentes texturas narrativas na obra e adequando-as aos personagens focados em cada seção do livro, de modo que a interpretação depende de paciência com suas mudanças abruptas e com a convivência com o mistério, sem respostas fáceis oferecidas pela obra.

Entre Visitação e Anfitriã, a autora apresenta a seção Hóspede, dedicada a Felix. Apesar de sua presença na obra ser breve, ela é fundamental para a construção de sentido do livro, além de ser a que demonstra mais evidentemente o trabalho preciso e bem desenvolvido de Zadie Smith. Ao retratar apenas um dia na vida do personagem Felix em poucas páginas, a autora oferece um retrato complexo e envolvente de sua personalidade e do contexto que o moldou.

Apesar de, na aparência, o personagem cumprir o papel de fornecer uma ligação tênue na relação entre Leah e Natalie, a obra demonstra uma preocupação de preenchê-lo de vida e de sentido, tornando-o um de seus pontos mais interessantes, o que concretiza a maestria da escritora em relacionar os pontos mais distantes da história, além de proporcionar um contraponto e uma meta às demais personagens.

O outro destaque, nesse sentido, é para Nathan, na seção Travessia, que constituiu a quarta do livro e é a responsável por conferir coesão entre todos os personagens. A história de Nathan começa em Anfitriã como uma criança promissora que cresceu com Leah e Natalie, enquanto, ao fim, ele é retratado como uma pessoa em situação de rua.

Seu destino é expresso na obra através de dois encontros casuais com as antigas colegas, servindo também para restabelecer a conexão entre elas. O desenvolvimento de Nathan, apesar de não ter sido brilhantemente aprofundado como o de Felix, constitui um dos momentos de melhor narração do livro, além de oferecer uma visão nova e surpreendente sobre Natalie.

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Conclusão:

NW cumpre a promessa de ser um livro desafiador para seus leitores, exigindo um papel ativo para o encontro dos significados que Zadie Smith oferece. Esse esforço é recompensado por uma narrativa com texturas bem desenvolvidas e habilmente entrelaçadas, pela preocupação em se tratar profundamente de questões de gênero, raça e classe, por um retrato sensível e vulnerável de seus personagens – com destaque para Natalie e Felix ­– e, principalmente, por uma história que se preocupa com os movimentos frágeis da amizade entre duas mulheres, explorando a complexidade de sentimentos da vida compartilhada entre elas.

Fizemos uma playlist baseada no livro:


NWNW, de Zadie Smith

Companhia das Letras

336 páginas

Lançamento: 2014

Este livro foi cedido pela editora para resenha

Onde comprar: Amazon

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Autora

Estudante de Direito que gosta de criar tempo pra escrever e ouvir música. Adora ler, admirar cachorros e plantinhas, bordar e conhecer lugares novos. Ainda vai aprender a tocar muitos instrumentos.
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