[ENTREVISTA] Pri Ferrari: “É importante você conversar com seus filhos sobre gênero e homossexualidade”

[ENTREVISTA] Pri Ferrari: “É importante você conversar com seus filhos sobre gênero e homossexualidade”

Literatura infantil que incentive crianças a questionarem modelos e padrões já impostos é difícil de ser encontrada. Nesse viés de escrever para crianças, mas também para seus responsáveis e para quem quiser ler, a incrível brasileira Pri Ferrari lançou seu primeiro livro, “Coisa de Menina“. Em sua obra, repleta de ilustrações feitas pela própria autora,  a resposta é que coisa de menina é tudo que ela quiser. Conversamos com a Pri Ferrari em uma entrevista exclusiva, onde ela conta um pouco mais sobre a ideia e concepção do livro.

DN – Como surgiu a ideia de escrever “Coisa de Menina”?

Pri Ferrari – Eu desenho desde pequena. Em algumas fases eu desenhava, outras parava. Ilustrei também o livro. Entrei em contato com o feminismo quando tinha uns 15 anos. Uma amiga minha me deu o livro “O segundo sexo”, que para a maioria das meninas foi a porta de entrada para o feminismo. Agora, a porta de entrada para essa nova geração está sendo os grupos de Facebook, mas lá na minha época, era “O Segundo Sexo”, da Simone de Beauvoir. Eu lia e as vezes não entendia se eu era uma mulher feminista. Era uma coisa que ainda era muito nova naquela época. Quer dizer, não era nova, mas era nova pra mim. Quando eu tinha uns 21, 22 anos comecei a realmente entender o que que era o feminismo, apesar de eu sempre ter sido uma mulher feminista; sem saber exatamente que era um rótulo. Na verdade não é um rótulo, é um movimento que eu participava. Eu sempre estudei, participava de uns grupos, de muitos grupos de pessoas, de mulheres que discutiam a causa. Sempre gostei bastante de literatura infantil, porque no meio de muitas coisas que você precisa desconstruir de preconceitos que a pessoa tem enraizada lá no fundo, pra falar para a criança é uma coisa que ela ainda não tem um “negócio” construído. Você pode chegar e aos poucos moldar uma coisa do zero né, dependendo da educação e dos exemplos que você dá pra criança.

E aí assim, eu fiquei muito tempo pensando no “coisa de menina”. Eu já tinha um nome, eu já sabia que eu queria escrever um livro que falasse tipo: meu, que que é coisa de menina? Já tinha tudo, mas eu ainda não tinha exatamente a linguagem, eu achava que precisava contar uma história e desconstruir a história pra passar a mensagem. E aí conversando com pedagogos, com crianças, com os pais, com mães, eu aprendi que pra criança você não precisa desconstruir, só apresentar sua ideia.

Então, eu tentei mostrar em uma linguagem bem lúdica e aceitável para as pessoas que se dizem feministas e para as pessoas que ainda não entenderam muito bem o conceito – e tem um preconceito com a palavra – pudessem gostar dessa ideia de seja lá qual for seu posicionamento. Foi assim que eu tive a ideia, eu falei “vou fazer o coisa de menina” e aí foi evoluindo a ideia até chegar no livro.

DN – Já que falou de infância, você considera que foi privada de algum brinquedo por ser considerado “brinquedo de menino”?

Pri Ferrari – Sim. Assim, eu não acho que eu tenha sido mais privada do que qualquer outra menina, não que eu tenha sofrido algo especial, sabe. Eu acho que foi uma coisa, que até no contexto que eu estava, anos 90 e tal, que as pessoas ainda não conversavam sobre isso igual conversam hoje em dia, eu acho que até nisso, eu fui bem privilegiada.

Minha mãe e meu pai sempre foram aqueles tipos de pais que falam “a minha é filha é…”, sempre incentivaram o potencial, e meu pai ele desenha, fotografa, então ele sempre me colocou como capaz de qualquer coisa. Meu pai, assim, a gente andava de kart, fazia tudo junto, ele não teve muito isso na minha infância.

Mas assim, eu não tinha tantas privações do que que é “de menino” e do que que é “de menina”, tipo assim, “você não pode brincar de carro porque é coisa de menino”, mas eu sentia que tinha mais obrigações por ser menina. Tipo, você pode até brincar de carro, mas você é menina, então você tem que se comportar de certa maneira. Sabe, era mais nessa vibe. Tipo, ok, você querer gostar de super-herói, contanto que você penteie seu cabelo e sabe, use essa sainha e tipo, seja assim. Então é assim que eu senti.

Pri Ferrari

DN – Pode falar mais um pouquinho sobre isso da idade recomendável para o livro? De 3 a 6 anos?

Pri Ferrari – Na verdade, na literatura infantil, você tem as classificações que já são dadas por pedagogos que entendem até de sei lá, o tanto de palavras, qual o tamanho do livro, a ilustração… aí existem faixas etárias, tipo de a 1 a 3, 3 a 6, 7 a 9 e 9 pra cima, um negócio assim.

A gente encaixou, eu sempre falo que encaixou porque ali é dado todas essas colunas, é a faixa que a criança tá começando a entender os conceitos da vida. Mas nada impede de você tentar ler para uma criança mais nova, é mais difícil né, porque é mais difícil, mas não tem problema nenhum. É só uma burocracia.

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DN – Você consegue perceber algum avanço no debate sobre gênero dos anos 90 para a atualidade?

Pri Ferrari – Olha, eu sou uma pessoa otimista, eu sou uma pessoa muito otimista e muito pessimista ao mesmo tempo. Então, as vezes eu olho e penso “ai que horrível, nada dá certo, olha as pessoas” mas assim, no geral, as vezes eu vejo e falo “meu, tá tendo coisas acontecendo, mudanças estão ocorrendo”. Na discussão de gênero ainda tem muito pra falar. As vezes a gente tá numa bolha gigante, mas essa bolha tá aumentando. As vezes eu falo com pessoas que não são dessa bolha de cidade grande e feminista, e elas estão mostrando interesse em ter uma conversa um pouco mais aberta.

O problema que a gente tem é com as pessoas que falam que estão na frente, que são mais radicais, não no sentido rad, mas no sentido de “precisamos abrir os olhos”; mas também a gente precisa ter pessoas que verbalizem com outras pessoas.

Outras pessoas que não estão nessa bolha. Então eu acho que eu tento estar no meio, sabe. Entender que a pessoa que veio de uma família que aquela é a ideia dela de criação, ela não tá fazendo aquilo necessariamente por mal, é como ela acha que aquilo é verdade. Então, você não pode chegar “dando um soco no peito” da pessoa e falar: tudo que você viveu é uma mentira e não existe gênero. Tem que conversar, porque se não você não vai ter uma mudança real. Tem que mostrar entendimento, mostrar respeito pela vida da pessoa. Então é assim que eu vejo que as coisas estão mudando.

Eu acredito que tem uma mudança, eu acredito que hoje em dia, apesar de ser uma coisa ainda muito elitista, tá tendo uma conversa de gênero, por mais que as vezes os canais não sejam os melhores e até a mensagem não seja assim a melhor. Tudo bem, é um problema a Fernanda Lima fazer um programa pra globo e etc, mas também está trazendo um recado. Sabe, tem toda essa discussão, mas no final das contas, eu acredito que é mais positivo do que negativo.

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DN – Qual contribuição você espera deixar com o livro?

Pri Ferrari – A minha expectativa é que o livro se torne uma ferramenta. Eu acho que o importante é você conversar com seus filhos sobre gênero, sobre homossexualidade, de um jeito normal. Você usar a normalidade do mundo. Aí se você vai usar o livro ou não, tudo bem, o livro é uma ferramenta.

DN – Tem alguma mensagem que você quer deixar para as crianças, ou para os pais, que forem ler seu livro? Para as pessoas que forem ler seu livro?

Pri Ferrari – Eu acho que o livro é uma ferramenta, mas o mais importante, converse com seus filhos. Crie concenteitos que sejam positivos para o mundo, pense nas coisas que você tá passando. Porque as vezes a gente fala as coisas mas esquece de pensar “por que eu to falando que isso não pode, isso pode, que o certo é assim e o errado assim?” Se questione, antes de passar para uma próxima geração, assim a geração futura não precisa passar pelo mesmo processo de desconstrução.

Vamos evoluir as ideias. Então eu acho que é isso. Acho que a gente pode ter consciência disso e ser mais conscientes nas próximas gerações. Vamos torcer para a próxima geração ser muito boa, vamos participar para que ela seja muito boa. Vou tentar fazer meus livros aqui para que eles sejam ferramenta, mas o maior importante é o diálogo.

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Feminista e estudante de serviço social. Ama Star Wars e é viciada em gatos. Adora conversar sobre gênero e brinca de ser gamer nas horas vagas. Nunca superou o fim de The Smiths.
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