[ENTREVISTA] Minna Miná: Arte, autenticidade e fantasia

[ENTREVISTA] Minna Miná: Arte, autenticidade e fantasia

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Originalidade é a característica mais marcante na arte de Minna Miná, cujas ilustrações se destacam pela atmosfera fantástica e pelos personagens de feições compridas e longos pescoços. A artista paraibana – que além de ilustrar também trabalha com xilogravura, linoleogravura, serigrafia e até escultura – já participou de inúmeros projetos. Dentre eles, fez ilustrações para a editora Abril, ilustrou a capa de um livro feminista e terá sua primeira narrativa gráfica lançada pelo Catarse em breve. Descubra um pouco sobre o universo da ilustradora.

Minna Miná

DN – Com quantos anos você começou a desenhar? E a vontade de seguir carreira como ilustradora existe desde então?

Minna Miná: Não lembro com quantos anos comecei a desenhar. Acho que, na verdade, não lembro de não desenhar. Meus pais até costumam contar que decidiram me dar papéis para que eu parasse de riscar as paredes de casa! Cresci em um ambiente muito favorável, meus pais sempre me estimularam bastante.

Inicialmente, desenhar era um passatempo. Com o tempo, virou uma necessidade, a minha válvula de escape e melhor forma que eu tinha de me expressar. Então não demorou até que eu considerasse a carreira de ilustradora, o que aconteceu por volta dos 16, 17 anos de idade (quando também sonhava em ser uma cineasta).

DN – Seu traço é muito único. Sua identidade é perceptível em cada um de seus desenhos – maravilhosos, por sinal. Como você fez para desenvolver um estilo pessoal, e ficar satisfeita com ele? Você se inspirou em quê e/ou em quais outros artistas?

Minna Miná: Muito obrigada! Acho que, devido à prática e ao aprendizado de novas técnicas, meu traço de hoje é bem diferente de quando desenhava quando criança. Durante a adolescência, lembro que tentava fazer desenhos e pinturas realistas, me aproximar ao máximo de uma fotografia. Mas então me dei conta que poderia explorar outros aspectos da ilustração se não me preocupasse em retratar o mundo como ele é, mas como eu o via.

Assim que passei no vestibular, decidi me dedicar a praticar o desenho diariamente na intenção de desenvolver um estilo próprio. Percebi que antes, quando tentava desenhar realisticamente, eu sempre errava nas proporções humanas e nas perspectivas. Então decidi me desprender dessa noção de erro e tentar desenhar de forma mais natural, sem muita pretensão. E isso ainda é algo que repito para mim mesma. Nessa época, Van Gogh e Toulouse Lautrec eram meus heróis e minha inspiração eram os livros, filmes e as minhas próprias experiências. E foi assim que uns 8 meses depois surgiu a oportunidade de expor pela primeira vez meus personagens estranhos e de pescoços grandes.

DN – Quais são seus materiais favoritos de pintura? Você também se interessa por desenho e pintura digitais, ou prefere fazer tudo de forma tradicional? Por quê?

Minna Miná: Gosto de experimentar vários materiais e combiná-los de formas diferentes. Atualmente tenho trabalhado bastante em técnica mista tradicional sobre papel, usando tinta acrílica, aquarela, guache, lápis de cor, pastel e lápis grafite. Mas também tenho procurado integrar mais as técnicas tradicionais com as digitais, porque acredito que ambas possuem suas peculiaridades. Gosto da facilidade e rapidez do digital, mas adoro as imperfeições e materialidade próprias do tradicional.

DN – Você recentemente fez a capa e as aberturas de capítulo do livro “Feminismo popular e lutas antissistêmicas”, da Carmen Silva. Pode nos falar sobre como foi a experiência, e contar um pouco da sua própria relação com o feminismo?

Minna Miná: Foi uma felicidade muito grande poder fazer esse trabalho por se tratar da primeira vez que fiz capa de livro, algo que sempre quis fazer, pois amo livros. Além disso, me senti honrada por ter sido escolhida para o ilustrar um trabalho tão interessante e contemporâneo.

Desde pequena, minha mãe sempre deixou claro que uma menina tinha os mesmos direitos que os meninos; que se eu quisesse, poderia jogar bola, gostar de azul, ou qualquer coisa do tipo. Via na casa minha avó e tias as tarefas sendo divididas igualmente e escutava vovó falar sobre a gente não precisar de ninguém para se valorizar. Cresci rodeada de mulheres muito fortes e inteligentes, que mesmo sem se dar conta, me ensinaram bastante sobre isso que depois aprendi que se chamava feminismo.

Minna Miná

DN – Como você vê o cenário artístico para mulheres hoje em dia, especialmente no Brasil e no Nordeste? Que outras ilustradoras – brasileiras ou não – você admira?

Minna Miná: Eu vejo que hoje há um cenário muito mais propício para o lançamento e crescimento de artistas por conta da internet, de redes sociais e plataformas como o Catarse. Estou há pouco tempo no meio, mas vejo que apesar dessas facilidades, ainda é difícil viver exclusivamente da arte. E acho que isso acontece tanto com homens, quanto com mulheres, apesar das mulheres ainda enfrentarem mais desafios, infelizmente.

Aline Beuttenmüller e Juliana Fiorese moram aqui em João Pessoa e faz muito tempo que admiro o trabalho delas, faço questão de acompanhar sempre. As europeias Julia Sardá, Rebecca Dautremer, Isabelle Arsenault e Maria Herreros possuem um trabalho muito consistente e premiado no mercado. Tô sempre procurando aprender com o trabalho delas, que é simplesmente incrível.

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DN – Dentre as inúmeras produções audiovisuais das quais você fez parte do roteiro, da direção ou da produção, destaca-se o “Metal Armorial”, um curta metragem de animação, em que você ficou responsável pela parte de ilustração e design. Foi sua primeira experiência com animação? E como foi? Você se vê trabalhando com isso no futuro? Aproveita e conta um pouco sobre do que se trata o filme.

Minna Miná: Acho que os stop-motions que fazia quando criança, com massinha e uma câmera de 12 megapixels não entram nessa conta. “Metal Armorial” foi minha primeira animação 2D e foi produzida por Pedro Jácome e animada por Beethowen Souza. Trata-se de um videoclipe para a música “No chão do Cariri”, onde um jovem aventureiro vaga pelas terras do cariri e, ao se deparar com uma bifurcação, precisa optar pelo caminho que o levará até o canto da sereia, ou à estrada de volta para sua vida camponesa e simples ao lado de sua esposa. A animação mescla elementos da xilogravura, dos quadrinhos e faroeste.

Desde a primeira reunião, até o lançamento, trabalhamos na animação por um pouco mais de ano e foi o projeto mais desafiador e estimulante que já fiz parte. Eu e Beethowen tivemos liberdade de criação, de propor novas coisas, o que foi muito prazeroso. Além disso, vi meus desenhos ganharem vida, o que foi lindo. Sempre fui apaixonada por animações e adoraria fazer mais. Inclusive, estamos com mais outro projeto em parceria em mente.

Minna Miná

DN – Além de desenhar e pintar, você também trabalha com outros materiais e técnicas, como escultura, xilogravura, etc. Fala um pouco sobre os seus projetos relacionados a esse mundo artístico “alternativo”.

Minna Miná: Gosto de experimentar e testar coisas novas, então acabo me aventurando com massa clay, serigrafia, ou até misturar várias dessas coisas e ver o que acontece. Às vezes dá certo, às vezes não, mas no fim das contas o que me motiva é a vontade de aprender e tentar sempre melhorar, não permanecer igual. É também uma forma de conhecer novas técnicas e linguagens que mais tarde possam ser incorporadas em trabalhos comerciais. Sem falar que acho muito prazeroso fazer um trabalho cuja maior motivação é aprender e, claro, talvez se sujar um pouquinho de tinta.

DN – Você está trabalhando em algum projeto, no momento? Se sim, em quê? E tem planos futuros em mente?

Minna Miná: Meu projeto mais recente é a narrativa gráfica experimental “Onde as gaivotas fazem seus ninhos”, que comecei a fazer ano passado, durante o intercâmbio na cidade do Porto, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Acabei de defendê-lo e em breve vou lançá-lo no Catarse e espero muito conseguir apoio para imprimir!

A história trata de quatro jovens (um viajante, uma executiva, uma imigrante e um menino de luto) que vivem em uma cidade europeia e apesar de não se conhecerem e se cruzarem várias vezes durante o dia, possuem muito em comum. Além da solidão, todos eles estão à procura de um ninho, um abrigo do cotidiano.

Os quatro personagens têm suas histórias narradas paralelamente e de forma enviesada. Se passa no Porto, e foi baseada nas minhas experiências e vivências naquela cidade tão encantadora e com tantas gaivotas. Foram mais de 180 ilustrações feitas manualmente em técnica mista, produzidas durante cinco meses e posteriormente digitalizadas e diagramadas digitalmente.

Minna Miná

DN – Para finalizar, que dicas você dá às meninas que querem seguir carreira no mundo artístico?

Minna Miná: Acho que é muito importante praticar com frequência e também não se acomodar, sempre se desafiar e experimentar. Depois, não ter medo nem vergonha de expor o trabalho e estar aberta para opiniões e críticas. E, acima de tudo, se divertir, fazer tudo com muito amor e não desistir.

Para acompanhar o trabalho da Minna:


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Admiradora de tudo que envolve arte, cultura (especialmente a japonesa) e filosofia. Mãe de dois gatos, feminista e vegetariana. Em seu tempo livre descobre bandas inexploradas, fotografa e tenta desvendar a personalidade MBTI alheia (é INFP, por sinal). Considera The Office o ápice da humanidade.
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