[CINEMA] Como Nossos Pais: As relações entre as mulheres e o fim da reprodução do patriarcado

[CINEMA] Como Nossos Pais: As relações entre as mulheres e o fim da reprodução do patriarcado

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O mais novo filme de Laís Bodanzky (“Uma História de Amor e Fúria”, de 2013, “As Melhores Coisas do Mundo”, de 2010, “Chega de Saudade”, de 2007, “Bicho de Sete Cabeças”, de 2000, e outros) chega aos cinemas no dia 31 de agosto e já teve seu sucesso reconhecido. Bem recebido pela crítica e pelo público internacional, após a exibição em diversos festivais pelo mundo, Como Nossos Pais levou seis Kikitos de Ouro no Festival de Gramado. Laís, além de diretora, assina o roteiro ao lado de Luiz Bolognesi, seu marido.

A produção tem um elenco afinadíssimo e do tamanho certo para contar a delicada história da protagonista Rosa (Maria Ribeiro). Além dela, marcam presença Clarisse Abujamra (Clarisse), Paulo Vilhena (Dado), Jorge Mautner (Homero), Felipe Rocha (Pedro), Sophia Valverde (Nara), Annalara Prates (Juju), além de Herson Capri (Roberto Nathan), em participação especial.

Rosa, a protagonista do filme, tem 38 anos e vive em São Paulo. É filha de Clarisse, com quem mantém relação conturbada e difícil. A tensão entre mãe e filha é o eixo pelo qual se desenvolve a história. A personagem principal é casada com Dado, mãe de Nara e Juju, e filha de Clarisse e Homero.

O filme começa durante um almoço de família, ocasião em que Rosa recebe uma notícia que abalará suas certezas e a colocará numa busca sobre quem é e o que fará para prosseguir com sua jornada. Ela parece viver quase sempre no limite da razão, dividida entre as tarefas do lar e os cuidados com as filhas. Sua ocupação profissional, a de escrever catálogos de louças e pias sanitárias, é frustrante e não lhe traz qualquer prazer ou sentido de realização. Para além disso tudo, Rosa passa por uma crise em seu casamento. Exausta e confusa, a protagonista de Laís Bodansky espelha o estado de espírito de boa parte das mulheres de nosso tempo.

Como Nossos Pais
Como Nossos Pais/Facebook (Reprodução)

Na coletiva de imprensa dada pela diretora e pelo elenco do filme, na noite de pré-estreia em São Paulo, Laís afirmou que seu principal objetivo ao realizar esse filme era fazer com que as mulheres se identificassem com a história. E que a obra, de alguma maneira, contribuísse para uma mudança em suas vidas.

O filme discute temas muito caros às mulheres de uma forma direta e bem realista, e logo de cara nos identificamos com a história, as questões e os sentimentos de Rosa: culpa, perfeccionismo, dupla jornada de trabalho, preocupação com os filhos, manutenção do casamento, monogamia, sexo. São temas praticamente onipresentes na vida de qualquer mulher e objetos de reflexão (e também) angústia constante para aquelas que não estão mais dispostas a continuar desempenhado o papel de meras executoras de tarefas que a sociedade patriarcal lhes impôs.

Como Nossos Pais
Como Nossos Pais/Facebook (Reprodução)

Porém, é na relação entre as mulheres do filme que encontramos a reprodução de comportamentos que herdamos de gerações passadas, e que muitas vezes refletem apenas e tão somente o pensamento do patriarcado. É este aparente paradoxo, o das mulheres reproduzirem comportamentos machistas e, ao mesmo tempo, de tentarem escapar deles e enfrentá-los, que serve como gancho para a história decolar.

Temos um modelo de comportamento e anos de civilização baseada na ideia de que as mulheres são inferiores, dignas apenas de gerarem filhos e executar funções que os homens consideram menos importantes. E para romper com esse modelo de forma mais definitiva, temos que tratar das relações entre nós, mulheres. Um bom começo para isso, é seguir a sugestão da própria Laís Bodansky, quando ela apresenta esse reencontro entre Rosa e Clarisse: duas mulheres divididas por uma geração, lutas vencidas, amores perdidos, desencontros e a certeza de que ser mulher é lutar diariamente para ser ouvida e respeitada.

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Clarisse, muitas vezes parece dura e até fria com Rosa, talvez tentando transmitir a ideia de que, antes de sermos mães, esposas ou profissionais, devemos ser guerreiras. Rosa, por sua vez, entende que é preciso rever as relações entre mães e filhas para que consigamos seguir adiante sem grandes mágoas e cicatrizes. Para ela, é essencial sermos capaz de entender as questões geracionais e, juntas, construirmos relações de irmandade e acolhimento.

Como Nossos Pais
Como Nossos Pais/Facebook (Reprodução)

Porém, nós mulheres, ainda nos deparamos com o símbolo e a representação da mãe, que exige de suas filhas a sabedoria de uma “boa esposa”. Isso pode ser bem confuso nos dias de hoje, num momento onde o casamento monogâmico vem sendo debatido e questionado enquanto modelo de relacionamento, e o entendimento sobre a maternidade e os papéis da mãe e pai vem trazendo à luz discussões sobre a divisão de tarefas na hora de educar e cuidar dos filhos e da casa.

Rosa descobre que para tomar as rédeas de sua vida e ganhar espaço como mulher e dona de seu destino, é preciso que ela faça as pazes com sua mãe, se redescubra como mulher e estreite ainda mais seus laços com as filhas, no intuito de construírem juntas uma relação baseada no respeito, empatia e aceitação.

Parece que é somente no acolhimento da outra e no encontro consigo mesma, que a mulher pode sustentar um caminho com mais liberdade, empoderada de quem é e daquilo que representa.

Será que seguiremos sempre como nossas mães? Se depender de Rosa, Laís, Clarisse e Maria Ribeiro, as mulheres continuarão buscando forças para reverter suas histórias e conduzir suas vidas como lhes for mais conveniente e possível.

Como Nossos Pais
Como Nossos Pais/Facebook (Reprodução)

Em Como Nossos Pais, assistimos apenas um recorte da vida de Rosa, justamente o momento em que ela se dá conta que não quer mais reproduzir os comportamentos que herdamos de nossas mães, mesmo forçando-se a compreender as diferenças com Clarisse. O fosso geracional que as separa, não precisa ser exatamente intransponível, e a própria condição feminina é a única forma possível de criar pontes entre elas.

Rosa decide, por fim, se posicionar sobre quem é e o que quer, porém, para nós, espectadoras, nos foi deixado a responsabilidade de descobrir como continuar a história iniciada pela Rosa, de Laís Bodanzky, mas que outras Rosas já começaram antes, inclusive nossas mães.

Como Nossos Pais estreia dia 31 de agosto nos cinemas.

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O canal A Lente Escarlate, realizado por uma das nossas colaboradoras, a Samantha Brasil, fez um excelente vídeo comentando sobre o filme, confiram:


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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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